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Restauro de Arte Sacra

A arte do detalhe na restauração de Arte Sacra

Amontoam-se imagens, de tamanhos diversos, gastas pelo tempo. Esperam o rejuvenescimento que há-de chegar através das tintas aplicadas por um pincel velho nas mãos de um mestre. Dosear a dedicação com a paciência e, num gesto, concentrar a minúcia e a atenção pelos pormenores que não se podem descurar são competências essenciais para restaurar Arte Sacra

No pequeno espaço, a mobília são as peças que aguardam nas prateleiras por serem tomadas em mãos zelosas que lhe darão um sopro de vida. A decoração faz-se de frascos de tintas e latas de vernizes, com tampas mal fechadas. Repousam os jornais sobre as mesas, servindo de manto às peças de Arte Sacra que, uma a uma, vão adquirindo novo vigor para resistir à erosão de mais uns anos. Assim é a oficina onde se move José António Reis, o restaurador de Arte Sacra que nunca conheceu outra ocupação.

Natural de Braga, foi lá que aprendeu esta arte no final da infância. “Antigamente, quando tínhamos dez anos, acabávamos a escola e depois tínhamos que aprender alguma profissão”, recorda. A opção ditou a aprendizagem numa casa que se dedicava ao restauro de Arte Sacra e só mais tarde é que se mudou para Vila Real, onde está estabelecido desde 1960, numa oficina junto ao Arquivo Distrital. Contudo, José Reis reafirma que foi da cidade dos bispos que trouxe “a maior parte dos conhecimentos”. Os primeiros tempos no município vila-realense foram “um bocadinho difíceis”, mas, depois, “a coisa lá foi andando”, até aos dias de hoje. Já com 74 anos de idade, garante que o segredo desta arte está “no gosto, no aperfeiçoar e no imaginar também”. Restaurar Arte Sacra é um trabalho difícil que pressupõe vagar para atender ao pormenor e cuidado para lidar com a valiosa fragilidade das peças. “Este é um serviço muito complicado. Leva o seu tempo e não se pode fazer tudo de uma vez. De maneira que, para se fazer um serviço de princípio ao fim, ainda leva um tempo. Depois, é preciso ter conhecimentos, porque isto há muito quem faça, mas que até desconhece o valor das obras.”

Sendo uma arte que absorve muito tempo e solicita a sensibilidade do restaurador, não deixa de ser uma actividade muito solitária. “É um trabalho de muita meditação, a gente tem que estar naqueles dias inspirados para fazer certo tipo de trabalhos que são mais delicados”, confessa José Reis.

A luz do dia irrompe pela janela atrás das suas costas para se misturar com o cheiro confuso de tintas e colas. É nessa atmosfera olfactiva que se desenvolve o trabalho de restauro e conservação de José Reis. “Parecendo que não é ainda uma arte que requer alguns conhecimentos”, ressalva. A aplicação dos materiais exige cuidados especiais, que implicam alguns saberes que ficaram por revelar. “As técnicas da nossa profissão são um bocadinho complicadas e nem toda a gente está preparada para isso, como, por exemplo, fazer as tintas, baralhá-las. Os materiais têm que ser aplicados nos devidos tempos”, conta enquanto dá os últimos retoques à imagem de um Cristo. “A maior parte dos materiais vêm de Inglaterra, mas também já se fabricam cá em Portugal”, acrescenta.

Há outras imagens religiosas que esperam que as suas vestes recoloridas sequem para, depois, figurarem num qualquer altar. De facto, “o Clero é o principal cliente”, apesar de haver também alguns particulares a procurarem as suas obras.

Com peças dispersas pelas igrejas e capelas de todo o distrito de Vila Real, com algumas também em Bragança e Mirandela, José Reis já fez alguns trabalhos para a América. Este mestre do gesto mínimo, pensado ao pormenor, restaura sobretudo peças datadas do século XVII e XVIII, apesar de já ter trabalhado algumas do século XVI.

O restauro da Arte Sacra contempla três valências: o decorador, o pintor de imagens e o dourador. Por isso, José Reis considera que “um artista completo tem que saber fazer tudo, tem que saber de pintura, tem que saber restaurar imagens, tem que saber também de decorações de tectos, de pintura mais artística, tudo o que esteja ligado à Arte Sacra”.

Os castiçais dourados deslavados readquirem um brilho que se sobrepõe ao pó. As tintas acumulam-se e, na paleta, os vários tons são combinados. Depois, são aplicados criteriosamente nos recantos das peças para respeitar a sua originalidade. Agora, já no fim da carreira, José Reis vai-se dedicando ao restauro como forma de distracção. “Quando éramos mais jovens foi dando alguma coisa para sustento da família. Agora não. É mais para passar o tempo”, relembra.

Restauro

Nesta ocupação, que sempre lhe tomou os dias como seus e os restaurou à medida dos pormenores que clamavam por percepções mínimas, José Reis concilia o gosto e a contrapartida financeira. “Temos que trabalhar, as reformas são pequenas, de maneira que temos que esgravatar mais algum para compensar os gastos do quotidiano. É juntar o útil ao agradável, fazendo as coisas com gosto e ir ganhando algum”, explica.

Ninguém da sua família quis seguir os seus passos. “Não quiseram saber, eles quiseram estudar para ter um futuro melhor”, afirma. E sobre a continuidade da sua arte, o mestre revela-se algo céptico quanto ao futuro. “Agora há para aí uns jovens que fazem esses cursos que para mim não são cursos”. Esta era uma arte com futuro se fosse bem ensinada. “Mas, em vez de restaurarem como deve ser, estragam”, alerta.

José Reis poderia transmitir a voz da experiência a quem chega a esta arte, mas “a idade já não dá para aturar a juventude”. Para este restaurador de Arte Sacra, “as câmaras, o governo civil ou as associações é que deviam ter a sensibilidade de arranjar mestres que educassem os jovens”. Porém, esta sempre foi uma arte sem qualquer apoio. “Há jovens que têm talento e força de vontade para ir para a frente. Podíamos educar alguns se houvesse algum subsídio, porque há muitos subsídios, mas para isto não dá”, diz.

Aos que começam a sentir interesse e curiosidade pelo restauro, José Reis aconselha “muita paciência”, porque se trata de um trabalho “muito moroso”, e também “uma certa humildade” para aprender, sendo que o indispensável é “ter gosto e inclinação para esta profissão”. “Quando nós morrermos não sei, mas já ficam aí umas sementes e é bom que fiquem porque a Arte Sacra, além de ser uma coisa artística, é algo que sempre precisará de restauro, uma vez que as coisas não duram sempre. De maneira que é bom que haja continuidade”, refere.

É no aproximar do final de mais uma tarde que José Reis dá vida àquilo que vai perdendo cor, brilho e até o próprio vigor da expressão original. O silêncio da sua oficina, atabalhoada com gessos e outros materiais, é cortado pela mestria dos dedos a manusear as ferramentas e o talento. O mesmo silêncio grita a importância do seu trabalho no perpetuar de peças valiosas, recuperadas na vivacidade dos seus contornos e na genuinidade dos seus pormenores retocados com sensibilidade e rigor.

Patrícia Posse (texto e fotos)

in Mensageiro Notícias, 04.04.2008

08.04.2008

 

 

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