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Deus (não) existe

“Deus (não) existe”, de Antony Flew, é um dos mais recentes lançamentos da Alethêia Editores que narra o itinerário do “mais célebre filósofo ateu” até ao Divino .

O excerto que apresentamos de seguida foi retirado do capítulo intitulado “Uma peregrinação da razão”, que abre a segunda parte da obra (“A minha descoberta do Divino”).

 

Uma peregrinação da razão

Comecemos com uma parábola. Imagine-se que um telefone via satélite dá à costa numa ilha remota habitada por uma tribo que nunca teve contacto com a civilização moderna. Os nativos brincam com as teclas e ouvem vozes diferentes consoante as sequências de números em que carregam. Supõem primeiro que é o aparelho que faz os sons. Alguns nativos mais inteligentes, os cientistas da tribo, constroem uma réplica exata e carregam nos números outra vez. Ouvem de novo as mesmas vozes. Para alguns deles, a conclusão parece óbvia. Esta combinação de cristais, metais e químicos produz o que parecem vozes humanas, e isto significa que as vozes são apenas propriedades do aparelho.

Mas o Sábio da tribo convoca os cientistas para uma discussão. Pensara por muito tempo e muito profundamente sobre o assunto e tinha chegado à seguinte conclusão: as vozes que se ouvem através do instrumento têm de vir de pessoas como eles, pessoas vivas e dotadas de consciência, apenas falando uma língua diferente. Em vez de pensarem que as vozes são apenas propriedades do telefone, deviam investigar a possibilidade de estarem «em contacto» com outros humanos através de uma rede de comunicações misteriosa. Quem sabe se novos estudos que tenham em conta esta hipótese não levarão a uma maior compreensão do mundo que existe para lá da ilha? Mas os cientistas limitam-se a rir das palavras do sábio, dizendo: «Escute o seguinte, quando danificamos o aparelho deixamos de ouvir as vozes. Logo, elas não são obviamente outra coisa senão sons produzidos pelo aparelho por uma combinação específica de lítio, placas de circuito impresso e díodos emissores de luz.»

Com esta parábola podemos ver como é fácil deixar que teorias preconcebidas influenciem o modo como avaliamos os dados que temos, em vez de deixarem que sejam esses dados a moldarem as nossas teorias. É assim que uma revolução coperniciana pode ser impedida por mil epiciclos ptolomaicos. (Os defensores do modelo geocêntrico do sistema solar de Ptolomeu resistiram ao modelo heliocêntrico de Copérnico usando o conceito dos epiciclos para evitar explicar as observações de movimentos planetários em conflito com o seu modelo.) E é nisto, parece-me, que reside o perigo típico e o mal endémico do ateísmo dogmático. Pensemos em elocuções como «Não devemos procurar uma explicação sobre o porquê do mundo existir; ele existe, é tudo», «Uma vez que não se pode aceitar uma origem transcendente da vida, devemos acreditar no impossível: que a vida surgiu espontaneamente da matéria, por acaso», ou «As leis da física são “leis sem lei” que surgem do vazio – ponto final». Parecem à primeira vista argumentos racionais, com uma autoridade especial graças à sensatez que aparentam. Mas, é claro, isto não constitui um indicador de que sejam racionais ou sequer argumentos.

Ora, construir um argumento racional afirmando que isto ou aquilo é o caso pressupõe necessariamente fornecer as razões que apoiam a nossa conclusão. Supondo então que temos dúvidas acerca do que uma pessoa quer dizer com uma elocução do género acima, ou que, de um modo mais radical, não acreditamos que essa pessoa esteja sequer a argumentar, uma forma de tentar perceber a sua elocução é procurar encontrar os dados que supostamente recolheu para apoiar a verdade daquilo que afirma. Pois se a elocução é verdadeiramente racional e resulta de um argumento, deve ser acompanhada de razões científicas ou filosóficas em seu favor. E tudo aquilo que possa ser apresentado contra a elocução, ou que induza aquele que a profere a pô-la de parte ou a admitir que estava errado, deve ser posto às claras. Mas se não há razões ou dados que sejam oferecidos em seu apoio, não há razões ou dados que mostrem que se trata de um argumento racional.

Quando o sábio da parábola diz aos cientistas para investigarem todas as dimensões dos dados relevantes, o que está a sugerir é que não explorar o que parece prima facie razoável e prometedor impede ipso facto a possibilidade de uma melhor compreensão do mundo para lá da ilha habitada pela tribo.

Ora, os não ateus têm muitas vezes a sensação de que não há qualquer dado que os ateus dogmáticos (cuja mentalidade dá ares de científica) aceitem como razão suficiente para conceder ao menos que «Deus pode afinal existir». Coloco, portanto, aos meus antigos companheiros ateus a seguinte pergunta: «O que teria de acontecer ou de ter acontecido que possa constituir do vosso ponto de vista uma razão para porem pelo menos a hipótese da existência de uma Mente superior?»

 

Pondo as cartas na mesa

Deixando agora a nossa parábola, é chegada a altura de pôr as minhas cartas na mesa e de expor as minhas próprias ideias e as razões que as apoiam. Hoje, acredito que o universo foi criado por uma Inteligência infinita. Acredito que as intricadas leis deste universo manifestam aquilo a que os cientistas chamaram a Mente de Deus. Acredito que a vida e os processos reprodutivos têm origem numa fonte Divina.

Porque razão acredito nisto, eu que professei e defendi o ateísmo por mais de meio século? A versão curta da resposta é a seguinte: porque é esta, segundo penso, a imagem do mundo que emergiu da ciência moderna. A ciência põe em evidência três dimensões da natureza que apontam para Deus. A primeira é o facto de a natureza obedecer a leis. A segunda é a dimensão da vida, de seres inteligentemente organizados e movidos por propósitos, que surgiu da matéria. A terceira é a própria existência da natureza. Mas não foi apenas a ciência que me guiou. Também fui ajudado por um estudo renovado dos argumentos filosóficos clássicos.

O meu abandono do ateísmo não foi provocado por qualquer fenómeno ou argumento novos. Ao longo das duas últimas décadas, toda a minha estrutura de pensamento tem estado em migração; e isto é consequência da minha constante avaliação dos dados provindos da natureza. Quando finalmente acabei por reconhecer a existência de Deus, não se tratou de uma alteração de paradigma, porque o meu paradigma permanece – aquele que Platão atribuiu a Sócrates: «Temos de seguir a razão para onde quer que ela nos leve.»

Pode neste momento perguntar-se como é que eu, um filósofo, podia envolver-me em assuntos tratados por cientistas. A melhor maneira de responder a isto é fazendo uma outra pergunta: estamos aqui no domínio da ciência ou da filosofia? Quando estudamos a interação entre dois corpos físicos, por exemplo, entre duas partículas subatómicas, estamos no domínio da ciência; quando perguntamos como podem essas partículas subatómicas – ou qualquer coisa física – existir, e porque é que elas existem, estamos no domínio da filosofia. Quando retiramos conclusões filosóficas a partir de dados científicos, estamos a pensar como filósofos.

 

Pensando como filósofo

Apliquemos aqui, por isso, a ideia acima. Em 2004 afirmei que a origem da vida não pode ser explicada apenas a partir da matéria. Os meus críticos responderam anunciando triunfalmente que eu não tinha lido um certo artigo aparecido numa revista científica ou que não estava a par dos últimos desenvolvimentos da abiogénese (a geração espontânea de vida a partir de matéria inanimada). Com estas críticas, mostravam não entender o que estava em causa. Eu não estava preocupado com este ou com aquele facto da química ou da genética, mas com a questão fundamental do que significa dizer que algo possui vida e da relação que isso tem com o conjunto dos factos químicos e genéticos considerados como um todo. Pensar a este nível é pensar como filósofo. E, correndo o risco de parecer imodesto, não posso deixar de dizer que este é trabalho para filósofos e não para cientistas enquanto tal. As aptidões específicas dos cientistas não lhes conferem qualquer vantagem quando se trata de pensar sobre esta questão, tal como uma estrela do basebol não tem especial competência para determinar os benefícios para os dentes de uma determinada pasta dentífrica.

É claro que os cientistas, tal como qualquer outra pessoa, são livres de pensar como filósofos. E é também claro que nem todos os cientistas concordarão com a minha interpretação particular dos factos por eles postos à nossa disposição. Mas as suas divergências têm de se erguer sobre pés filosóficos. Por outras palavras, os cientistas têm de perceber que a autoridade ou capacidade científicas não têm qualquer relevância na análise filosófica. Isto não será difícil de perceber. Se expuserem as suas opiniões sobre a economia da ciência, elaborando por exemplo teorias sobre o número de empregos criados no âmbito da ciência e da tecnologia, terão de apresentar os seus argumentos diante do tribunal da análise económica. Do mesmo modo, um cientista que fala como filósofo terá de apresentar argumentos filosóficos. Como disse o próprio Einstein: «O homem de ciência é um fraco filósofo.»

Felizmente, nem sempre é assim. Os grandes cientistas dos últimos 100 anos, bem como alguns dos mais influentes cientistas atuais, construíram uma visão persuasiva de um universo racional que brota de uma Mente divina. Por sinal, esta é a visão do mundo que hoje me parece a explicação filosófica mais sólida para o sem número de fenómenos descobertos tanto por cientistas como por leigos.

Há três questões derivadas da investigação científica que foram para mim especialmente importantes, e, à medida que formos avançando, considerá-las-ei à luz dos dados que possuímos atualmente. A primeira é a questão que intriga a maioria dos cientistas mais dados à reflexão: como surgiram as leis da natureza? A segunda é evidente para todos: como é que o fenómeno da vida surge da não-vida? E a terceira liga-se ao problema que os filósofos delegaram nos cosmólogos: como é que o universo, ou seja, tudo aquilo que tem uma natureza física, começou a existir?

 

Restabelecer a sabedoria

No que respeita à minha nova posição face aos debates clássicos acerca de Deus, fui sobretudo persuadido pelo argumento do filósofo David Conway a favor da existência de Deus exposto no seu livro The Recovery of Wisdow; From Here to Antiquity in Quest of Sophia. Conway é um distinto filósofo britânico da Universidade de Middlesex, igualmente à vontade em filosofia antiga e moderna.

O Deus cuja existência é defendida por Conway e por mim é o Deus de Aristóteles. Conway escreve:

Em suma, Aristóteles atribuía ao Ser que ele considerava constituir a explicação para o mundo e para a sua imensidão os seguintes atributos: imutabilidade, imaterialidade, bondade perfeita e existência necessária. Há uma impressionante correspondência entre este conjunto de atributos e aqueles que são tradicionalmente atribuídos a Deus dentro da tradição judaico-cristã. Essa correspondência mostra que Aristóteles tinha em mente o mesmo Ser Divino criador do mundo que aquele que é objeto de adoração entre judeus e cristãos.

Portanto, na perspetiva de Conway, o Deus das religiões monoteístas tem os mesmos atributos do Deus de Aristóteles.

No seu livro, Conway procura defender aquilo que descreve como a «conceção clássica da filosofia». Essa conceção traduz-se «na perspetiva de que a explicação para o mundo e para a sua imensidão se encontra no facto de este ser a criação de uma suprema inteligência omnipotente e omnisciente, mais comummente designada por Deus, que o criou a fim de trazer à existência seres racionais e de preservá-los». Deus criou o mundo com o propósito de dar origem a uma certa espécie de criaturas racionais. Conway acredita, e eu concordo, que é possível chegar à existência e natureza deste Deus aristotélico apenas pelo exercício da razão humana.

Gostaria de salientar que a minha descoberta do Divino se desenvolveu num plano puramente natural, sem qualquer recurso a fenómenos sobrenaturais. Processou-se no âmbito daquilo a que tradicionalmente se chama teologia natural. Não houve influência de qualquer das religiões reveladas. Não reclamo também ter tido qualquer experiência pessoal de Deus ou qualquer experiência que se possa chamar sobrenatural ou miraculosa. Em resumo, a minha descoberta do Divino foi uma peregrinação da razão e não da fé.

 

Indice

Parte I: A minha negação do Divino
A criação de um ateu
Até onde levam os dados disponíveis
O ateísmo calmamente examinado

Parte II: A minha descoberta do Divino
Uma peregrinação da razão
Quem escreveu as leis da natureza?
O universo sabia que estávamos para chegar?
Como se tornou viva a vida?
Pode alguma coisa vir do nada?
Encontrando espaço para Deus
Aberto à omnipotência

Anexo A
O «novo ateísmo»: uma apreciação crítica de Dawkins, Dennett, Wolpert e Stenger

Anexo B
A auto-revelação de Deus na história humana: um diálogo com N. T. Wright sobre Jesus

 

Antony Flew
In Deus (não) existe, ed. Alethêia
19.07.10

Capa

Deus (não) existe

Autor
Antony Flew

Editora
Alethêia (site) / blogue

Páginas
186

Ano
2010

Preço
15,65 €


















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