
Um católico militante diante da crise nacional
Como tudo, também este estudo tem a sua história. Pelas circunstâncias, e pela duração da sua elaboração, este trabalho acaba por representar, antes de mais, um percurso balizado de investigação e de reflexão sobre a sociedade e o catolicismo portugueses na época contemporânea. Não se trata propriamente de uma biografia exaustiva de um personagem, considerado marcante e controverso, do movimento católico no período de transição entre a Monarquia Constitucional e a Primeira República, dos finais do século XIX e princípios do XX. O objectivo central deste trabalho é a compreensão, através de um protagonista polifacetado – Manuel Isaías Abúndio da Silva (1874-1914) –, do que se poderá designar pela metamorfose do campo religioso enquanto expressão de mundividências no âmbito cultural e político e, simultaneamente, a percepção dos cambiantes da recomposição social desse universo católico como experiência religiosa no contexto da sociedade portuguesa da época.
Este trabalho desenvolve-se em torno de um percurso que, sendo a muitos níveis biográfico, procura fugir à ilusão de considerar esgotada a existência de uma problemática – o movimento católico –, ou de se circunscrever a uma visão global sobre uma época e respectivo enquadramento sócio-político – a crise do regime monárquico e a instauração da República. Pretende-se, sobretudo, estabelecer um marco para a formulação de um discurso interpretativo, precisando, com o maior rigor possível, as questões que permitem traçar uma memória crítica em torno da religião com fenómeno social e em torno do trajecto de um crente enquanto interveniente e como instância de conjugação desse universo religioso com a sua pertença social. A compreensão desta dinâmica implica também considerar a articulação dos acontecimentos internos da sociedade portuguesa com a realidade internacional, na medida em que a actuação individual reflecte também o seu enquadramento e é devedora de múltiplas influências.
Quando se procura compreender a trajectória de um determinado protagonista, de uma vida no seio da complexidade social, a simples perspectiva diacrónica é insuficiente. A densidade desse percurso não se compreende pelo facto de se estabelecer um itinerário linear, pois colocam-se questões importantes em termos das mudanças que ocorrem no processo de participação social e de maturação individual. Assim, enquanto objecto central de investigação e fio condutor deste estudo, parte-se da percepção do lugar existencial onde se encontrava Abúndio da Silva aquando da sua morte. Isto é, «quando as parcas cortaram o fio da vida», o que é que foi interrompido ou finalizado nessa existência? Como é que, nesse momento crepuscular, se passou a edificar uma determinada memória, real ou fictícia, de aceitação ou de recusa, e se foi estabelecendo o olvido ou, em determinados momentos, se processou um reavivar de aspectos da sua personalidade e obra? Trata-se de um percurso que manifesta as razões pelas quais se valoriza o facto de ser considerado uma referência para se captar aspectos essenciais do movimento católico e da sua época.
Todo o século XIX, com as várias tentativas de edificação liberal da estrutura política de enquadramento social, pusera em questão não só – ou melhor –, não propriamente a religião em si, mas a amplitude e a intensidade do controlo desenvolvido pelas instituições religiosas, no caso português, da Igreja Católica Apostólica Romana. Ora, o catolicismo contemporâneo em Portugal tem sido estudado sob diferentes ângulos, com particular destaque para a sua articulação com a sociedade, com prevalência para as relações entre a Igreja e o Estado. Verifica-se, contudo, uma tendência bastante generalizada de tentar compreender o comportamento dos responsáveis da Igreja ou o movimento social católico como simples reflexo de ambientes católicos estrangeiros ou como mera reacção às outras correntes de pensamento e de acção, nomeadamente as que assumiam posições antagónicas à Igreja Católica, e facilmente se reduzem estas questões a uma dialéctica entre forças conservadoras e progressistas, acentuando uma visão dualista da realidade histórica. Interessa, porém, perceber o catolicismo no seu funcionamento como um todo e não, através dessa abordagem, destacado grupos ou individualidades isoladas, procurar projectar uma visão dicotómica – de um lado, o conservadorismo e, de outro, o progressismo –, necessariamente simplificadora dos contornos internos e externos do campo católico. Sem se desvalorizar completamente esta aproximação à realidade, parece ser oportuno colocar o comportamento dos católicos em face da problematização da identidade nacional: como se pensava no interior do catolicismo a realidade nacional na transição do século XIX para o XX.
Pretende-se, portanto, com este trabalho de pesquisa, situar o catolicismo e os seus agentes no seio do debate nacional existente, isto é, reflectir o modo como a Igreja Católica, comunidade de crentes e parte integrante da sociedade, pensava o país como realidade nacional e, ao mesmo tempo, como é que a sociedade, nos seus diversos quadrantes, compreendia ou combatia a Igreja. O objectivo é abordar o espaço católico, nas suas complexidade, unidade e diversidade, integrado no modo como se repensou ou como se formulou a necessidade de se regenerar a sociedade. Fazer luz sobre esta problemática permite compreender melhor o evoluir do catolicismo e as suas características em Portugal, ao mesmo tempo que facilita uma visão mais exacta de como ele foi elemento determinante no modelar da sociedade portuguesa contemporânea.
O catolicismo nem por conveniência de análise pode ser entendido como uma realidade indivisível ou completamente homogénea. Tomá-lo de um modo reducionista é não aceitar que existem vários aspectos pouco estudados, ou esmo em parte desconhecidos: o pensamento, os tipos de pastoral, a vida paroquial, a religiosidade popular, a formação do clero, as formas de espiritualidade, os movimentos eclesiais na sua complexidade, etc. O terreno é vasto e, porque o é, torna-se perigoso fazer generalizações abusivas ou, por estas não estarem esclarecidas, alimentar o desconhecimento de aspectos importantes do viver colectivo.
Através desta abordagem torna-se presente que a História, enquanto ciência social e humana, não se debruça sobre realidades universais e abstractas, mas sobre dinâmicas construídas por pessoas e grupos, interagindo e estruturando permanências e rupturas, cuja dimensão se aprecia em termos de longa duração, sem perder do horizonte o tempo curto e a conjuntura. Na sua especificidade, as mundividências religiosas são instâncias complexas do existir, intimamente associadas às motivações do agir. De facto, o paradigma da acção é característica essencial do desenvolvimento religioso no século XIX, enquanto programa de legitimação da utilidade social da religião.
Seria um engano querer reduzir a problemática religiosa na sociedade contemporânea a uma dimensão de crença individual; esta crença corresponde sempre a uma mundividência, a um modo de olhar. O problema crucial é o lugar que ocupam, nesse processo de crença, as mediações, a todos os níveis da realidade: desde o institucional ao pessoal. O cristianismo e a sua compreensão estão no centro de importantes discussões deste período contemporâneo, com particular destaque quando se trata de pensar o sentido de existir do país, na medida em que, no terreno social, se jogam simultaneamente as mediações – as sociabilidades – quer políticas, quer confessionais.
Este trabalho visa analisar, assim, a problemática social e política na transição da Monarquia Constitucional para a República, considerando o seu enquadramento religioso. Isto é, procura perceber a ruptura do regime político ocorrida a partir da componente religiosa enquanto fenómeno específico. Para concretizar este objectivo considera-se o percurso de um católico militante, o qual, sendo complexo, é, de certo modo, também exemplar, na medida em que coloca questões próximas ou similares a outras preconizadas por personalidades da época, dentro e fora do campo político, e porque expressa alguns dos principais problemas político-religiosos patenteados neste contexto.
Um católico militante diante da crise nacional
Na generalidade da historiografia portuguesa sobre o catolicismo e os católicos, particularmente no referente à época contemporânea, tem-se insistido numa percepção essencialmente centrada no seu comportamento político, muitas vezes entendido como um bloco, e onde se percebe mal a sua diversidade, a sua evolução e a sua interacção com o conjunto da sociedade. Outras vezes formulado em termos dicotómicos, este comportamento confunde-se e esgota-se numa percepção institucional e unitária da realidade religiosa, não considerando suficiente a problemática interna ao campo católico. Todavia, o catolicismo é, na sua complexidade, uma importante componente da análise da sociedade portuguesa contemporânea e um excelente lugar de observação e de percepção, onde se patenteiam os diferentes elementos em jogo nessa contemporaneidade.
O âmbito sugerido pelo catolicismo abrange uma pluralidade de aspectos, para além das relações com a Igreja Católica, enquanto instituição, a sociedade e o Estado na sua evolução moderna. Pela sua natureza religiosa, esse âmbito comporta duas dimensões essenciais: a existência de instituições próprias em evolução e em composição com as transformações sociais – a mudança social; e a dimensão da crença e das suas práticas, remetendo a análise para a problemática dos valores, das várias percepções da vida e do mundo (mundividências), para o significado das vivências e da sua dimensão celebrativa, como lugar simbólico da fundamentação do social.
Assim, o catolicismo surge, com objecto de estudo científico no âmbito da ciência da História, com objectividade e com rigor, enquanto elemento estruturador e marcante da sociedade; e, neste caso específico, da sociedade portuguesa, durante o lento processo de mutação e de recomposição sociais ao longo do século XIX até à proclamação do regime republicano (1910), como forma pretendida de sociedade liberal avançada e radical. Nessa perspectiva é parte da história social. Especificamente, e em termos de história religiosa, o século XIX correspondeu a um lento processo de modificações das formas pastorais do Antigo Regime, nomeadamente no que se refere ao impacto da extinção das ordens religiosas e à busca de outras formas de presença social, mas não só. De modo geral, verificou-se uma profunda recomposição do catolicismo em termos da sua organicidade interna e externa, não pelo desaparecimento de formas de religiosidade, práticas ou estruturas religiosas tradicionais, mas pela emergência e sucessão de novos comportamentos que, progressivamente, corresponderam a novas atitudes da Igreja católica no seio da sociedade, onde se contrapuseram a perspectivas diferentes em torno da constitucionalização da religião e da Igreja e da defesa da sua liberdade e autonomia em face do Estado.
O universo católico, constituindo um conjunto próprio, intercepta e é atravessado por uma multiplicidade de realidades – concorrentes, em oposição ou complementares –, que oferecem uma configuração das redes institucional, política, social, económica, cultural e de mentalidades que, em larga medida, formam o Portugal contemporâneo. O espaço católico é constituído por instituições, agentes, comportamentos e símbolos, de ordem pessoal e colectiva, internos e externos, que se situam activamente no todo social, determinando-se por uma lógica própria, mas também por uma resposta a todos os outros elementos que, em conjunto, actuam quotidianamente e a longo prazo numa determinada sociedade, neste caso a portuguesa. (…)
A instauração da sociedade liberal trouxe não só a progressiva desagregação das estruturas e dos vínculos antigos, mas introduziu também a dimensão da mudança como necessidade social. Esta mudança não teve só reflexos no desenvolvimento material mas, e não menos relevante, também no mental. Portanto, a realidade passou a ser uma instância do agir humano, de um agir como combate para estabelecer uma nova ordem política e – como que seu óbvio prolongamento – uma nova ordem social. A conflituosidade evidenciada neste processo alargou-se a outras dimensões, nomeadamente aos níveis político e social, quer na resistência às mudanças, quer preconizando um acontecer revolucionário que acabou, em larga medida, por caracterizar a contemporaneidade. Foi esta cultura do agir, e do agir para transformar, envolvendo simultaneamente uma mística colectiva e individual, não despida de modalidades espirituais, e identificando-se com o desiderato da própria mudança, que permitiu falar-se em militância como uma maneira de ser contemporânea – o ser militante – onde se cruzam inspirações de muitos campos: legitimistas, nacionalistas, liberais, republicanas, socialistas ou anarquistas. Também o meio católico oitocentista gerou um modo de estar na sociedade que se pode caracterizar como um modo de ser militante católico.
Assim, e considerando este enquadramento, estudar o itinerário de um militante católico, neste caso o de Abúndio da Silva, é situar a reflexão e o conhecimento de um determinado período no cruzamento entre o indivíduo e os grupos em que participou ou dos quais se distanciou, bem como avaliar a sua percepção dos acontecimentos seus contemporâneos, compreendendo-se assim alguns aspectos do funcionamento, do modo como o catolicismo embrecha e intervém no todo social.
Este trabalho não pretende ser propriamente a biografia de alguém que, apesar de ter tido uma vida relativamente curta, surge como figura destacada do movimento católico no período final da Monarquia Constitucional e na primeira fase da República. Trata-se, antes de mais, de verificar como um homem, evoluindo no seio do catolicismo em recomposição e afirmação no interior de uma sociedade liberal – a portuguesa –, nos elucida sobre a pluralidade de dimensões que atravessam a componente católica e nos aponta questões centrais que marcam esse período da história do país, particularmente ao nível social e das mentalidades, considerando os contornos políticos desse mesmo contexto.
A abordagem requerida sobre Manuel Isaías Abúndio da Silva aponta para duas dimensões – a de católico e a de cidadão –, constituindo ambas parte de uma mesma personalidade, não separável e em constante conflituosidade, porque vertentes de um mesmo empenhamento militante. Assim, a militância católica surge, em toda a sua amplitude, como exercício real de uma intervenção sócio-política, alimentada por motivações ideológicas e espirituais: sentido e significado da vida. Intervenção essa que exprime um referencial mais amplo: o da Igreja Católica Romana no seio de uma globalidade complexa que é a sociedade portuguesa, através daquilo que foi como pessoa e no que ele próprio tinha de consciência de si.
Abúndio da Silva, tendo exercido influência, não foi propriamente um homem do poder político nem do poder eclesiástico. Foi um leigo interveniente, e esta intervenção deu-lhe influência, correspondendo assim ao desenho de alguém que, na charneira do processo de secularização formulou e encarnou um projecto de reforma da sociedade, considerando a religião como factor determinante de tal desiderato reformador, associando à eficácia deste a pressuposição de uma restauração católica, que só poderia ser social na medida em que fosse eclesial.
Foi a amplitude desta compreensão da restauração católica que, não sendo específica ou exclusiva de um protagonista, neste caso Abúndio da Silva, constituiu o grande debate sobre o lugar do catolicismo na sociedade contemporânea; isto é, de como a experiência religiosa sendo um facto social, uma herança, uma memória, um enquadramento da vivência individual e social, compunha o húmus do terreno social, da disputa do poder, da formulação dos contornos da convivência social e da definição do paradigma da sociedade.
A Igreja Católica, pelo facto de existir socialmente, tem poder; um poder que ela própria fundamenta a partir da sua auto-compreensão. Da herança da sociedade de cristandade, a configuração e o enquadramento sociais recebiam, em larga medida, a sua referência e legitimidade. Todavia, sem rejeitar a sua existência social, o liberalismo, desde o início, questionara e disputara a sua função e o seu lugar sociais, surgindo, paulatinamente, por parte de sectores radicais e socializantes, o desiderato de substituição da religião tradicional e de laicização da sociedade. No interior desta disputa estava em jogo uma concorrência de influências, afinal uma disputa em torno do exercício do poder na sociedade. Pode considerar-se que o estado liberal, para afirmar a sua autoridade e a sua eficácia, disputava à Igreja católica a sua presença social, procurando ordená-la no quadro da constitucionalização do regime e no seu funcionamento, desenvolvendo uma actuação regalista; por seu lado, sectores católicos reagiam, encontrando na vertente ultramontana o seu amparo, e formulando uma eclesiologia reivindicativa da autonomia e da liberdade da religião e da Igreja.
Mas o empenhamento dos activistas católicos não resultou só de uma reacção global e ideológica à modernidade, ele continha também perspectiva próprias relativas à sociedade e ao «bem comum», que tornam a sua actuação num projecto específico de mudança social. Tal projecto inscreve-se, numa determinada época e em função das circunstâncias, na «missão» da Igreja – a cristianização: marcar as sociedades e os seus membros pela doutrina e pelos valores que lhe eram próprios.
Em face das mudanças sociais e culturais pressentidas pela instauração do liberalismo político, o meio católico, nos seus diversos matizes, entendia que se operara uma descristianização da sociedade e, por conseguinte, importava galvanizar consciências e vontades, bem como promover iniciativas em ordem à missionação da mesma. A valorização da descristianização correspondia também a um diagnóstico sobre a perca de controlo sobre o povo por parte das instituições eclesiásticas. E, neste contexto, o movimento social católico surgia, não exclusivamente como entrave ao liberalismo e ao socialismo, mas para contrariar essa descristianização, encarada como mal para a Igreja e, também, para a sociedade. Esta leitura da realidade transportava consigo, simultaneamente, novas necessidades, quer em torno da vivência religiosa e espiritual, quer em termos organizativos com incidências eclesiológicas. Assim, visava-se fomentar o comportamento de influência, combate e propaganda, particularmente quando nessa mesma sociedade se desenvolviam forças que procuravam retirar, delimitar ou restringir a influência da Igreja e das suas doutrinas, isto é, realizar um processo de laicização.
Efectivamente, o catolicismo contemporâneo foi marcado pela emergência de novas formas de actuação dos católicos que, recorrendo às tradicionais formas organizativas – paróquia, ordens religiosas, confrarias, etc. – catapultaram os leigos para a ribalta da vida social, cultural e política, ganhando estes um papel progressivamente determinante em certas formas de intervenção e de construção do próprio discurso religioso e social da Igreja Católica Apostólica Romana, assim como abriram novas formas institucionais desta se realizar historicamente. Este processo não foi linear, patenteando uma dupla conflituosidade – social e eclesial –, expressão e fruto da evolução da sociedade e da própria consciência que o homem tinha de si e da sua história, bem como da mutação interna do próprio universo religioso na sua formulação teológica e nos seus diversos níveis de práticas.
As influências externas tiveram grande importância para as modificações da sociedade portuguesa, e as ideias foram motor de transformação, dando expressão ideológica às tensões existentes na sociedade. Certamente, por causa do atraso económico, sobretudo por um débil e lento processo de industrialização, coube às ideias uma função mobilizadora, já que o movimento social enquanto tal tinha menor capacidade de gerar e corporizar a agitação sócio-política. Neste contexto, importa realçar o papel desempenhado pelas experiências católicas de outros países, que marcaram e influíram experiências e pessoas. Nesse processo de influência não foi secundário nem o magistério pontifício, pelas referências doutrinais propostas, nem a actuação da diplomacia da Santa Sé, nomeadamente através da actuação e das orientações patrocinadas por alguns núncios em particular ou por parte de Roma directamente, com directivas emanadas dos diversos dicastérios.
No período em análise, a Igreja Católica Romana não reage unicamente às pressões e contrariedades que lhe vêm de fora. Ela vai paulatinamente desenvolver dinâmicas internas que são descolagens da organização política da sociedade enquanto tal, reflectindo o impacto de uma secularização que se insinua de múltiplas formas, adquirindo uma nova organicidade na relação com a sociedade que, ainda incipiente, determinará o catolicismo até ao pós-II Concílio do Vaticano: formas novas de vida consagrada (congregações religiosas) e de associações de católicos (leigos, padres e religiosos) que integram novas modalidades dos movimentos sociais. Simultaneamente, ela integra e influi.
Um período: 1870-1914. Contexto e caracterização da crise nacional
O século XIX português foi marcado por um permanente desejo de «regeneração nacional», resultante de uma consciência, diferenciada mas permanente, de atraso e de decadência nacional em relação às outras potências europeias e em confronto com o passado português e, sobretudo, com as imagens desse ethos histórico.
Num primeiro momento, foi uma visão iluminista e romântica que marcou esta percepção de decadência e de crise nacional e que levou à revolução liberal de 1820, como imperativo social e moral, desembocando na guerra civil (1832-1834); e onde as reformas de Mouzinho da Silveira (1780-1849) e as doutrinações, por exemplo, de um Almeida Garrett (1799-1854) ou de um Alexandre Herculano (1810-1877) constituíram apelo à necessária “regeneração” e encarnaram o desejo profundo de Portugal reencontrar o seu lugar como potência de progresso, tal como se entendia que tinha sido o seu passado. Mas, a conflituosidade na sociedade portuguesa durante o século XIX não se processou unicamente entre a persistência de factores do Antigo Regime e a afirmação de um ideário revolucionário liberal. Este, depois da transformação constitucional da Monarquia, apresentava-se atravessado por diversas concepções e interesses antagónicos quanto aos grupos sócio-económicos e às respectivas interferências na estruturação política e económica do país.
As hesitações e as fragilidades da industrialização de Portugal no século XIX, se são herdadas de uma sociedade de Antigo Regime, prolongam-se nas ambivalências das opções de desenvolvimento económico ao longo do período oitocentista. Entre uma economia assente na agricultura e uma industrialização progressiva, o atraso do país dificulta o acompanhamento do processo de desenvolvimento que se opera na mesma época noutras potências europeias. As opções de livre-cambismo acentuam a integração da economia portuguesa no espaço dominante da Inglaterra, remetendo o país para uma periferização marcante para o seu futuro. O aumento progressivo da população é acompanhado por uma emigração constante, que acentua questões de insuficiência e de dependência em relação ao estrangeiro.
Mesmo o período onde se verificou certa estabilidade política e uma consequente iniciativa de medidas de fomento – o fontismo (1851-1876) – não conseguiu alterar substancialmente esta situação de atraso e de dependência, pelo contrário, vários factores tenderam a acentuá-la. A economia portuguesa, fortemente marcadas pelas actividades comerciais em detrimento das actividades industriais, tornara-se deficitária de forma endémica e a crise financeira, nomeadamente no respeitante à dívida externa, constituíra-se como gangrena para o regime monárquico constitucional. Se a partir de 1875-1880 se assistiu a uma nítida aceleração do processo de industrialização do país, as necessidades coloniais portuguesas subjacentes a este processo revelaram a secundarização de Portugal como potência, tendo a crise provocada pelo Ultimato inglês (1890) constituído um momento essencial de ruptura na sociedade portuguesa, considerado por muitos autores como inaugural de um outro período da história nacional. A questão colonial passou, nestas circunstâncias, a colocar um outro desafio à legitimidade pública e nacional do regime monárquico-liberal.
Se a consciência da crise e de decadência nacionais tinha um fundo cultural amplo e de carácter europeu, bebido no marulhar das ideias do século, encarnava também, no plano nacional, uma consciência interiorizada daqueles que pensavam e actuavam orientados por uma vontade de transformar o país a partir das suas estruturas e mentalidades. Desde a década de 50 que tinham começado a surgir reelaborações das suas próprias coordenadas e como expressão de novas sensibilidades e desideratos sociais, as quais marcaram o pensar e o agir dos sectores mais activos das gerações que protagonizaram o desfecho do regime monárquico e se projectaram com a implantação da República em 1910. Foi o caso do romantismo liberal municipalista de Alexandre Herculano, denunciador da ordem e da cultura eclesiástica ultramontana, ou do socialismo utópico municipalista e federalista republicano de Henriques Nogueira.
As medidas de fomento – estradas, caminhos de ferro, etc. – aceleraram neste mesmo período «o ideal de progresso» como matriz de futuro, favorecendo a circulação de ideias e contribuindo para acentuar o impacto desse paradigma de transformação e de “industrialismo”, modelado nos centros europeus considerados de progresso. Mas, por outro lado, este fomento contribuiu também para acentuar a consciência de decadência e de atraso nacionais como um destino inexorável, se bem que os diagnósticos e as terapias preconizadas fossem muito diferenciadas de acordo com os sectores sócio-económicos, ideológicos ou políticos.
Contudo, esta actividade intelectual crítica e o seu referencial externo foram o húmus donde emergiu uma nova geração, desligada das lutas liberais e do seu romantismo. Esta nova geração – comummente designada como a Geração de 70 – procurou valorizar novas sensibilidades, constituir um programa e definir novas experiências culturais e cívicas. Não menos romântica, mas de um outro modo, e no cruzamento de uma pluralidade de influências, esta geração protagonizou, de uma maneira ou de outra, os principais movimentos sócio-políticos e culturais que marcaram a transição do século XIX para o XX em Portugal.
Integrando a problemática da decadência nacional num espaço mais amplo – o da Península Ibérica – os homens que integraram esta geração, se apresentavam inicialmente factores de aproximação e identificação mútua, transportavam também muitas diferenciações que os dividiram e em torno das quais se estabeleceram importantes rivalidades e confrontos. A industrialização, lenta e circunscrita, mas efectiva, favorecera o surgimento das primeiras tentativas de constituição de organizações operárias, oscilando entre o ideário socialista e anarquista, mas foi o republicanismo que acabou por se constituir como dinâmica aglutinadora da contestação sócio-política, encontrando na crise da Monarquia Constitucional incentivo para a sua própria organização e expansão. Um dos aspectos centrais dessa conflituosidade formulou-se em torno do anticlericalismo que se tornara, indiscutivelmente, num dos traços comuns dessa geração intelectual e militante, mesmo se as suas apreciações específicas eram matizadas, quer na sua fundamentação filosófica, quer na sua utilização como arma de combate político.
A problemática religiosa, nos seus diferentes aspectos, constituiu elemento central no debate político e cultural desta época. O papel do catolicismo e da Igreja Católica Romana, como factor estruturante da sociedade portuguesa, foi apreciado, de um modo geral, pela Geração de 70, como fautor do processo de decadência nacional existente. Mas a crítica à religião não surgiu somente como rejeição do catolicismo enquanto forma histórica encarado como uma etapa ultrapassada agora pela «revolução, o cristianismo dos tempos modernos», ou enquanto encarnando um estádio de desenvolvimento humano anterior à afirmação da razão e da ciência, como observa o ideário positivista.
No final do século XIX, o catolicismo surge em Portugal profundamente envolvido no interior do debate sobre a crise nacional, encarado por uns como um dos factores mais responsáveis por tal situação, defendido por outros como o recurso capaz de contribuir para uma regeneração necessária. A Igreja Católica Romana e, de uma maneira muito particular, os sectores católicos empenhados numa renovação desse catolicismo encontraram-se confrontados pelas diferentes formas de liberalismo que, ao procurar afirmar-se nas suas formas mais tradicionais ou nas mais radicais como o republicanismo, transportavam uma concepção regalista e de funcionarização de religião. Também o messianismo revolucionário socialista e anarquista tinha, em relação à Igreja Católica Romana e aos seus diversos movimentos sociais, uma desconfiança, quando não uma grande hostilidade, porque os considerava instâncias legitimadoras de injustiças sociais e porque, possuindo estas também, e de forma concorrencial, organizações e acção de enraizamento popular, as encarava como fautoras de alienação e de atraso para a causa da reivindicação social.
Assim, o catolicismo confrontava-se com um duplo movimento de mutação social e cultural: o da laicização, que procurava retirar ou reduzir significativamente o papel da religião e da Igreja Católica na sociedade portuguesa; e o da sua substituição por um espiritualismo variado, assente no pensamento de certos intelectuais ou de correntes positivistas, que informou significativamente a base ideológica de mobilização contra a Monarquia e a Igreja Católica, considerando esta última como um dos suportes mais consistentes do regime dos Braganças.
Assistiu-se, no esgotamento programático dos partidos tradicionais da Monarquia Constitucional, conservadora e liberal, aos que recorreram também à questão religiosa para estabelecer a sua própria diferenciação política e de luta partidária. O regime político e a sociedade civil eram disputados por dois projectos diversos e antagónicos: o católico e o dos sectores culturais e políticos que preconizavam a laicização. Duas instituições – a Igreja Católica e a Franco-Maçonaria – eram apresentadas como paradigma e, e de certo modo, protagonizaram este afrontamento. Porém, elas próprias manifestavam grande diversidade interna; sendo “a regeneração do país” um desiderato comum, também era de divergência e de confronto pelo conteúdo que lhe era dado e pelo que implicava de percepção sobre as mudanças a realizar, na sua fundamentação, na sua concretização e nos objectivos a alcançar.
As organizações socialistas e anarquistas, que procuravam dar corpo ao movimento operatório apesar de todas as fragilidades do processo de industrialização, constituíam também forças significativas de agitação e de contestação anticlerical, principalmente nos principais núcleos urbanos e industriais, com importância na actividade panfletária e jornalística da época. Apesar do que as separava do liberalismo e das suas formas mais radicais, como o republicanismo, as diferentes formas de movimento operário, socialista ou anarquista, constituíram significativa oposição ao catolicismo, até pelo facto deste ser encarado como impedimento ao progresso do espírito revolucionário.
Não se tratou, portanto, de uma disputa conjuntural entre instituições. Estas instituições carreavam diversas instâncias de reivindicação, lutavam para garantir a efectividade da sua influência na sociedade ao nível da produção e reprodução de ideias, de mentalidades, de dinâmicas de sociabilidade e processos de socialização. Por isto mesmo, o terreno da disputa foi vasto e a actividade militante muito diversificada no campo do ensino, da administração, do poder político, da assistência social, da educação da infância, da “acção feminina”, da opinião pública através de um publicismo frenético, ou das várias iniciativas sociais nas suas mais diversificadas formas. Esta disputa em torno da regeneração social e política do país tinha uma vertente de guerra interna, de “cruzada”, colocando-se persistentemente a questão da moderação possível e desejável, ou da necessidade de impedir a altercação pública e os golpes de força e, simultaneamente, medidas instauradoras da autoridade como forma de tentar um poder político forte.
Foi, assim, uma época na qual se formularam e se perfilaram muitas das posições sócio-políticas que, de certo modo, estabeleceram os parâmetros das posições ideológicas e políticas da vivência da cidadania no Portugal novecentista; como também se enraízam neste ambiente componentes importantes do comportamento dos católicos portugueses e da Igreja Católica, com os seus variados matizes e tensões.
António Matos Ferreira
(Introdução à obra)
Esta transcrição omite as notas de rodapé.
Índice
Introdução
1. Um católico militante diante da crise nacional
2. Um período: 1870-1914. Contexto e caracterização da crise nacional
3. Metodologia
I – O silêncio da incomodidade ou a reelaboração de uma memória
1. «Distinto e talentoso»
2. Doença e morte
3. Imagem e primeira memória
4. Reencontro historiográfico
5. Protagonismo e definição de uma personalidade
II – a formação de um legitimista ou a mundividência de um católico antiliberal
1. Ambiente familiar e primeiros anos de formação
2. Estudante de Teologia e de Direito
3. Primeiras iniciativas como publicista
4. Inquietação poética e universo espiritual
5. O ambiente de Coimbra e a reelaboração do catolicismo oitocentista
6. A nunciatura leonina de Jacobini
7. A cidade do Porto e o movimento católico
III – Religião e sociedade em Abúndio da Sílva
1.Um testamento de convicções
2. Da problemática social e religiosa à questão política
3. Experiência da Igreja e vivência religiosa num ambiente de forte contestação
4. Catolicismo e desagregação do regime monárquico
5. Um projecto de renovação do catolicismo português
IV – A crise nacional: o social e o político versus a restauração católica
1. A ambivalência de um conceito
2. O nacionalismo católico
3. O catolicismo marcado pela tensão entre «centro» e «partido»
4. O voto católico: confronto entre concepções eclesiológicas
5. Modernismo político e religioso
V – A liberdade da Igreja e do católico diante da recomposição social e política
1. O catolicismo entre monárquicos e republicanos
2. A separação entre a Igreja e o Estado
3. Projectos de laicismo e laicidade do estado e da sociedade
4. Fundamentos de um conceito de liberdade
VI – «Restauração católica»: um programa de movimento católico na sociedade
1. Acatamento político e autonomia religiosa
2. A mulher como mediação sócio-religiosa
3. Educação religiosa: catequese e ensino
4. Desempenho religioso e social do clero
5. Movimento católico
6. Autoridade episcopal
VII – Ser católico e ser cidadão: pertença e autonomia
1. O lugar da religião na sociedade
2. Subordinação e autonomia na relação do político com o religioso
3. O político como factor de divisão religiosa
4. Ser católico e ser cidadão em Abúndio da Silva
Conclusão – A discrição de uma posteridade
1. Espiritualidade e consciência
2. Militância e movimento católico
3. Memória e dinâmica social
Cronologia
Anexos
Um católico militante diante da crise nacional – Manuel Isaías Abúndio da Silva (1874-1914)
Autor: António Matos Ferreira
Editora: Centro de Estudos de História Religiosa – Universidade Católica Portuguesa
Páginas: 576
ISBN: 978-972-8361-25-9
Publicado em 09.10.2007
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O catolicismo confrontava-se
com um duplo movimento
de mutação social
e cultural: o da laicização, que procurava
retirar ou reduzir significativamente o papel da religião e da Igreja Católica na sociedade
portuguesa;
e o da sua
substituição por um espiritualismo variado, assente no
pensamento de
certos intelectuais
ou de correntes positivistas
O regime político e a sociedade civil eram disputados por dois projectos diversos e antagónicos:
o católico e o dos sectores culturais e políticos que preconizavam a laicização
O catolicismo
nem por conveniência
de análise pode ser entendido como uma realidade indivisível ou completamente homogénea
Seria um engano
querer reduzir a problemática religiosa na sociedade contemporânea
a uma dimensão de crença individual;
esta crença
corresponde sempre a uma mundividência, a um modo de olhar
Todo o século XIX,
com as várias
tentativas de
edificação liberal da estrutura política de enquadramento social, pusera em questão
não só – ou melhor –, não propriamente a religião em si, mas a amplitude
e a intensidade do
controlo
desenvolvido pelas instituições religiosas
Verifica-se uma tendência de tentar compreender o comportamento
da Igreja como
simples reflexo de ambientes católicos estrangeiros ou como mera reacção
às outras correntes de pensamento
e de acção, nomeadamente as que assumiam posições antagónicas à Igreja Católica, e facilmente
se reduzem estas questões a uma dialéctica entre forças conservadoras e progressistas
O objectivo
é abordar o espaço católico, nas suas complexidade,
unidade e diversidade, integrado no modo como se repensou ou como se formulou a necessidade de se regenerar a
sociedade
Apesar do que as separava do
liberalismo e das suas formas mais radicais, como o
republicanismo,
as diferentes formas
de movimento
operário, socialista
ou anarquista, constituíram
significativa
oposição ao
catolicismo
O problema crucial
é o lugar que
ocupam, na crença,
as mediações
a todos os níveis da realidade: desde o institucional
ao pessoal
Seria um engano
querer reduzir a problemática
religiosa na sociedade contemporânea a uma dimensão de
crença individual
O catolicismo é,
na sua
complexidade, uma importante
componente
da análise
da sociedade portuguesa contemporânea
O século XIX correspondeu a um lento processo de modificações das formas pastorais do Antigo Regime, nomeadamente
no que se refere ao impacto da extinção
das ordens religiosas
e à busca de outras formas de presença social, mas não só
O papel do
catolicismo
e da Igreja Católica Romana,
como factor
estruturante da sociedade
portuguesa, foi apreciado,
de um modo geral,
pela Geração de 70,
como fautor do processo de
decadência
nacional existente
Verificou-se uma profunda
recomposição do catolicismo, não pelo desaparecimento
de formas de religiosidade,
práticas ou estruturas religiosas tradicionais, mas pela emergência e sucessão de novos comportamentos
Foi esta cultura do
agir para transformar, envolvendo simultaneamente uma mística colectiva e individual,
não
despida de
modalidades
espirituais,
que permitiu
falar-se em militância como uma maneira de ser contemporânea –
o ser militante –
onde se cruzam inspirações
de
muitos campos: legitimistas, nacionalistas,
liberais,
republicanas,
socialistas ou anarquistas
Este trabalho pretende, antes de mais, verificar como um homem, evoluindo no seio do catolicismo em recomposição e afirmação no interior
de uma sociedade liberal, nos elucida
sobre a pluralidade de dimensões que atravessam a componente católica e nos aponta questões centrais que marcam esse período
da história do país
Abúndio da Silva encarnou um projecto de reforma da sociedade, considerando
a religião como factor determinante de tal desiderato reformador, associando à eficácia deste a pressuposição de uma restauração católica, que só
poderia ser social
na medida em que
fosse eclesial
Foi a amplitude desta compreensão da restauração católica que, não sendo específica ou exclusiva de um protagonista, constituiu o grande debate sobre
o lugar do catolicismo na sociedade contemporânea
O messianismo revolucionário
socialista e anarquista tinha, em relação
à Igreja Católica
Romana e aos seus diversos movimentos sociais, uma desconfiança,
quando não
uma
grande hostilidade
Em face das
mudanças sociais e culturais pressentidas pela instauração do liberalismo político, o meio católico, nos
seus diversos matizes,
a Igreja entendia
que se operara uma descristianização da sociedade e, por conseguinte,
importava galvanizar consciências
e vontades
A Igreja visava
fomentar o comportamento de influência, combate e propaganda, particularmente
quando na
sociedade se desenvolviam forças que procuravam
retirar, delimitar ou restringir a influência
da Igreja e das suas doutrinas, isto é,
realizar um processo
de laicização
No período em análise,
a Igreja Católica
Romana não reage unicamente
às pressões e contrariedades que lhe vêm de fora. Ela vai paulatinamente desenvolver
dinâmicas internas que são descolagens da organização política
da sociedade
A conflituosidade na sociedade portuguesa durante o século XIX não se processou unicamente entre a persistência de
factores do Antigo Regime e a afirmação
de um ideário revolucionário liberal
O anticlericalismo tornou-se, indiscutivelmente,
num dos traços
comuns dessa
geração intelectual
e militante