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Vivi com um santo

«Vivi junto de um santo. E precisamente porque tive essa grande bênção espiritual, e porque foi ele próprio, quando era bispo, a ordenar-me ministro de Deus, há cinquenta anos, quero prestar homenagem à sua pessoa, ao grande património que nos deixou (...).»

Oito anos depois da morte de João Paulo II, o cardeal Stanislao Dziwisz, seu secretário pessoal, percorre a vida do papa polaco à procura dos traços distintivos da sua santidade, que vai ser proclamada solenemente a 27 de abril.

Lançado em Portugal no mês de março, a obra "Vivi com um santo" transcreve a conversa que o prelado manteve com o jornalista Gian Franco Svidersoschi, ex-subdiretor do jornal "L'Osservatore Romano".

O volume, de que apresentamos seguidamente um excerto, permite compreender melhor o papa que «mudou a História da Igreja e do Mundo, mas também ver Karol Wojtyla numa dimensão mais humana, mais íntima, mais pessoal».

 

"Vivi com um santo"
Stanislao Dziwisz, Gian Franco Svidercoschi

O que significará, para a Igreja e também para a Humanidade, a proclamação de um santo como Wojtyla? A sua memória ficará ligada à festa litúrgica de 22 de outubro, às novas estátuas que erigiram em sua honra, às praças que lhe dedicaram, a um qualquer convénio de elevado nível científico? Apenas isso?

E se fosse apenas isso, não nos levaria talvez a pensar na incapacidade, ou pelo menos na dificuldade, da Igreja em ler nos acontecimentos desta pasagem de milénio aquilo que Deus quis dizer ao fazer-lhe o dom de um homem assim?

Mas não, não é possível! É verdade que hoje estamos imersos numa cultura que faz passar muito rapidamente do máximo de exaltação ao esquecimento. Mas há uma herança de João Paulo II - no plano humano, espiritual, pastoral, assim como no plano do governo universal - que permaneceu nos corações dos crentes e também de muitos que não têm qualquer fé religiosa. Permaneceu na vida e na missão da Igreja Católica, nas relações com as outras igrejas cristãs, com as outras religiões, além de ter permanecido na História da Humanidade.

No entanto, esse grande património não deverá agora ser simplesmente guardado, conservado num museu, mas ser retomado, aprofundado, desenvolvido, e depois traduzido, ou antes, gostaria quase de dizer interiorizado, na comunhão eclesial, na ação evangelizadora. Desse modo poderá ser então uma ajuda na missão de Francisco - em quem encontro cada vez mais afinidades com Karol Wojtyla -, para guiar e orientar o caminho futuro do catolicismo.

Portanto, há na realidade uma herança que Wojtyla nos deixou, uma herança no plano humano e espiritual. É como se tivesse sido desenvolvido um novo modo de ser cristão, isto é, um novo modo de viver a fé hoje, de testemunhar Deus na sociedade moderna.

Penso que toda a sua vida foi um testemunho da verdade em que ele acreditava. Ensinou-nos que não basta encher a boca com Deus, não basta falar dele; em vez disso, é necessário encontrá-lo, fazer uma experiência de Deus profunda, vivificante. E no centro desse caminho de santificação pessoal há sempre, naturalmente, a oração. Em resumo, uma fé vivida, coerente, corajosa, nunca fechada em si mesma e, precisamente por isso, capaz de gerar continuamente esperança, nova esperança.

Poder-se-ia chegar a dizer que Karol Wojtyla, levando-nos a fazer uma nova experiência de Deus, de um Deus já não afastado do Homem e da História humana, foi o Papa da Incarnação. Porque é verdade que todos os pontífices, pela sua própria missão, são predominantemente intérpretes e instrumentos da paternidade divina. Mas porque conseguiu no seu magistério superar o confronto entre Deus e o Homem, e sobretudo pela forma como proclamou, com a sua missão, a centralidade do Homem no contexto do projeto divino de salvação, João Paulo II soube mostrar-nos o rosto de Deus, o rosto humano de Deus. E, em particular, soube mostrá-lo a gerações inteiras de jovens, alguns dos quais tinham crescido sem saber nada acerca da dimensão religiosa da vida, sem terem qualquer contacto com a realidade do sagrado.

E assim, atrevo-me a dizer que o Papa Wojtyla lançou as bases para uma nova espiritualidade. Uma espiritualidade que já não é predominantemente apoiada na clerical, na da vida religiosa, mas que possa, pelo contrário, exprimir melhor a riqueza interior do leigo cristão e, ao mesmo tempo, o ajude a transferir essa riqueza para a esfera temporal, para os seus compromissos sociais. Sem temores. Sem complexos de inferioridade. E tornando-se assim portador de um estilo de vida diferente daquele que é imposto pelas modas culturais das pretensas «maiorias».

Em suma, como já ficou dito, Wojtyla deu-nos um testemunho de como podemos viver as bem-aventuranças no mundo de hoje...

Exatamente. E se quisermos "catalogar" João Paulo II entre as diversas categorias de bem-aventurados, vou recorrer à imagem do justo, daquele que tem estampada em si uma das duas escolhas fundamentais da existência humana, a escolha de Deus, do bem, em oposição ao mal, à negação de Deus. Um pouco como se lê no primeiro salmo: «Ele é como a árvore plantada à beira da água corrente: dá fruto na estação própria e a sua folhagem não murcha; em tudo o que faz é bem-sucedido...».

E como sinal distintivo de Wojtyla, homem justo, eu escolherei, sem dúvida, o da mansidão, que na tradição bíblica significava algo bem diferente de falta de coragem. Karol Wojtyla era de facto um manso no mais pleno sentido evangélico. Era um manso, recordava eu, porque encontrava a sua força na verdade em que acreditava, na sua fé profunda. Porque era um pacífico, um construtor da paz, mas não um pacifista, e se opunha decididamente a tudo aquilo que é violência, injustiça, ofensa à dignidade humana. E depois, exatamente porque era um manso, realizava em si a dupla relação do facto de ser cristão: a relação com Deus, o Criador, e a relação com o outro, com o próximo.

E tudo isso leva a fazer refletir sobre a forma como Karol Wojtyla terá entendido e vivido pessoalmente a santidade.

O Concílio Vaticano II tinha-o afirmado a propósito da vocação universal à santidade. Mas Karol Wojtyla estava convencido disso desde sempre. Estava convencido disso desde o tempo em que o alfaiate-catequista Jan Tyranowski, que lhe tinha feito descobrir o misticismo carmelita, lhe começou a repetir a frase de um amigo sacerdote: «Não é difícil ser santo.»

Não há apenas a santidade vivida em grau heroico pelos mártires, pelos grandes confessores da fé. Há uma santidade que pode ser vivida também na vida de todos os dias, também no silêncio, também numa condição de humildade, sendo, no entanto, uma santidade que sabe igualmente dar frutos imensos, maravilhosos. Uma santidade nem sempre reconhecida pelos olhos humanos, mas certamente reconhecida pelos de Deus.

Pois bem, penso que foi precisamente esse testemunho de santidade quotidiana, nas pequenas como nas grandes coisas, nas relações com os outros, no facto de «fazer todos os dias a vontade de Deus» - como dizia sempre a madre Teresa de Calcutá -, e depois, acima de tudo, essa santidade vivida no sofrimento, na doença, na aproximação do fim, que constituiu um dos dons mais preciosos que Karol Wojtyla nos deixou.

No dia em que beatificou João XXIII e Pio IX, o Papa Wojtyla observou que a santidade vive na História e que, por isso, nenhum santo é subtraído aos limites e aos condicionamentos próprios da Humanidade do seu tempo. É uma consideração que agora se pode aplicar também a ele, João Paulo II, como poderá talvez ser mencionado durante o processo de canonização.

Mas foi precisamente esse o ensinamento que Karol Wojtyla nos transmitiu com o seu testemunho pessoal. Disse-nos que os limites humanos não são limites à bondade e à misericórdia de Deus, nem tão-pouco à possibilidade que Ele oferece a todas as suas criaturas de contribuírem livremente para a realização da sua obra de salvação.

Portanto, a santidade vista como «medida para a vida cristã ordinária». Definindo-a assim, na Novo millennio ineunte, o Papa Wojtyla estava, sem querer, a descrever a sua própria existência.

E quanto ao Concílio Vaticano II, João Paulo II escreveu-o também no seu testamento: o concílio tinha sido o «enorme objetivo» do seu pontificado. Escreveu sobre a sua atualidade, sobre a sua importância, dizendo estar convencido de que as novas gerações levariam ainda muito tempo para encontrar toda a sua riqueza.

Também essa, ou melhor, sobretudo essa é uma herança que é retomada, desenvolvida. Karol Wojtyla participou como bispo no concílio e depois, como Papa, viveu-o nos seus ensinamentos, na sua missão pastoral, através das viagens e intensificando o empenhamento da Igreja - com um papel de protagonista numa dimensão cada vez mais universal - na defesa dos direitos humanos, em particular da liberdade religiosa; no diálogo, tanto ecuménico, com as outras igrejas cristãs, como inter-religioso, principalmente com o judaísmo e o Islão; e ainda nas frentes da justiça, da paz, da promoção de uma nova ordem internacional.

Mas principalmente é um concílio ainda por aprofundar, um concílio ainda por realizar. Quero referir-me à constituição doutrinal Lumen gentium, isto é, à colegialidade episcopal, ao lugar e às responsabilidades dos leigos na Igreja, em particular das mulheres, cuja presença é cada vez mais determinante em muitos setores da vida católica.

Desses temas, como se sabe, falou-se muito nas congregações gerais, antes do último conclave.

E, logo nestes primeiros meses de pontificado, vi com grande alegria o Papa Francisco referir-se precisamente a essas realidades, a essas esperanças. A sua pregação parece-me preparar perfeitamente o clima, o novo clima eclesial, no qual será possível desencadear uma grande reforma.

Ligado à atuação do concílio, ligado à futura reforma, há o projeto de Igreja que João Paulo II tinha começado, não só a implementar, mas também a «viver» concretamente no seu ministério.

Sim, é certo que o Papa Wojtyla realizou uma renovação gradual e ao mesmo tempo profunda, quer na linha das indicações do Vaticano II, quer em resposta às exigências que emergiam da vida das comunidades cristãs e, de um modo mais geral, da História da Humanidade, uma História muitas vezes caracterizada por conflitos e tragédias. Uma prova disso é que a Igreja Católica - precisamente como consequência de uma missão evangelizadora que abraça agora os povos de todo o Mundo - voltou a ser uma Igreja banhada pelo sangue dos mártires, cristãos mortos pelo ódio à fé, mas também, em número cada vez maior, por causa da sua solidariedade com as pessoas mais pobres e indefesas.

Claro que não foi, nem podia ser, uma revolução, aquilo que foi realizado por João Paulo II. E, no entanto, as mudanças existiram, puderam ser vistas. Por exemplo, os progressos no plano propriamente espiritual, em particular no âmbito bíblico-litúrgico, e, por outro lado, um peso cada vez menor da burocracia, do clericalismo e também de um certo moralismo, que é a versão negativa de uma verdadeira moral cristã. E depois, uma maior comunhão entre os diversos componentes do povo de Deus, das paróquias aos novos movimentos, aos jovens, à religiosidade popular. E ainda, uma Igreja que se confronta abertamente com a modernidade, com a laicidade, e mostra mais consideração pela liberdade e pela subjetividade do Homem. Uma presença na sociedade entendida, no entanto, não como outrora, para ocupar espaços de poder, mas para reivindicar o respeito pelos valores próprios dos crentes. E o impulso missionário renovado, com as duas diretrizes da nova evangelização, para o Sul do Mundo, mas também para o Ocidente, especialmente para a Europa...

Limitei-me a indicar apenas alguns aspetos, alguns temas, algumas situações. Mas, como dizia, penso que se podem já verificar os primeiros resultados da grande sementeira realizada pelo Papa Wojtyla graças também à sua extraordinária capacidade comunicativa - no húmus profundo do catolicismo. De facto, a Igreja de hoje é seguramente uma Igreja que oferece uma imagem mais transparente, mais linear, do amor de Deus, da sua misericórdia. É uma Igreja mais livre, mais corajosa, mais jovem, mais credível, que se propõe como companheira de viagem à Humanidade no seu difícil caminho.

Mas também é verdade que precisamente nesse aspeto, em relação com a implementação das diretivas do concílio, se registaram as resistências mais fortes, falhas, atrasos. Nem sempre os dons que Karol Wojtyla deixou em herança à Igreja foram compreendidos ou, pior ainda, aceites no interior da própria Igreja.

Aquilo que para mim é importante é que João Paulo II tenha aberto um caminho e tenha indicado a direção. Não creio que se possa voltar atrás, a uma Igreja com as pontes levadiças erguidas, como uma fortaleza assediada. E depois (devo dizer a verdade?) confio muitíssimo no Papa Francisco. A Igreja que ele tem na ideia, como pastor que foi, não creio que seja muito diferente daquela em que pensava João Paulo II.

Surgia a interrogação, logo desde o início, acerca do significado que poderia ter um santo como Karol Wojtyla para lá das fronteiras da Igreja, para além do grupo dos crentes...

Tinha-lhe sido confiada uma Palavra para anunciar, para dar a conhecer, e era sua convicção profunda que devia voltar-se para todos os homens de boa vontade, para toda a família humana. E foi o que fez. E precisamente graças ao seu carisma, à sua credibilidade de testemunha e de intérprete da sabedoria de Deus, pôde dar um grande contributo, nalguns casos decisivo, para a causa da paz, para a convivência entre os homens e entre os povos.

E também essa é uma herança que não deve ser confiada apenas aos livros de História, mas, pelo contrário, deve poder levedar, dar fruto. A experiência demonstrou que, se a Igreja está mais próxima do mundo, também o mundo, por sua vez, está mais próximo da Igreja. E foi isso que, pelo menos nos últimos anos, permitiu reforçar muito a autoridade da Igreja Católica e do seu chefe - ao ponto de ser reconhecido como um verdadeiro e autêntico guia universal - nos momentos de crise da Humanidade.

Há alguns anos, um amigo, não-crente, ex-administrador-delegado de um grande banco, fazia-me notar como a imagem de Karol Wojtyla, já idoso, doente, extenuado por ter presidido a uma longa cerimónia, e que se agarrava literalmente à cruz, era a «melhor representação publicitária» (falava assim, com a linguagem típica do seu mundo financeiro) de Karol Wojtyla. «Vê-se muitíssimo bem», explicava, «que este homem acredita naquilo que faz.»

Eram as palavras de alguém laico. Mas, na minha opinião, não podia haver uma definição que sintetizasse melhor a figura, a vida e até a herança de João Paulo II. «Um homem que acredita naquilo que faz». Um grande exemplo, um grande ensinamento para o cristão, sem dúvida, mas também para o Homem de hoje, este Homem tão frágil, tão contraditório, tão empobrecido e sempre tão inseguro perante seja qual for a escolha que tenha de fazer.

Chegados a este ponto, cada um poderá naturalmente interpretar o pontificado de João Paulo II com base nas suas próprias convicções, nas suas próprias ideias. Mas não se poderá negar - e este é o principal motivo que me levou a dar este testemunho - que Karol Wojtyla conseguiu propor novamente o discurso sobre Deus, num tempo em que Deus tinha praticamente desaparecido do próprio horizonte da sociedade. Assim como não se poderá negar que Karol Wojtyla tenha conseguido tomar pela mão o Homem moderno, ajudando-o a encontrar os sinais de Deus na sua própria História e depois a redescobrir o sentido da sua própria humanidade, num mundo que, pelo contrário, tendia a nivelar tudo, as pessoas, assim como os valores e os sentimentos.

E se Karol Wojtyla conseguiu isso foi porque afirmou sempre o primado de Deus e, ao mesmo tempo, mostrou sempre uma grande paixão pelo ser humano. Defendeu a sua dignidade, os seus direitos. Respeitou-o na sua liberdade. Exaltou a sua grandeza, a sua unicidade, porque no Homem, em todo o homem, Karol Wojtyla via a imagem de Deus Criador.

Portanto, para concluir, a herança de João Paulo II é um dom para nós, mas ao mesmo tempo é também uma missão a cumprir. Ou seja, é um dom que já hoje pode produzir frutos abundantes, mas é também um dom que devemos transmitir às gerações vindouras. E, deixando-nos realmente guiar por esta convicção, estamos a construir em Cracóvia o Centro João Paulo II. «Não tenhais medo!» Esse é o verdadeiro monumento a erigir ao Papa Wojtyla!

Queremos conservar e desenvolver criativamente a doutrina do Papa, propor o seu estilo de serviço da Igreja e do Mundo, em espírito de diálogo, de abertura à cultura, de sensibilidade aos problemas sociais. Os ensinamentos de João Paulo II não perdem atualidade. Podem inspirar-nos, a nós e às gerações futuras, para fazer frente aos novos desafios que se nos deparam na Igreja e no Mundo.

É, portanto, deste modo que eu vejo o meu papel de guardião da memória de João Paulo II. Esta memória, já o disse antes, não podemos relegá-la para um museu. O Papa Wojtyla não passou simplesmente à História. Ele continua - e eu imagino-o ao lado de Francisco - a acompanhar-nos, a inspirar-nos, a indicar-nos o caminho a seguir.

 

In Vivi com um santo, ed. A Esfera dos Livros
© SNPC | 01.04.14

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Capa

Vivi com um santo

Autores
Stanislao Dziwisz
Gian Franco Svidercoschi

Editora
A Esfera dos Livros

Ano
2014

Páginas
192

Preço
15,00 €

ISBN
978-989-626-525-0

 

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