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Os Círios do Santuário da Atalaia

Especialmente no litoral (de Setúbal a Coimbra), os Círios são confrarias populares que anualmente se deslocam a um santuário (por vezes afastado) em cumprimento de uma “promessa antiga” que a aldeia ou povoação teria feito em tempos idos (míticos). Esses habitantes que ciclicamente se dirigem ao velho local de culto, constituem uma delegação da povoação e cumprem a “promessa antiga” em nome de todos. Transportam geralmente consigo a imagem religiosa que veneram, bem como o guião e as bandeiras onde constam o nome da povoação e do santuário. O Círio possui ainda outros traços identificadores J(nem sempre figurando conjuntamente), como o ritual das três voltas ao templo; as arrematações (de bandeiras e de fogaças); as procissões (algumas sem a presença do pároco); os anjos que cantam as loas; a lavagem simbólica na “fonte santa”; a eleição (garantida com um ano de antecedência) de juízes, festeiros, mordomos ou comissões que, segundo regras de outrora, se responsabilizam pela continuidade do culto; os “ex-votos”; os “registos”; os festins alimentares; os gaiteiros; a dança; etc.

O Círio é um produto da religião popular alheio à Igreja Católica e pode ser de origem arcaica e tribal. Os Círios do santuário de Nossa Senhora da Atalaia de que há notícias desde o século XVI (remetendo algumas delas para períodos muito anteriores), estão ainda activos, impondo-se à indiferença ou reprovação do clero e constituem, num meio grandemente afastado do catolicismo, um caso paradigmático de autonomia religiosa e de continuidade da cultura ancestral.

Durante vários anos frequentámos os territórios dos actuais e dos antigos Círios. Cruzámos os rios Tejo e Sado, abeirámo-nos tanto quanto nos foi possível do bulício e da efervescência festiva ou da prece individual e da concentração processional. Acompanhámos os preparativos, as partidas, a permanência e o regresso do santuário. Tentámos “decifrar” as lógicas populares e as institucionais. Ao longo do tempo anotámos diferenças e encontrámos as marcas da Festa, mesmo quando está há muito já se havia extinguido (ou apenas se encontra temporariamente adormecida). Pudemos compreender a sua grandiosidade, a influência que irradiou por uma vasta região, incluindo mesmo o espaço extra-europeu. Conhecemos homens e mulheres que, sem desânimo, mantêm o acto festivo, procurando honrar os seus antecessores. Famílias que ano após ano, incansavelmente, percorrem os caminhos que levam ao espaço sagrado. Não foram poucos os que ouvimos dizer que nunca tinham faltado à festa ou que isso apenas acontecera porque um dia surgira a doença ou foi forçosa a emigração. Casos houve em que no culminar da vida, o derradeiro pensamento foi ainda destinado à Senhora da Atalaia. Para esses, o culto sempre surgiu como um dado imanente e não como o resultado de um discurso doutrinal.

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Observámos como em certas fases do ano os velhos cultos de feição agrária se tornam mais visíveis, e como na Quinta-Feira da Ascensão o “raminho” ou o “apanhar a espiga”, dispõem de eficácia simbólica, continuando a fazer sentido, principalmente para certas populações aldeãs.

Também as práticas generalizadas nas religiões, de depositar oferendas nos santuários, foi aqui seguida através do “ex-votos”, “quais testemunhas da influência divina sobre a vida humana”. Muitas são as “provas” do seu poder milagroso, ou da sua mercê, que chegaram aos nossos dias, como as tabuinhas pintadas que mostram o antigo diálogo com a divindade, à semelhança das peças de cera e das fotografias que, igualmente, representam uma dádiva pela contra-dádiva recebida. Dessa reconstituição do “milagre”, ficou ainda patente como os “ex-votos” dilatam a importância sociocultural deste orago, e de como deles não deixam de passar ou não se excluem operações de prestígio pessoal.

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Se bem que não se possa atribuir às invasões francesas as principais mutações por que a Festa de Nossa Senhora da Atalaia tem passado, é indubitável que esta entrada violenta em Portugal que levou à fundição na Casa da Moeda de inúmeras peças em ouro e em prata pertencentes a “todas as Igrejas, Capellas e Confrarias”, e que proporcionou o saque às tropas estrangeiras – empobreceu grandemente o património material religioso nacional, não permitindo que deste culto popular conhecêssemos senão um ou outro objecto disperso, como a “machineta” em prata lavrada do “Sirio de Sesimbra e seu Termo”, datada de 1673.

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Verificámos as diferenciadas características dos Círios citadinos, relativamente a outros melhor integrados nos ritmos cósmicos e no modo de inserir o sagrado na vida quotidiana. E como em certos casos se desencadeou, sem sucesso, a inovação da sua funcionalidade, ao se efectivarem os festejos em memória, sem a obrigatoriedade de deslocação ao santuário, no que terá constituído uma tentativa de alargarem a frequência a pessoas que não se encontravam no mesmo campo religioso, ou uma eventual busca de uma diferente alternativa para a continuidade desta secular tradição.

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Confirmámos a existência de dezenas de confrarias populares ligadas ao culto de Nossa Senhora da Atalaia. Umas provenientes das redondezas, outras de terras mais distantes, abrangendo sítios da capital e da sua zona envolvente. Detivemo-nos com algum detalhe nos Círios que actualmente frequentam o santuário, tendo pesquisado ainda, entre outros, os antigos Círios da margem sul do Tejo e os de Lisboa e arredores, indagando sobre o seu aparecimento, renovação, reanimação e extinção nos séculos XIX e XX, o que nos permitiu actualizar e ampliar a informação disponível, e reaver determinadas provas materiais dessa acção religiosa atalaiense.

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Demos conta do aparecimento, nas primeiras décadas do século xx, da denominação “Círio Civil”, que tanto corresponde a romaria, como aos lazeres (excursões, «pic-nics», etc.) surgidos da crescente industrialização da capital e que se deslocam para os seus arredores. Ao enraizamento popular da palavra “Círio” que compreendia estes tipos de acção, sob a influência republicana, juntou-se o termo “Civil”, que pretende estabelecer uma clara distinção relativamente à instituição católica, muito associada ao poder monárquico.

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Ao escolhermos o período do final da monarquia até à primeira década após a implantação da República, visando avaliar melhor a essência, autonomia e autenticidade do culto da Senhora da Atalaia, fizemos emergir também a mentalidade que nessa importante fase da nossa História se afirmava. Debaixo de permanentes coacções dos representantes da religião institucional e, nessa época, igualmente dos activistas republicanos, não se deixaram, no entanto, sucumbir, teimando na independência e manutenção da sua crença, renovando, mais recentemente, tal imunidade às mudanças políticas, aquando da revolução do 25 de Abril, e da passagem da ditadura para o presente regime democrático.

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Com efeito, sabíamos que cada festa religiosa preenche funções sociais notórias, sem que tradição implique imobilismo, mas antes adaptação às novas condições socioculturais. Não desconhecíamos que os padrões de vida urbana avassalam o território. Generalizando-se os substitutos da festa. Foi por isso que, para tentar compreender o culto de Nossa Senhora da Atalaia, recorremos ao trabalho de campo, confirmando, corrigindo, acrescentando, estabelecendo o inventário das mudanças..., certos de que essas “micro-sociedades” não se encontram isoladas nem harmoniosamente cristalizadas e fora do contacto ou das influências exteriores. Os homens e as mulheres que formam os Círios, pertencendo a um todo social, não deixam de ser influenciados ou afectados pelas políticas económicas, educativas, sociais, culturais, etc., ou pelos avanços tecnológicos, sejam estes mais ou menos rápidos e bruscos. A Festa da Senhora da Atalaia não pode, por isso, permanecer imutável, firmemente fossilizada. (...)

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A fisionomia de muitas das festas espalhadas pelo território nacional encontra-se sob a influência de cultos agrários, de arquétipos religiosos pré-cristãos, bem como da teologia católica, num sincretismo nem sempre definível. Ao atravessarem a Idade Média sobrevivendo às acções inquisitoriais, resistindo aos excessos liberais e às políticas anticlericais que tudo confundem com “obscurantismo católico”, as festas agrárias, judaicas e marianas permanecem, imbricadas, em muitos dos nossos cultos populares. (...)

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Ficou bem patente que o carácter dos Círios é um misto de solenidade, gravidade, contenção, regozijo, excesso, ludismo, embriaguez, desregramento..., que os relatos, crónicas e artigos abundantemente confirmam. A extroversão, o rompimento com os apertados códigos de conduta, os prolongados manjares, a dança, o folguedo..., sobrepõem-se a quaisquer outros acontecimentos e estados de espírito. Embora sofrendo, regularmente, as pressões do clero, os antigos rituais para aplacar a ira das forças superiores e afastar calamidades naturais prosseguem, ciclicamente, com a realização festiva libertadora. (...)

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Os Círios são concorrentes com a paróquia, e o povo tem dado mostras de querer manter a sua religião, que até pode ser um cristianismo arcaico. Tanto mais que religião é aquilo que as pessoas entendem ser religião, sendo elas os únicos árbitros do que é, e como ela deve ser vivida, devendo-se atender, prioritariamente, à auto-classificação, para se julgar se um comportamento e um grupo é ou não religioso. (...)

Para os membros do clero, familiarizados com os aspectos históricos do mundo religioso judaico-cristão, as hierofanias exteriores surgem erradas e extravagantes. Eles recusam a espiritualidade popular ou só a muito custo aceitam a sacralidade da fonte e desta particular imagem religiosa. Mas para os Círios e respectivos romeiros, a Senhora da Atalaia (tal como a Fonte da Senhora ou fonte Santa) dispõe de algo que a ultrapassa, sendo por isso venerada.

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Como constatámos, o espaço sagrado assume a repetição da hierofania primordial, a repetição de um gesto ocorrido «in illo tempore», mantendo-se as condições essenciais que o justificaram, apesar das constantes tentativas de apropriação. Os Círios que anualmente povoam o sítio da Atalaia comungam dessa secular sacralidade. Só assim se explica a perenidade deste espaço: pela continuidade simbólica da hierofania.

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Se até hoje os Círios permanecem enraizados na Atalaia e a render homenagem à teofania, nada nos garante que perseverem, interminavelmente, sem que o seu essencial cerimonialismo primitivo seja prejudicado, dado que tradição não é estagnação, mas adaptação constante ao tempo presente. Daí que as tradições religiosas representem ainda uma oportunidade para nos conhecermos a nós próprios, que não deve ser dissipada ou menosprezada, sobretudo se considerarmos no momento actual, para além da necessidade de salvaguarda do nosso património cultural material e imaterial, os imperativos da solidariedade, da autenticidade e da modernidade.

Luís Marques (texto e fotos)

in Tradições religiosas entre o Tejo e o Sado - Os Círios do Santuário da Atalaia (Conclusões)

04.09.2008

 

 

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Capa

Tradições religiosas
entre o Tejo e o Sado
Os Círios do Santuário
da Atalaia

Autor
Luís Marques

Editora
Assírio & Alvim

Páginas
326

Ano
2005

Preço
€ 21,60

ISBN
972-37-1078-1

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