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Lenda e realidade

O Senhor da Pedra

Há muitos, muitos anos...

Percebeu que lhe faltavam as forças. As poucas que, em desespero, procurara poupar durante as últimas horas. As mãos, trémulas e escorregadias, recusavam-se a continuar a agarrar o tronco que lhe servira de bóia e salva-vidas. Sentiu-se desfalecer. O combate era irremediavelmente desigual. Estava só e exausto. Nada mais podia fazer contra a chuva forte e implacável, o vento tempestuoso e as vagas mortais e alterosas.

Toda a tripulação e restantes ocupantes morreram no naufrágio que ocorrera havia há não sabia quantas longas horas. Ou fora já há dias? Um após outro, todos os tripulantes haviam sido tragados pelo mar. Ficara sozinho. Apenas ele, a imensidão do oceano tumultuoso que se erguia em terríveis e enegrecidas paredes aquosas, e este tronco que aparecera boiando no meio daquele cenário tremendo e diabólico. Diabólico, sim. Porque aquela tragédia só podia ter sido obra do demo. E por isso, naquele instante, naquele momento em que pressentiu que o fim poderia estar muito perto, encomendou a alma ao Criador. Mas fez-lhe também um último e esperançoso pedido. Uma promessa: se, por milagre, se salvasse daquela aflição, mandaria edificar uma capela dedicada a Nosso Senhor no exacto local onde o mar o arrojasse.

Foi então que as últimas forças lhe escaparam do corpo. As mãos não mais tactearam o tronco e deixou-se afundar. Mas, numa reacção mais animal do que consciente, reagiu. Os pulmões exigiam oxigénio. Lutou, obstinado, contra as águas que o inundavam. Tudo por uma última lufada de ar.

E foi quando conseguiu emergir a cabeça que se sentiu agarrado por uma vaga gigantesca. Sem que percebesse de imediato o que lhe estava a suceder viu-se projectado a uma velocidade estonteante por entre a espuma buliçosa da tempestade. Instantes depois sentiu, miraculosamente, que os pés tocavam chão. Mas nem precisou de nadar. A onda entregou-o suavemente ao vasto areal. Mesmo junto a um imponente afloramento rochoso.

Ergueu ligeiramente o corpo, incrédulo num primeiro instante para, logo de imediato, tomar consciência do fenómeno maravilhoso que acabara de protagonizar. Deixou-se ficar de joelhos e, com o rosto banhado da água salgada que lhe escorria também dos olhos, arvorou estes em direcção ao céu plúmbeo e murmurou: “Obrigado meu Deus! Sobre estes rochedos cumprirei a minha promessa.”

Não foi, todavia, uma tarefa fácil. Apesar de nesta viagem, regressar da colónia sul-americana bastante endinheirado, a verdade é que este “brasileiro” acabara de perder, no naufrágio, toda a sua fortuna. Tal azar não o fez esmorecer. Ter salvo a vida era o mais importante e havia que cumprir a promessa que fizera à divindade.

Descalço, andrajoso, faminto por vezes, mas com grande fé e devoção, passou os anos seguintes calcorreando as estradas e povoações da região, recolhendo as esmolas e dádivas que lhe permitissem materializar, sobre aqueles rochedos de Miramar, em Vila Nova de Gaia, o templo que prometera construir em honra de Nosso Senhor: a Capela do Senhor da Pedra. Conseguiu, contudo, atingir tal desiderato ao fim de alguns anos, dando origem a um dos espaços religiosos que, ao longo dos últimos séculos, se converteria num dos mais famosos e concorridos do Grande Porto.

É esta a lenda do Senhor da Pedra. Poderia até ter sido verdade. Não são assim tão raros os monumentos, alminhas ou capelas que, no litoral, foram mandados edificar em cumprimento de promessas feitas, em momentos de aflição, no alto-mar. Poderia até ter sido verdade. Mas neste caso, no entanto, sabemos que não foi isso que se passou. Com efeito sabemos, historicamente, que o templo do Senhor da Pedra foi mandado construir por volta de 1750, não por um náufrago mas pelo abade de Gulpilhares José Barbosa Pereira. Quem o afirma é o seu sucessor, Francisco Caetano de Sousa Sacramento, que refere tal facto num documento do Arquivo Paroquial datado do dia 12 de Junho de 1794, acrescentando que o fizera com o “produto das esmolas”.

Mas que terá levado o pároco daquela freguesia gaiense a reunir esmolas entre os seus paroquianos para construir tal edifício religioso?

O contexto histórico e estético da época não foi certamente alheio a este projecto. Vivia-se então o barroco, período caracterizado por um grande ritmo de construções e reconstruções religiosas, ao qual não era indiferente a abundância de riquezas, incluindo ouro, que chegava do Brasil. Por outro lado, o barroco foi também uma corrente estética da qual a Igreja Católica se serviu como reacção ao Protestantismo. Através de grandes obras, belas, ricas e opulentas, pretendia-se captar a atenção e efectiva fidelidade dos fiéis. O barroco é também, por isso mesmo, uma arte cénica por excelência, á qual se associa um grande desenvolvimento das procissões, das romarias, do fausto dos actos religiosos, da exuberância e riqueza das alfaias litúrgicas utilizadas e envergadas pelos padres... um momento também para a construção de igrejas e capelas de grande impacto cenográfico. Em ermidas, nos sacro-montes (de que o exemplo mais paradigmático no Norte de Portugal é o “Bom Jesus” de Braga), e também no litoral... como é o caso do “Senhor da Pedra”.

Não podemos descartar, no entanto, a possibilidade de, com esta capela, o pároco de Gulpilhares ter querido também cristianizar ancestrais tradições e cultos pagãos associados a estes rochedos.

Com efeito, estes afloramentos estão associados, provavelmente desde épocas muito remotas, a um fundo mágico, místico e religioso. Não é caso único. Bem pelo contrário. É muito comum a associação deste tipo de atributos a grandes rochedos marítimos que de destacam na paisagem. Porque se erguem, isolados, na imensidão dos areais, ou porque se destacam dos que os circundam pelas suas formas ou pela sua coloração e/ou formação geológica distintiva.

É famoso, na vizinha Galiza, o caso do grande rochedo que se ergue, isolado, no vasto areal da praia de Corrobedo, identificado como um castelo mouro que uma maldição petrificou, aí aprisionando uma bela princesa moura que continua à espera de quem quebre tal esconjuro.

Bem mais próximo eram igualmente famosos os enormes rochedos que, partindo da praia de Matosinhos, se estendiam e se erguia, ao largo da foz do rio Leça, constituindo durante séculos um porto de abrigo natural. Estes rochedos – os “leixões” – serviriam de resto, nos finais do século XIX, para o assentamento dos gigantescos molhes que transformaram este porto natural no porto artificial que lhes tomou o nome.

Mas os leixões, para lá das suas características geo-morfológicas, sempre tiveram também, pelo destaque que possuíam na paisagem, uma dimensão mágica e religiosa. Não é por acaso que, segundo a tradição, a Imagem do Bom Jesus de Matosinhos apareceu entre estes rochedos...

Ora, a devoção ao Senhor da Pedra enquadrar-se-á, portanto, neste fundo ancestral de cultos litolátricos.

E a verdade é que, pese embora toda a devoção e fervor católicos que a este templo fez ocorrer muita gente, na realidade esta capela e estes rochedos continuam, ainda nos nossos dias, a suscitar e a captar imensas práticas de magia e feitiçaria, e evidentes fenómenos de sincretismo religioso.

E para muitos dos que de deslocam até ao alto destes rochedos é tão importante entrar no interior da capela para observar a imagem de Nosso Senhor quanto perscrutar entre os afloramentos as “intrigantes” (ou mágicas?) marcas que eles ostentam. Entre elas há, no entanto, duas que, pelas suas dimensões, localização paralela e formas arredondadas, se têm salientado ao longo dos tempos. Várias explicações populares, cristianizadas, explicam a origem destas “pegadas”. Para uns trata-se das marcas deixadas pelo Boi Bento (esse mesmo: o que afagava o Menino Jesus na manjedoura do presépio) que por aqui passou numa clara associação á devoção a Nosso Senhor. para outros, no entanto, estas marcas são o resultado da passagem por este rochedo da burrinha de Nossa Senhora, com o Menino, durante a fuga para o Egipto.

Para mais alguns, contudo, estas pegadas pertencem nada mais, nada menos do que ao cavalo do “Desejado”. Segundo esta versão, há muitos, muitos anos, numa manhã de nevoeiro, D. Sebastião assomou mesmo às costas portuguesas. Foi aqui: no Senhor da Pedra! O seu cavalo cravou e gravou as patas no rochedo. Mas nem por isso D. Sebastião por aqui se quedou. E portanto, continuamos à espera. E a lenda continua...

Joel Cleto

in O Tripeiro, Agosto 2008

02.09.2008

 

 

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