
Apesar de tudo, continuo a louvar a tua criação, Deus!
Hoje ainda: Miguel Ângelo e Leonardo. Também eles estão na minha vida, povoam-na. Dostoiévski e Rilke e Santo Agostinho. E os Evangelistas. Ando mesmo muitíssimo bem acompanhada. E deixou de ter a ver com o “esteticismo” de outrora. Qualquer um deles tem verdadeiramente algo a dizer-me, e que me toca. Houve algumas coisas de Miguel Ângelo que, inesperadamente, me fizeram ficar com um nó na garganta e me provocaram uma sincera e violenta emoção.
“As pessoas renderam-se desmedidamente às suas aflições, até se destruírem.” – Esta tornou-se realmente uma frase lendária. Destas já não há mais. Nos meus dias mais cansativos e mais tristes, já não me deixo ir tão abaixo. A vida é uma corrente contínua e inalterável, talvez um pouco mais lenta nestes dias e encontrando mais resistência, porém ela continua a correr. Não posso igualmente dizer de mim própria como antigamente: “Sou tão infeliz, não sei mais o que fazer.” Isto tornou-se-me completamente alheio. Antigamente, tinha realmente a pretensão de me considerar o ser mais infeliz deste mundo.
Por vezes é quase impossível aceitar e entender, Deus, o que as tuas imagens e semelhanças, neste mundo, andam a fazer umas às outras nestes tempos de excessos. Contudo, não é por causa disso que me fecho no meu quarto, Deus, eu enfrento tudo e não quero fugir de nada e, quanto aos maiores crimes, tento entendê-los e analisá-los um pouco. E tento rastrear continuamente o nu e pequeno indivíduo que frequentemente não é fácil de reconhecer pelo meio das ruínas monstruosas dos seus actos sem sentido. Eu não estou para aqui instalada num quarto sossegado com flores, mergulhada em poetas e pensadores e louvando a Deus, isso seria bastante fácil; e também não creio ser tão “ingénua”, como os meus bons amigos dizem de mim, enternecidos. Cada pessoa tem a sua realidade própria, eu sei, porém não sou nenhuma fantasista sonhadora, Deus, nem uma “alma bela”, ainda um tanto adolescente (do meu “romance”, disse Werner: “De uma Alma Bela para uma Grande Alma”). Eu encaro o teu mundo olhos nos olhos, Deus, e não me refugio da realidade em sonhos belos – estou convencida de que há espaço para sonhos formosos, em paralelo à realidade mais cruel – e, apesar de tudo, continuo a louvar a tua criação, Deus!
Etty Hillesum
in Diário (1941-1943)
24.09.2008
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