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História

O Convento de Nossa Senhora da Assumpção, Faro

A política de afirmação do poder real protagonizada por D. João II teve impacto na administração de Faro. Em 1491 a então vila farense passa a integrar os bens da Casa da Rainha , sendo a sua primeira donatária a D. Leonor (1458-1525), mulher de D. João II e irmã de D. Manuel.

A acção desta Rainha é marcada pela devotio moderna, movimento espiritual que nasce no século XIV e que
está estreitamente ligado aos valores humanistas; deve realçar-se, também, o seu papel dinamizador na reforma
das clarissas portuguesas. Este movimento de renovação religiosa foi o mais importante no Portugal de então e o
seu principal objectivo era a criação de novos espaços que se regessem pela intensificação da religiosidade. Esta tarefa levou D. Leonor muito a sério e com grande empenho, veja-se, a título de exemplo, a fundação do Mosteiro da Madre de Deus em Lisboa (1509).

Faro vai beneficiar desta reforma das clarissas. Em 1519 inicia-se, no lugar da antiga judiaria, a construção do
Convento de Nossa Senhora da Assunção, com a finalidade de receber uma comunidade franciscana que seguia os ensinamentos de Santa Clara.

O início da casa religiosa esteve a cargo de duas irmãs naturais de Beja – Maria das Chagas e Leonor da Trindade – que segundo o cronista da Província dos Algarves, Frei Jerónimo de Belém, ao chegarem a Faro foi-lhes signalado o sitio do Castello, dentro de muros, para a fábrica da Igreja, e Mosteiro, a que se deu principio.

A escolha do local para edificação do convento foi numa zona nobre da cidade, junto a uma das portas de entrada (a do Repouso) e num local semi-abandonado devido à expulsão dos Judeus em 1497, do qual a sua fundadora recebia direitos.

A importância urbanística que o edifício veio trazer ao núcleo urbano da Vila Adentro reflecte-se, também, na definição do largo fronteiro chamado Largo das Freiras, o qual funcionou como pólo de atracção e densificação do tecido urbano. Em 1573, aquando da visita de D. Sebastião à cidade, João Cascão refere-se a este como terreiro grande e formoso.

A ideia de fundar um convento em Faro está, em nosso entender, intimamente ligada com a questão da transferência da Sé de Silves para Faro, culminando com a elevação a cidade em 1540 e a transferência efectiva da Sé em 1577, na época do Bispo D. Jerónimo Osório.

 

Edificando uma casa reformada... uma homenagem a D. Leonor

A edificação faz-se de acordo com a Regra de Santa Clara (1253) e com as Constituições, Declarações, Ordenações e Estatutos sobre a Regra de Santa Clara de Santa Colecta (século XV). Estes dois documentos referem-se a vários espaços conventuais, dando especial atenção aos que estão em contacto com o exterior: portaria, igreja e cerca, de modo a preservar e poupar a comunidade e cumprir o voto de clausura. Faz-se, ainda, referência ao tipo construtivo a utilizar na edificação das casas: as paredes seyam altas, espesas e firmes.

Com as restrições da Regra e aproveitando as preexistências dá-se início à obra da casa religiosa, com grande empenho e ajuda da população farense, que, desde a primeira hora, concorreu com os seus donativos para a construção; tendo a primeira pedra sido lançada por Rui Barreto, alcaide-mor de Faro e Loulé.

Mesmo com todo o auxílio e dedicação régia a obra prolongar-se-ia por mais de quarenta anos. Durante esse período podemos identificar três fases de construção: a primeira, sob o patrocínio de D. Leonor, de 1519 a 1525 (ano da morte da Rainha); a segunda e a terceira, sob o patrocínio de D. Catarina, mulher de D. João III, de 1529 a 1550, a fase mais activa do estaleiro, tendo como arquitecto Afonso Pires e de 152 a 1564, sob as ordens de Diogo Pires.

A primeira fase corresponde ao patrocínio de D. Leonor, mulher de D. João II e à intenção das duas irmãs de Beja de edificar um convento da Ordem de Santa Clara na cidade de Faro.

Detalhe do Convento

Frei Jerónimo de Belém enfatiza o papel da Rainha ao enviar os melhores architectos e officiaes mais peritos, para que tudo se fizesse á medida de sua grandeza. Apesar da falta de documentação, avançamos com a hipótese de Afonso Pires, que aparece na documentação para a segunda fase, ter realizado o risco desde o primeiro momento, por se tratar de um oficial da Casa da Rainha D. Leonor.

A campanha manuelina resultou na construção das alas Norte, correspondente à Igreja, e Oeste, correspondente
à Sala do Capítulo no piso térreo e ao Dormitório no piso superior. São visíveis, ainda hoje, pormenores estilísticos comuns nas duas alas: os cunhais chanfrados da igreja e a primitiva porta da sala do capítulo são rematados inferiormente por duas meias pontas de diamante.

Com a morte da Rainha D. Leonor, Faro fica sem donatária durante quatro anos e as obras do convento param. A
Crónica de D. João III informa como se procede à transição das terras, numa primeira fase, da Rainha D. Leonor, irmã de D. Manuel, para D. Leonor d’Àustria, terceira mulher de D. Manuel (já à época Rainha de França) e logo de seguida para a Rainha D. Catarina, mulher de D. João III: Que el Rey nosso senhor daria ha Ifanta dona Caterina as terras que então tinha a Rainha dona Leanor sua tia, quando vagassem por fallecimento della, e da Rainha de França dona Leonor.

Esta Rainha envida todos os esforços para reiniciar a obra do convento e dedica-lhe uma atenção muito próxima e especial durante todo o processo, valendo-lhe o epíteto de a Fundadora.

Os anos de maior actividade no estaleiro de Faro foram, sobretudo, a partir do final da década de trinta do século XVI e toda a década seguinte. Esta campanha, dirigida por Afonso Pires, começa pela conclusão do corpo da igreja, como se pode perceber pela data de 1539 inscrita no portal exterior.

Este portal apresenta um desenho inovador, de boas proporções clássicas e profusamente decorado; com moldura rectangular que serviu de inspiração a outros portais algarvios (Conceição de Faro, Quelfes). A encimar este conjunto encontra-se o camaroeiro de D. Leonor, uma justa homenagem de D. Catarina à primeira impulsionadora das obras. O desenho lembra, ao nível do capitel, uma estampa publicada por Sagredo no seu tratado Medidas del Romano (1521 ), o que indicia que Afonso Pires conhecia este tratado.

Claustro do Convento

A 1 de Outubro de 1541 chegam a Faro as oito freiras vindas do convento da Madre de Deus. É a partir desta data que a documentação sobre o processo de construção começa a ser mais abundante através da troca de informações entre a Madre Abadessa e a Rainha.

Em 1543 Afonso Pires manda o pedreiro António Gomes entregar à rainha o debuxo e informações das obras. Deste debuxo deviam fazer parte a ala superior do claustro, nomeadamente a enfermaria, que tem a data de 1545 inscrita na verga da porta, e o claustro, concluído em 1548.

O claustro é composto por dois pisos, com quatro tramos por piso, separados por grossos contrafortes e com os cantos cortados obliquamente. Estamos perante uma nova tipologia de claustros protorenascentistas, sendo que o de Faro e o da Hospedaria de Tomar são os cabeças de série; esta tipologia prolonga-se até aos anos 90 do século XVI. A utilização das ordens arquitectónicas não é feita com um rigor clássico, como sucede na maior parte dos edifícios construídos em Portugal até à década de 50 do século XVI.

O ano de entrada do edifício em clausura (1548) é o mais profícuo em troca de correspondência, mostrando-nos o andamento da obra. A cinco meses da entrada em clausura a Abadessa escreve à Rainha a solicitar que se acabem as obras que faltam: ladrilhar as varandas de cima e de baixo (alas do claustro); ladrilhar o claustro, as oficinas da portaria, a sala do capítulo, a sacristia e a escada.

Contudo, por falta de dinheiro, as obras param e o mestre pedreiro Gomes de Torres volta para a Corte. A Abadessa acrescenta e enfatiza a prestação do mestre pedreiro ao afirmar que trabalhou muito fielmente, ou seja que cumpriu o debuxo (desenho) à risca. As obras retomam e forra-se a sacristia, fazem-se os assentos para o capítulo, a escola de noviças, as portas do refeitório e da enfermaria.

Detalhe do Convento

Com as obras praticamente concluídas, antes de se encerrar a comunidade em clausura, o edifício é aberto ao povo para uma visita, o que demonstra como afirma Horta Correia, a novidade e o impacto do seu novo estilo. Pela carta de Frei Diogo de Olivença podemos verificar que a iniciativa teve muito sucesso não só na região como também em Castela:

E antes. que a claustra se fechasse mandey dyzer aos curas das ygrejas que nas estações dyxessem ao pouo que vyssem ver ho musteyro antes que se carrassem E veo toda a gente da terra E muyta de castela que aquy se achou que foy cousa de muyto contemtamento ao gente da terra por vossa.Alteza. a querer nobrecer com hum tam homrrado musteyro.

Ao terminar esta fase concretizou-se o sonho das duas irmãs de Beja que tinham chegado a Faro há vinte e nove anos e que, diariamente, laboraram para construir o convento. Em termos arquitectónicos o edifício principal estava praticamente concluído, com excepção do chão do claustro que faltava ladrilhar. Contudo, restava ainda consolidar a área da portaria e a cerca que ficariam para a fase seguinte.

Deambulemos para conhecer a comunidade reformada que deu vida a este espaço. Entre noviças e freiras não devia ser ultrapassado o número de trinta. As irmãs eram, principalmente, donzelas da primeira nobreza do Reino, como nos refere o cronista franciscano Frei Jerónimo de Belém. D. Sebastião da Gama, Bispo do Algarve, refere, em 1687, ser nele Relligiosas as mulheres nobres e principais do Reino.

A vida era passada no interior do convento por entre os vários compartimentos. Importa referir os espaços conventuais identificados: no piso térreo situava-se a portaria, as salas anexas à portaria, a sacristia, a igreja,
o coro-baixo, a sala do capítulo, a escola de noviças, o refeitório, a cozinha e as oficinas de lavores; no piso superior a sala de isolamento, a enfermaria, o dormitório de noviças, o dormitório principal, um oratório e a casa da abadessa; existem outros compartimentos neste piso que não foram identificados mas um deles devia destinar-se à Biblioteca.

Apesar de a comunidade já estar a viver em clausura, um ano após o fecho das contas reiniciam-se as obras e uma nova fase (151-1564). Nesta terceira etapa é quando se conclui a cerca e a portaria, equipamentos fundamentais para o correcto funcionamento de uma vida em clausura.

Em 1561 aparece como mestre-de-obras do convento Diogo Pires. A este mestre pedreiro, responsável pelas obras da Rainha na cidade de Faro, se deve a realização do alpendre para o portal principal da igreja, os arcos de reforço interno da igreja e uma janela aberta na zona da capela-mor. O fim das obras deu-se em 1564.

Detalhe do convento

Podemos concluir que, apesar das várias fases, trata-se de uma obra de conjunto, à qual estiveram ligados ao longo de 45 anos: Afonso Pires, mestre-de-obras, a trabalhar com ele os pedreiros António Gomes, Gomes Torres e, a fechar esta empreitada renascentista, Gaspar de Torres; na terceira fase temos Diogo Pires. Assim, a edificação do convento decorre nas épocas manuelina, de D. João III e nas Regências.

Nas centúrias seguintes o convento, devido a factores humanos e naturais, vai sofrer várias obras de reconstrução. A invasão inglesa da cidade de Faro, ocorrida em 1596, danificou a cerca, as alas do convento e os elementos de madeira (chão e tecto).

O século XVIII teve dois momentos de obras: um nas primeiras décadas de setecentos, nomeadamente a porta
de acesso ao primeiro andar (1727) e a pavimentação da primeira sala da portaria (1731-31); e o segundo após o
terramoto de 1755, destacando-se a cúpula da capela-mor, o arco triunfal da capela-mor rematado por brasão com decoração rococó, a cobertura da nave da igreja e os semi-arcos laterais destinados aos retábulos.

 

De fábrica de cortiça a casa de cultura

Através do Decreto de 28 de Maio de 1834, Joaquim António de Aguiar extingue as Ordens Religiosas. Em 1836 o edifício passa para a Fazenda Nacional e vai ser vendido separadamente até 1844. José Maria de Carvalho e Teodoro José da Silva compram o imóvel em 1860, vendendo-o a Abrahão Amram, em 1900, para aí instalar uma fábrica de rolhas e preparação de cortiça em prancha que vai laborar, aproximadamente, durante cem anos. D. Sol Sequerra Amram, viúva de Samuel Amram, declara em 1932 que a descrição do prédio é a seguinte: o mesmo prédio é constituído por um outro edifício ocupado outrora por um convento com o respectivo claustro e egreja e dois pavimentos encontrando-se n’estes algumas constituições modernas aplicadas a armazéns, tendo um poço no centro do claustro e outro na construção que serve de casa de caldeira, sendo ocupado quasi totalmente por uma fábrica de cortiça.

O edifício seria novamente vendido no final de 1930 à firma alemã Greiner Limitada, negócio realizado pelo seu gerente e futuro sócio Fritz Henzler, que continuou com a produção de cortiça.

O antigo edifício conventual vai surgir na opinião pública, desde 1915, como o lugar ideal para sede do Museu Archeológico e Lapidar Infante D. Henrique, à época recentemente instalado na Igreja do antigo Convento dos Capuchos.

A ideia é transformada em Decreto-Lei e ampliada, sugerindo-se uma mutação para Museu Regional. O decreto informa que tendo em vista a deliberação tomada pelo Conselho Superior de Belas Artes, em sua sessão de 10 de Junho do corrente ano: hei por bem, sob proposta do Ministro de Instrução Pública, decretar que na cidade de Faro seja criado um Museu Regional de Arte e Arqueologia constituído pelo actual recheio do Museu de Monsenhor Boto, devendo, de futuro, esse museu ser instalado no edifício do extinto convento de S. Bento (sic), da mesma cidade.

Detalhe do Convento

Entretanto classificado como Monumento Nacional, a autarquia adquiriu o edifício em 1960 para aí instalar os
Museus Municipais e a Biblioteca Municipal. As obras de adaptação ficam a cargo da Direcção Geral de Edifícios e Monumentos Nacionais, mais especificamente de Gonçalo Lyster Franco. Na memória do projecto diz que com a aquisição do imóvel prestou-se não só um grande serviço à cidade como se precaveu o monumento dos atentados aque tem estado sujeito, acrescenta ainda que pretendia torná-lo um elemento vivo.

A transferência do espólio, da Igreja do antigo convento dos Capuchos para o actual edifício, esteve a cargo de Pinheiro e Rosa, nomeado director do Museu em 1966. Apesar de todos os esforços do director, as obras prolongaram-se e a reabertura definitiva do museu acontece apenas em 1981.

Desde 2001 o espaço é ocupado na totalidade pelo Museu Municipal de Faro. Actualmente, funciona como lugar de partilha, de encontro, de (re)construção da memória, de contemplação, de acção, de sedução, de magia... Lugar da e para a comunidade, cartão de visita do concelho e âncora na descoberta de um território, do seu Património e da sua História.

Texto: Dália Paulo, Mestre em História de Arte e Doutoranda em Museologia, Museu Municipal de Faro
Fotografias: Virgílio Rodrigues
Capa da Revista "alGharb"

in alGharb - Revista Cultural do Algarve, Fevereiro de 2008

11.03.2008

 

 

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Detalhe do Convento























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