
O medo instalado durante os séculos que se sucederam às fogueiras da Inquisição ainda hoje se sente nos judeus. E a luta dos marranos pela preservação da identidade também. Aquele sentimento e esta capacidade continuam como marcas evidentes numa comunidade que já abre as suas portas sem medo e tenta lutar pela sua história.
A melhor forma de percebermos os marranos portugueses, enunciada pelo rabino Eliezer Shai, é lembrar a vida nos tempos da ditadura salazarista – as conversas tidas às escondidas dos eventuais bufos, as ideias guardadas no seio da residência e esperando que não houvesse uma invasão de propriedade, a impossibilidade de as pessoas professarem publicamente o que pensavam ou acreditavam – e multiplicar os 48 anos de comportamento temeroso na ditadura “por dez” uma equação cujo resultado será perceber os 500 anos em que os judeus obrigados a converter-se ao cristianismo prosseguiam os rituais da sua religião, a sua cultura e os seus ensinamentos hebraicos às escondidas, dentro de casa, temendo a entrada da turba católica, nunca em público.
Eliezer Shai, italiano de nascimento, o rabino que veio ajudar a dar uma nova vida à comunidade judaica do Porto, explica que esse comportamento “para um outsider, é difícil de aturar; é preciso ter muita paciência e tem de se conhecer bem essa cultura e perceber que viveram 500 anos na escuridão”, diz ao Primeiro de Janeiro.
A comunidade do Porto, apesar da sinagoga, da judiaria e da sua história recente passou por vários problemas que quase determinaram o seu fim. O culto esteve condicionado aos principais acontecimentos religiosos e era normal a sinagoga estar fechada. Apesar de se dizer que mais de metade da população portuguesa ser descendente de judeus, os praticantes do judaísmo não serão, actualmente, muito mais do que uma centena na região do Porto. Para já. Nos últimos quatro anos, com apoios internacionais e o resgate da obra de Barros Basto, o fundador da comunidade israelita portuense, e grande dinamizador do “regresso à luz do dia” da identidade escondida, a comunidade renasce. A chegada de uma nova Séfer Torá pelo grão rabino sefardita Shlomo Amar à sinagoga Mekor Haim (“Fonte da Vida”) e o início do “caminho regresso” com o rabino Elisha Salas, entretanto sucedido por Eliezer Shai – deram um novo alento à comunidade e ao seu “ressurgimento”, conforme refere Jorge Neves, secretário da direcção da comunidade. “Ainda faltam muitas coisas para que haja uma prática e uma vida judaica em pleno”, prossegue, “mas foram dados muitos passos importantes”.
Abrir a comunidade
No início do mês, e pela primeira vez em Portugal, celebrou-se a Jornada Europeia da Cultura Judaica, coordenada por Jorge Neves. Realizada desde 2004, este ano em 30 países, a jornada visou “abrir as comunidades judaicas de toda a Europa à população” e, no Porto, incluiu uma visita-guiada prolongada à Judiaria Medieval da cidade, à sinagoga erigida em 1939, um almoço marrano, com alheiras, e o lançamento do livro de Alexandre Teixeira Mendes “Barros Basto – A miragem marrana”.
O trabalho desenvolvido no âmbito da Jornada Europeia está ligado à rede de judiarias que há em Espanha, em locais onde se recuperou a memória da presença judaica na península. Essa rede, além de notar a presença dos judeus antes da Inquisição, é um verdadeiro nicho de mercado para o turismo, nomeadamente o chamado “turismo cultural”. Com sede em Girona, na Catalunha, esta rede funciona em locais onde as comunidades judaicas foram, antes da expulsão pelos Reis Católicos, significativas. Em Segóvia, por exemplo, onde nas ruas é imperceptível a presença judaica, há um espaço museológico, uma livraria e uma loja de recordações da velha judiaria. No Porto, onde é ainda notória a presença da comunidade, falta esse espaço, embora haja interesse da Ladina em dar a conhecer este espólio, conforme Jorge Neves, um dos responsáveis da Associação de Cultura Sefardita. Contudo, para isso é necessário que as autarquias se interessem por esse nicho de mercado turístico, em Leiria, Évora, Viana do Castelo, Guarda, Belmonte, Fundão ou Covilhã, e que aproveitem os apoios disponíveis. “O que nos interessa a nós enquanto associação cultural é dar visibilidade a essa tradição”, diz.
Persistência
Mas isso só se consegue quando é contornado o anti-semitismo existente em Portugal. “Não é evidente, esse é mais fácil de combater, é não visível, embora haja lóbis”, defende. “Há muitos poderes instituídos, a nível académico por exemplo, que é difícil de perturbar” e as pessoas “acabam por acreditar que o que ele diz na televisão é que é correcto”. É preciso persistência, anuncia.
E por aí passa a acção da Ladina, uma associação “aberta a todo o tipo de pessoas. Todos que querem dar relevo a esta herança”. Criada para dar outra visibilidade à vida judaica no Porto, a Ladina pretende recuperar além de Barros Basto, os nomes de outros vultos da cultura portuguesa, como Uriel da Costa, um dos grandes pensadores que antecipou Espinoza mas não tem sequer uma placa na cidade “e a nossa função é também restituir essa herança, mas pô-la em acção e em movimento”. E com ele, outros que fazem parte dessa tradição, como Fernando Pessoa (filho de judeu), Camões, Abraão Zacuto, Garcia da Orta, entre outros.
Apoios
Um dos apoios significativos que a associação teve é do grupo American Friends of Marranos, que ajudou à edição do livro sobre Barros Basto e se prepara para definir outros apoios. É o caso da Shavei Israel, com sede em Jerusalém, organização que apoia a presença de um rabino na sinagoga do Porto. Com cem famílias, a comunidade religiosa cresceu em Janeiro com o regresso de 16 marranos “à Casa de Israel” e reconhecidos como judeus por Israel.
Eliezer Shai, o rabino que os conduziu no final desse caminho, defende hoje em dia fortemente a cultura marrana, porque diz que ela ajuda a compreender os portugueses, dos quais está indissociada. “Tive uma dificuldade de perceber essa cultura, esse medo que gerava distância e desconfiança. Só agora, ao fim deste tempo que passei aqui é que começo a perceber melhor”, explica, salientando que esta memória doída não é impeditiva do diálogo inter-religioso, que defende acerrimamente. Agora, diz ao Primeiro de Janeiro, os judeus portuenses devem “deixar o portuguesismo de lado” e “dar espaço a uma visão mais aberta do mundo, para que essa comunidade cresça”, embora reconheça que isso é difícil. “A inquisição acabou”, sintetiza. Mas deixa o alerta: “Os portuenses tiveram uma comunidade judaica de ouro, que hoje em dia se conhece muito pouco, bem como sobre os judeus em Portugal… e é uma grande pena”.
Filinto Melo
Saiba mais:
Comunidade Israelita do Porto (blogue)
Sobre Barros Basto - Rua da Judiaria (blogue)
Barros Basto reabilitado 63 anos depois (Jornal de Notícias)
Publicado em 25.09.2007
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