Bíblia
A união faz a força: comentário à 2.ª leitura de 27.1.2013
«Irmãos: Assim como o corpo é um só e tem muitos membros, e todos os membros do corpo, apesar de numerosos, constituem um só corpo, assim sucede também em Cristo.
Na verdade, todos nós – judeus e gregos, escravos e homens livres – fomos batizados num só Espírito para constituirmos um só corpo e a todos nos foi dado a beber um só Espírito.
De facto, o corpo não é constituído por um só membro, mas por muitos. Se o pé dissesse: «Uma vez que não sou mão, não pertenço ao corpo», nem por isso deixaria de fazer parte do corpo. E se a orelha dissesse: «Uma vez que não sou olho, não pertenço ao corpo», nem por isso deixaria de fazer parte do corpo. Se o corpo inteiro fosse olho, onde estaria o ouvido? Se todo ele fosse ouvido, onde estaria o olfato?
Mas Deus dispôs no corpo cada um dos membros, segundo a sua vontade. Se todo ele fosse um só membro, que seria do corpo? Há, portanto, muitos membros, mas um só corpo.
O olho não pode dizer à mão: «Não preciso de ti»; nem a cabeça dizer aos pés: «Não preciso de vós». Pelo contrário, os membros do corpo que parecem mais fracos são os mais necessários; os que nos parecem menos honrosos cuidamo-los com maior consideração; e os nossos membros menos decorosos são tratados com maior decência: os que são mais decorosos não precisam de tais cuidados.
Deus organizou o corpo, dispensando maior consideração ao que dela precisa, para que não haja divisão no corpo e os membros tenham a mesma solicitude uns com os outros.
Deste modo, se um membro sofre, todos os membros sofrem com ele; se um membro é honrado, todos os membros se alegram com ele. Vós sois corpo de Cristo e seus membros, cada um por sua parte.
Assim, Deus estabeleceu na Igreja em primeiro lugar apóstolos, em segundo profetas, em terceiro doutores. Vêm a seguir os dons dos milagres, das curas, da assistência, de governar, de falar diversas línguas. Serão todos apóstolos? Todos profetas? Todos doutores? Todos farão milagres? Todos terão o poder de curar? Todos falarão línguas? Terão todos o dom de as interpretar?» (1 Coríntios, 12, 12-30)
***
Dito de outra maneira: «a cada um a sua função; mas, atenção, nada de vos tratardes com desprezo mútuo, lembrai-vos que todos precisam de todos». Este longo desenvolvimento de Paulo prova pelo menos uma coisa: a comunidade de Corinto conhecia exatamente os mesmos problemas que nós.
Para oferecer um ensinamento aos seus fiéis, Paulo recorre a um método que tem mais resultados do que todos os discursos: propõe-lhes uma comparação. Na verdade ela não foi completamente inventada, mas é ainda melhor: ele utiliza uma fábula e adapta-a ao seu objetivo.
A história, intitulada "A fábula dos membros e do estômago", existia já ao tempo de Esopo, 700 anos antes de Cristo, e era conhecida pelos contemporâneos de S. Paulo. Encontramo-la na "História Romana de Tito Lívio"; e mais próximo de nós, La Fontaine, no séc. XVII, dispô-la em verso.
Como todas as fábulas começa por «Era uma vez». «Era uma vez», então, um homem como todos os outros... à exceção do facto de todos os membros do seu corpo falarem e discutirem entre si! E, aparentemente, não tinham bom feitio. E, provavelmente, alguns deviam ter a impressão de ser menos considerados ou de terem as suas capacidades menos exploradas.
Um dia, durante uma discussão, os pés e as mãos revoltam-se contra o estômago porque ele contenta-se a comer e beber o que os outros membros lhe dão... Tudo é prazer para ele! Não é ele que se cansa a trabalhar, a cultivar a vinha, a fazer as compras, a cortar a carne, a mastigar,... Por isso decidiram simplesmente fazer greve. A partir de então ninguém se mexe: o estômago depressa verá o que lhe acontece. E se ele morre de fome, rirá melhor quem rir por último... Só houve um pequeno esquecimento: se o estômago morre de fome, não será o único. Esse corpo, como todos os outros, é um todo, e todos precisam de todos.
S. Paulo retomou do capital cultural do seu tempo um discurso muito fácil de compreender. E, para o caso de alguém não o entender, deu-se ao trabalho de explicar a sua parábola do corpo e dos membros. Para ele a moral desta história é esta: as nossas diversidades são o nosso sucesso, na condição de fazer delas instrumentos de unidade.
Um dos pontos marcantes das palavras de S. Paulo é que, nem por um instante, fala em termos de hierarquia ou superioridade. Judeus ou pagãos, escravos ou homens livres, todas as nossas distinções bem humanas não interessam. A partir de agora só uma coisa conta, o nosso Batismo no único Espírito, a nossa participação nesse corpo único, o corpo de Cristo.
Acabaram as considerações de superioridade ou inferioridade. A perspetiva de Deus é totalmente outra: «Entre vós não deve ser assim», dizia Jesus aos seus apóstolos. Mas, reconheçamo-lo, deixar de pensar em termos de superioridade, de hierarquia, de saliência, de honra é bem difícil.
Paulo, ao contrário, insiste no respeito devido a todos: simplesmente porque a dignidade mais elevada, a única que conta, é ser um membro, qualquer que seja, do único corpo de Cristo. O respeito, em termos etimológicos, é uma questão de olhar: por vezes não vemos as pessoas que não nos parecem importantes, o nosso olhar não se demora sobre eles.
Inversamente, acontece-nos a todos avaliar a nossa pouca importância aos olhos de qualquer um: o seu olhar passa por nós como se não existíssemos. São Paulo dá-nos aqui uma formidável lição de respeito: respeito das diversidade, por um lado, e respeito da dignidade de cada pessoa, qualquer que seja a sua função.
Marie Noëlle Thabut
In Conferência Episcopal Francesa
© SNPC (trad.) |
26.01.13

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