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As Mulheres na Filosofia

O presente livro resulta de um trabalho de investigação que se desenvolve há alguns anos no Centro de Filosofia da Universidade de Lisboa. Com ele se pretende tornar visível a presença das mulheres, afastando definitivamente como capciosa a pergunta muitas vezes repetida: "Por que não há mulheres filósofas?".

 

A entrada das mulheres na filosofia do séc. XX

Momentos antes de morrer, Sócrates despede-se dos amigos, dos filhos e da família. O relato tocante que Platão nos deixa no Fédon é por demais conhecido. No entanto, há nele uma breve referência que passa despercebida à maior parte dos leitores: a ordem dada pelo filósofo para que as mulheres se retirem. Ausentes em todo o diálogo preparatório da morte, são mandadas sair quando esta vai concretamente ocorrer, como se apenas os discípulos, homens todos eles, pudessem assistir ao suicídio forçado do filósofo, do mesmo modo que só eles acompanharam as suas diatribes oratórias na cidade.

Este abandono (imposto) das mulheres no que respeita à filosofia, retrata bem o estatuto que as mesmas ocuparam no pensamento ocidental - a ausência. Uma ausência não deliberada mas compulsiva, não expressa mas sub-repticiamente justificada por razões outras que não as filosóficas.

A saída das mulheres, ordenada por Sócrates, é aceite pelos discípulos deste como algo de natural. Há um silêncio conivente dos filósofos, para os quais a condição feminina se circunscreve ao espaço privado, enquanto a filosofia é um acontecimento público, mesmo quando se desenrola num quarto e diz respeito ao acto íntimo de morrer. Um silêncio que se mantém ao longo de séculos. Intercalada por algumas intervenções femininas, a voz dominante da filosofia é masculina. O que é problemático para as suas actuais cultoras. De facto, como dizer às mulheres que hoje se interessam por filosofia - estudiosas, professoras, investigadoras, estudantes - que não existem, enquanto mulheres, na mente dos filósofos? Como fazê-las aceitar a universalidade do conceito do homem, pelo qual são designadas? Como convencê-las de que tudo o que as identifica enquanto diferentes, é desinteressante para a filosofia? E que reacção esperar por parte de quem permanentemente se defronta com o silenciamento, a anulação ou a secundarização de temáticas que considera relevantes?

Com algumas excepções, os filósofos têm olhado as mulheres de um modo negativo, ou, quanto muito, condescendente. A tese platónica difundida no Timeu, segundo a qual a mulher representa uma forma inferior de humanidade (Timeu, 41 d - 42 d.), perdura até Freud, que, retomando Aristóteles, entende a mulher como um homem castrado.

Com o século XX esta situação altera-se, e podemos dizer que a partir dos anos sessenta ocorre uma mutação nas relações entre a filosofia e as mulheres. Os movimentos feministas que então ganham força, sobretudo nos EUA e países de língua inglesa, levam ao incremento dos Women Stu-dies ou Gender Studies, incluindo-os de pleno direito nos curricula universitários e nos projectos de investigação. Â filosofia, essa "disciplina recalcitrante" que dificilmente se abre à inovação, sofre no nosso século o impacto deste "boom". Uma das mudanças manifesta-se em novas maneiras de apreciar o pensamento dos filósofos, mediante chaves de leitura que permitem uma visão diferente das suas teses, nomeadamente no que respeita à consistência interna das mesmas. Como diz Nancy Tuana, não basta interpretar certos sistemas procurando neles a parte (geralmente mínima) que consagram às mulheres. É preciso articular o que é dito sobre esta temática com a totalidade de um pensamento, de modo a que o resultado global do mesmo seja congruente. O que nem sempre acontece.

Uma outra linha de investigação, ainda ligada à história da filosofia, pretende restituir a voz a filósofas do passado, dando-lhes visibilidade e mostrando o impacto que tiveram. Habitualmente catalogadas como discípulas deste ou daquele nome sonante, começa-se a reconhecer nelas um pensamento autónomo, expresso através dos meios em que lhes era possível divulgá-lo, quer se trate de ensaios, de tratados, ou simplesmente de cartas.

Um outro campo que tem dado frutos releva temáticas tipicamente femininas, habitualmente não trabalhadas pelos pensadores tradicionais e agora redescobertas nas potencialidades filosóficas que encerram. Nele se inclui uma abundante literatura consagrada a questões como o nascimento, a relação maternal, o cuidado com os outros, o modo feminino de fazer ética, epistemologia, ontologia, lógica.

 

Haverá uma filosofia feminina?

É possível apontar no século XX alguns núcleos de filosofemas sobre os quais as mulheres se têm particularmente debruçado. É o caso da ontologia na qual a temática do feminismo radica, pelo relevo dado ao conceito de natureza humana. Quer consideremos a homogeneidade desta, quer a entendamos de um modo bipolar em função do sexo ou do género, quer a neguemos ou a fragmentemos, a natureza humana é sempre um marco incontornável, a partir do qual se levantam outras questões. E é na abordagem da natureza feminina que surgem dois problemas clássicos que nenhuma das orientações feministas ignora: o da igualdade e da diferença e o da relação sexo/género.

Também no domínio da lógica verificamos como são importantes para o pensamento feminista os temas da razão e da racionalidade bem como o da argumentação. No que respeita à ética, há toda uma controvérsia relativa à universalidade dos valores morais e à possível existência de uma moral feminina com os seus parâmetros próprios, colocando a tónica na contextualização e no envolvimento e desprezando a abstracção e a generalização. No que concerne à antropologia temos questões relativas à identidade individual, ao sujeito humano e a uma possível diferenciação do pensamento feminino. Também a epistemologia tem sido um terreno profícuo nos debates feministas, nomeadamente no que concerne ao papel do género na captação do real, à legitimidade de um método científico universal e ao peso da masculinidade na construção científica. Por fim, relativamente à ecologia e à filosofia da natureza há correntes feministas com visões muito próprias, nomeadamente na aproximação feita entre as mulheres e a natureza, englobando-as numa mesma opressão que sobre elas tem pesado ao longo dos tempos.

 

O século das Mulheres?

Este é o título dado por Victoria Camps a um dos seus últimos livros. Nele constata que para a mulher de hoje, emancipada e detentora de direitos, já não se põe o problema da igualdade pois esta é-lhe atribuída como natural. Mas é grande a distância que vai da aceitação teórica e formal à concretização no quotidiano. É um caminho que exige uma mutação nas regras de convivência e na política, postulando uma outra gramática do poder.

É para a "feminização da sociedade" que a obra de V. C. nos alerta, numa proposta inegavelmente filosófica. Subscrevemo-la, lembrando que a filosofia teve, tem e terá um papel determinante em todas as mutações culturais pois o carácter teórico e especulativo que lhe pertence não a isenta de uma dimensão prática que a leva a enraizar-se na acção.

Muitos temas novos surgiram no panorama filosófico do séc. XX, desmentindo os defensores de uma filosofia perene, para os quais tudo de importante já foi pensado e dito. Alguns dos novos filosofemas inscrevem-se num paradigma que muito deve a contributos femininos - o cuidado. Circunscritas durante séculos à privacidade de um espaço doméstico, as mulheres nele aprenderam determinados valores que hoje pretendem transpor para o domínio público, reivindicando para si, e para todos, uma maneira diferente de estar no mundo.

A transformação das virtudes privadas em valores públicos é uma tarefa que se iniciou no nosso século, pela mão das mulheres. E se der os frutos que promete, será então lícito afirmar que o séc. XX é, verdadeiramente, o século das mulheres.

 

Maria Luísa RIbeiro Ferreira
In As Mulheres na Filosofia, ed. Colibri
22.02.10

Capa

As Mulheres na Filosofia

Autora
Maria Luísa Ribeiro Ferreira

Editora
Colibri

Ano
2009

Páginas
256

Preço
15,00 €

ISBN
978-972-772-932-6













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