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O Mistério de Cristo na música litúrgica pós-conciliar - O caso português do Padre Manuel Luís

A reflexão sobre o Mistério de Cristo na música litúrgica pós-Conciliar implica a análise da forma como o Mistério é transmitido através da música, à luz da reforma Conciliar. Esse é o grande objectivo deste estudo.

O tema permanece sempre actual, pois toca um dos pontos centrais da vida cristã: a evangelização. Não há cristianismo sem anúncio do Mistério de Cristo e do Evangelho. Foi assim na génese do cristianismo e ao longo da História da Igreja, e sê-lo-á sempre, pois o Mistério desenvolve, em quem o vive, a urgente necessidade do testemunho.

A Igreja procura, em cada tempo, corresponder existencialmente, ao que essencialmente já é: Sacramento Universal de Salvação (LG 1). Por isso, e em virtude da Missão que lhe foi confiada de levar a Boa Nova a toda a criatura, procura servir-se de todas as formas que contribuam para a transmissão eficaz do Mistério.

A música litúrgica surge, devido à sua natureza, como um dos meios privilegiados para o anúncio e celebração do Mistério de Cristo. De facto, a música tem um poder único, singular, de exprimir o que não pode ser dito por palavras. A beleza da música na Liturgia, ao tocar a sensibilidade humana, transporta o Homem para o ambiente que o texto e a linguagem musical sugerem. Por isso a música litúrgica de qualidade constitui uma forma eficaz de transmissão do Mistério.

A Igreja, no seu devir histórico, procura adequar a realidade concreta à Tradição. Por esse motivo, assume a necessidade de realizar reformas internas em vários sectores, ao ritmo da evolução dos tempos. A música criada para a Liturgia, a música sacra, não é disso excepção.

De facto, constituindo um património de inestimável valor, a música sacra, como a música em geral, sofre alterações ao longo da História. A Igreja, procurando colher a riqueza desse património, realizou várias reformas nesta área, para que a música pudesse continuar a ser um instrumento precioso ao serviço da Liturgia.

Neste estudo debruçámo-nos, exclusivamente, sobre a última grande reforma na área da música sacra, que foi o Concílio Vaticano II, e em especial sobre a aplicação subsequente do Concílio em Portugal. No entanto, tal tarefa afigurava-se demasiado extensa e vasta, em virtude de ter múltiplas concretizações na obra desenvolvida por inúmeros compositores de música litúrgica.

Assim, e por vários motivos que apresentaremos à frente, centrámos o nosso trabalho na obra desenvolvida pelo Padre Manuel Luís na área da música sacra. Procurámos identificar a forma como o trabalho de composição do autor, e também a sua obra teórica, servem a celebração e transmissão do Mistério de Cristo.

Vejamos, em primeiro lugar, quem foi o Padre Manuel Luís.

Foi, sem dúvida, uma das mais ilustres figuras portuguesas da segunda metade do século XX, na área da música litúrgica. Autor de numerosas obras litúrgicas de extraordinária expansão nacional, nasceu em Turquel, concelho de Alcobaça, a 7 de Julho (a informação disponível apresenta uma variação entre 7 e 9 de Julho) de 1926. Entrou para o Seminário de Santarém em 1939 e dois anos depois transitou para o Seminário de S. Paulo em Almada.

Em 1945 ingressou no Seminário Maior de Cristo Rei – Olivais, onde teve o privilégio de ter como Reitor uma grande figura da Igreja de Lisboa, Monsenhor Pereira dos Reis. Homem de grandes e iluminadas intuições, o Cónego Dr. José Manuel Pereira dos Reis, ensinou várias gerações de futuros sacerdotes a contemplar o Mistério de Cristo e da Igreja na celebração da Liturgia.

Essa etapa formativa terá sido determinante no desabrochar do talento musical do Padre Manuel Luís, segundo um fidelíssimo e rejuvenescido espírito litúrgico. Além de Monsenhor Reitor, teve ainda como formadores na área musical e litúrgica os Padres Inácio Aldassoro, professor de canto, e Pascal Piriou, compositor e organista.

O Padre Manuel Luís foi ordenado presbítero em Lisboa, a 29 de Junho de 1951, por D. Manuel Gonçalves Cerejeira. Logo depois foi enviado para Roma, onde viria a permanecer durante sete anos, frequentando o Pontifício Instituto de Música Sacra na Licenciatura de Canto Gregoriano e depois na Licenciatura de Música Sacra.

Em Roma começou a compor para a Liturgia «dez cânticos sobre os Salmos», com texto de Fernando Melro. Publicou também um cântico de ofertório que, como os anteriores, veio a ser integrado mais tarde na colecção «Cânticos da Assembleia Cristã».

De regresso a Lisboa, passou da condição de formando a formador. De 1958 a 1968 leccionou Espiritualidade e Teologia Moral no Seminário dos Olivais, dirigiu o coro polifónico do Seminário e foi-lhe confiado o serviço musical e litúrgico da Sé Patriarcal. Um ano depois recebeu uma nova nomeação pastoral: veio a ser pároco da Sé de Lisboa e, dois anos mais tarde, acumulou a função de Prior da paróquia da Madalena em Lisboa.

Em 1975 foi nomeado para presidente da Comissão Diocesana de Liturgia e Música Sacra e recebeu a nomeação pastoral da paróquia das Mercês, em Lisboa, onde viria a falecer a 5 de Julho de 1981.

Além do já referido, o Padre Manuel Luís foi ainda membro do Conselho Presbiteral, Vigário de Lisboa Sul e Assistente do Instituto Caritas Christi. Foi colaborador assíduo na Nova Revista de Música Sacra de Braga (aí publicando muitos dos seus cânticos), do Boletim de Música Litúrgica do Porto e do Boletim de Pastoral Litúrgica do Secretariado Nacional de Liturgia.

O aspecto mais marcante da vasta e intensa acção pastoral que desenvolveu, prende-se com a aplicação das inovadoras disposições Conciliares. As suas composições, com textos em língua vernácula, fomentaram a participação activa da Assembleia celebrante, e as melodias que compôs possibilitaram uma importante continuidade e adaptação da tradição gregoriana.

Nem sempre acessíveis a todo o tipo de sensibilidade musical, as composições do Padre Manuel Luís adquiriram uma notável importância ao nível da música litúrgica em Portugal e garantiram uma serena e feliz adaptação aos tempos novos.

De entre as inúmeras obras que compões, é inevitável referir a que certamente terá criado maior impacto nas dioceses em Portugal: a vasta obra de composição das melodias para os Salmos Responsoriais, para uso litúrgico nos três diferentes anos.

Com recurso a melodias por vezes simples, o Padre Manuel Luís deixou-se imbuir do espírito bíblico e litúrgico, proporcionando, não raras vezes, uma extraordinária osmose entre a melodia e o texto do Salmo. As melodias que compôs para os Salmos são admiráveis e chegam, nalguns casos, à excelência.

Nem sempre a sua inspiração o fez criar melodias novas. Há vários casos em que isso não aconteceu mas, invariavelmente, a forma como integrou as melodias existentes nas obras que compôs é de enorme qualidade. Por exemplo, a forma como adapta o célebre Veni Creator Spiritus gregoriano ao Mandai, Senhor, o Vosso Espírito da missa de Pentecostes é brilhante.

Na evocação do Padre Manuel Luís, feita pelo Cónego A. Ferreira dos Santos em 1981, pouco depois da sua morte, lê-se: «falar do Padre Manuel Luís não é fácil, ainda. O futuro é que lhe dará o recorte justo da sua personalidade influente e decisiva, no campo da Música Litúrgica pós-conciliar, em Portugal».

O Cónego Ferreira dos Santos manifesta sua opinião pessoal sobre a figura do Padre Manuel Luís «como compositor, como intérprete das orientações da Igreja sobre a Música Litúrgica e como grande instaurador, em Portugal, dum estilo de Música Litúrgica, ao mesmo tempo popular e nascida das grandes fontes que a Igreja propõe aos compositores de Música Sacra do nosso tempo».

O Padre Manuel Luís foi, sobretudo, um compositor de música vocal. Deixou escritos alguns acompanhamentos de órgão, mas a sua área de especialização não foi a música instrumental.

Para o Cónego Ferreira dos Santos, o seu maior valor foi o de «ter encontrado um estilo de música litúrgica pós-conciliar popular e ao mesmo tempo nascido do canto gregoriano e da polifonia sacra».

Considerando também a obra de composição das melodias para os Salmos Responsoriais como a «obra-prima» do autor, escreve: «as suas melodias discretas, distintas, contemplativas, decantadas de qualquer paixão, marcam efectivamente um estilo e significam a instauração de algo de novo em Portugal. Ele é, em Portugal, o que foi o Padre Gelineau em França».

Referindo a importância, segundo a Instrução Geral do Missal Romano, dos «cantos do celebrante» na Celebração, o Cónego Ferreira dos Santos indica ainda a importância do livro do «Canto do Celebrante» preparado por uma comissão a que o Padre Manuel Luís presidiu. Conclui dizendo que o autor «foi para Portugal cristão uma extraordinária lição».

O Padre Manuel Luís viveu intensamente o período da renovação Conciliar. A reforma litúrgica, «com a adopção do vernáculo, veio a lançar um sério desafio aos compositores. Portugal, como outros países, não tinha uma tradição musical para a Liturgia em vernáculo». Sentindo o desafio que lhe era colocado, realizou uma notável obra de composição musical para a Liturgia.

Considerando o conjunto da obra do Padre Manuel Luís, com a importância que teve na aplicação das disposições Conciliares sobre a Música Sacra, e considerando ainda o serviço que prestou à música litúrgica em Portugal, entende-se o motivo da escolha deste autor para o presente trabalho.

Além disso, tratando-se de um padre da diocese de Lisboa, cuja vida ficou muito ligada ao Seminário dos Olivais, é justo que lhe seja prestado tributo por outro sacerdote da mesma diocese, como reconhecimento pelo legado que transmitiu a várias gerações de sacerdotes.

Em suma, decidimos debruçar-nos sobre este autor pelos seguintes motivos: pelo papel de relevo que desempenhou na aplicação do Concílio; pela importância que teve e tem ainda na Igreja em Portugal; pelo facto de nunca ter sido realizado nenhum estudo sobre o conjunto da sua obra; por termos acesso aos manuscritos do autor, até aqui quase desconhecidos; e por se celebrar este ano os 25 anos do seu falecimento. Por tudo isso, analisámos, a partir da concepção do autor, a forma como a música pode servir a celebração do Mistério de Cristo.

O nosso método de trabalho consistiu no estudo exaustivo de todo o material disponível do autor, ou sobre ele. Depois desse estudo, seleccionámos as partes que dizem directamente respeito ao papel da música na Liturgia. Com base nesse processo, encontrámos as grandes fontes de inspiração do trabalho realizado pelo autor: a Constituição Sacrosanctum Concilium, particularmente o capítulo sobre a Música Sacra, e a Instrução Musicam Sacram de Paulo VI, que visa contribuir para a aplicação das normas deocrrentes do Concílio.

Para entender os fundamentos da reflexão Conciliar, pareceu-nos oportuno começar por analisar a evolução da discussão na Aula Conciliar, no que diz respeito aos temas principais. Depois considerámos exclusivamente, e de forma objectiva, o que o texto do Capítulo sobre a Música Sacra efectivamente diz. Em seguida analisámos a Instrução de Paulo VI, registando quais as principais linhas de força resultantes da aplicação do Concílio.

Numa segunda etapa, resumimos o conjunto da obra do autor relativa à música litúrgica. Identificámos os principais aspectos do seu pensamento nesta matéria e vimos, em terceiro lugar, na análise de alguns temas do Padre Manuel Luís, de que forma essas linhas de força do pensamento do autor se traduziram na obra que compôs.

Por último, tirámos conclusões pessoais, que reflectem a importância do Padre Manuel Luís para a Igreja em Portugal, no período pós-Conciliar.

Rui Jorge Sousa Silva

(Introdução à obra)

 

 

Índice

I – A Música Litúrgica no Concílio Vaticano II
1. A discussão na Aula Conciliar
2. A Música Sacra na Constituição sobre a Sagrada Liturgia
3. A Instrução «Musicam Sacram» de Paulo VI
4. Conclusão

II – O Padre Manuel Luís e a Reforma Litúrgica
1. Análise de textos do Padre Manuel Luís
2. Linhas de força do pensamento do Padre Manuel Luís

III – Análise de Obras do Padre Manuel Luís
1. Antífonas de entrada
2. Salmos Responsoriais
3. Cânticos de Ofertório
4. Antífonas de Comunhão
5. Cânticos para o final da Eucaristia
6. Hinos para a Liturgia das Horas

IV – Música Litúrgica e Celebração do Mistério de Cristo
Conclusão

 

 

O Mistério de Cristo na Música Litúrgica Pós-conciliar – O caso português do Padre Manuel Luís

Autor: Rui Jorge de Sousa Silva

Editora: Universidade Católica Editora

N.º de páginas: 208

ISBN: 978-972-54-0170-5

 

Publicado em 04.10.2007

 

 

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