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Etty, a rapariga que aprendeu a ajoelhar-se

1.

Etty. Etty Hillesum. Holandesa. Nasceu em Middelburg, na Zelândia, a 15 de Janeiro de 1914, no ano em que começou uma guerra enorme. Morreu em Auschwitz, a 30 de Novembro de 1943, quando começava o princípio do fim de outra guerra ainda mais enorme. Pouco antes de fazer 30 anos. Não chegou a viver três meses no campo para onde a levaram a 7 de Setembro. Muitas vezes o tinha profetizado. Antes dela, morreram os pais, ou durante a viagem, ou conduzidos directamente à câmara de gás quando chegaram. Mikael (Mischa) o irmão mais novo, que era pianista, gostava de Schubert e de Mozart, por lá ficou também a 31 de Março de 1944, aos 24 anos. Um outro irmão morreu em Abril de 1945, em Bergen-Belsen. Uma das muitas famílias judias inteiramente exterminadas pela "solução final".

Durante cerca de quarenta anos, não se falou dela. Até que foi encontrado o Diário de Etty, escrito entre 1941 e 1943. Publicado em 1981, o livro celebrizou a autora, no país natal. Começaram as traduções. Em 2006, como contei na crónica Carta a Amigos Distantes (21 de Maio de 2006, faz agora dois anos) um desses amigos escreveu-me de Torre de D. Chama (Mirandela) e falou-me dela e, pela primeira vez, dela ouvi falar. "Deixo-lhe a curiosidade de a conhecer e a fascinação do encontro. Esta rapariga holandesa é uma Mulher de Deus (...)". Pedia-me que convencesse o Padre Tolentino de Mendonça a publicá-la na colecção "Teofanias" da Assírio & Alvim, onde já tinham aparecido Simone Weil e Cristina Campo, a quem tanto a associaram.

Não foi preciso. A Assírio já havia comprado os direitos e já estavam a traduzir o livro. Mas, como este nunca mais aparecia, quando, em Abril, em Paris, encontrei o Diário já em "livre de poche", nas "Éditions du Seuil", não resisti mais e comprei-o. Os franceses chamaram-lhe Une vie bouleversée. Chegado a Lisboa, soube que o Padre Tolentino já apresentara na Alvim a edição portuguesa, simplesmente chamada Diário, que logo me mandaram. Li e reli as duas versões. Etty Hillesum entrou na minha vida, com a sua "fé apátrida, talhante e errante", como tão bem ma descrevera o meu amigo de Torre de D. Chama. Posso sempre enganar-me, mas, segundo todas as probabilidades, este é o livro mais importante que apareceu em português em 2008.
Como falar dele? Decidi fazê-lo em duas crónicas. Nesta, só Etty falará, pois me limitarei a transcrever alguns excertos do Diário, misturando as duas traduções. Para a semana, conversaremos. Achei, como o meu citado interlocutor, que assim a "fascinação do encontro" podia ser maior. Na edição portuguesa, o texto de Etty (diminutivo de Esther) é precedido por um luminoso prefácio do Pe. Tolentino de Mendonça.

Agora, a palavra a Etty Hillesum, nas línguas pelas quais lhe pude aceder. O Diário começa a 9 de Março de 1941 e acaba a 13 de Outubro de 1942.

 

2.
"Como uma melodia, o mundo rola das mãos de Deus". Estes versos de Verwey [Albert Verwey (1865-1937) poeta holandês, amigo de Stefan George] não me saíram da cabeça todo o dia. Quem me dera "rolar melodicamente das mãos de Deus".


3.
"Devia bastar que houvesse um só homem digno desse nome, para se acreditar na humanidade ( ... ) Mesmo que houvesse um só alemão decente, por causa dele perdias o direito a odiar um povo inteiro ( ... ) O ódio indiferenciado é a pior coisa que existe. É uma doença da alma".


4.
"Aprendi hoje algo de essencial. Quando achava bonita uma flor, o que eu mais desejava era apertá-la contra o peito ou comê-la. Era mais difícil com uma bonita paisagem, mas o sentimento era o mesmo. Eu era sensual demais, demasiado "possessiva". Tudo o que me parecia bonito queria-o de forma exageradamente física, queria possuí-lo. Por isso tinha sempre uma dolorosa sensação de desejo que nunca podia ser satisfeita, uma nostálgica aspiração a qualquer coisa que me parecia inacessível, a que eu chamava "instinto criador" (...) De repente, tudo mudou (...) Verifiquei com alegria que o mundo que Deus criou continua belo (...) Como sempre, esta paisagem silenciosa, tão misteriosa à hora do crepúsculo, deu-me sentimentos tão fortes como dantes, mas vi-a, digamos assim, "objectivamente". Já não a queria "possuir", já não me sentia incitada ao onanismo".


5.
"Creio que vou ser capaz. De manhã, antes de começar a trabalhar, passar meia hora a ouvir-me a mim própria, a voltar-me "para dentro". "Submergir-me". Também podia dizer: meditar. Mas esse verbo ainda me assusta um bocado (...) Uma "hora silenciosa" não é fácil de conseguir. Tem que se aprender a consegui-la (...) O objectivo da meditação é, cá dentro, uma pessoa transformar-se numa planície grande e vasta, sem o matagal manhoso que não nos deixa ver. Deixar entrar um pouco de "Deus" em nós, como existe um pouco de "Deus" na Nona de Beethoven".


6.
"Mais prisões outra vez. Outra vez o terror, os campos de concentração, pais, irmãs e irmãos arbitrariamente arrancados dos seus. Uma pessoa procura o sentido da vida e pergunta-se mesmo se ela terá algum sentido. Mas isso é coisa que temos de decidir sózinhos e com Deus. Talvez cada vida tenha um sentido próprio e seja precisa a vida inteira para o encontrar".


7.
"Tudo é coincidência ou nada é coincidência. Se eu acreditasse na primeira hipótese, não conseguia viver. Mas ainda não estou convencida da segunda".


8.
"Enorme agitação. Agitação bizarra, diabólica, que talvez fosse produtiva se a soubesse utilizar. Uma agitação "criadora". Nada a ver com agitações do corpo, nem uma dúzia de noites de amor tórrido a conseguiriam pacificar. É uma agitação quase "sagrada". Oh Deus, toma-me na Tua grande mão e torna-me Teu instrumento, faz-me escrever".


9.
"É difícil estar ao mesmo tempo de bem com Deus e com o baixo-ventre".

10.
"As minhas ideias continuam a parecer roupas largas demais, penduradas à volta do meu corpo. O corpo ainda vai crescer, mas os vestidos continuam a ser tamanhões".


11.
"Um poema de Rilke é tão real e tão importante como um rapaz que cai de um avião. Que isto fique bem claro".

12.
"Dentro de mim, há um poço fundíssimo. Lá dentro está Deus. Às vezes consigo lá chegar. Mas o mais frequente é o poço estar cheio de pedra e cascalho e Deus soterrado. Então é preciso desenterrá-lO".


13.
"Senhor, dá-me sabedoria e não conhecimentos. Ou dá-me conhecimentos que levem à sabedoria".

14.
"Pôr a cabeça no ar é possível. Mas pôr o ar na cabeça já não é".

15.
"Procurar em algumas palavras o abrigo para aquilo que há em mim. Mas ainda não há palavras que me queiram abrigar".

16.
"Medo da vida a todo o comprimento".

17.
"A rapariga que não conseguia ajoelhar-se e que afinal aprendeu a fazê-lo no tapete áspero de fibra de coco de uma casa de banho desarrumada. Mas estas coisas são ainda mais íntimas do que as coisas sexuais".


18.
"Meu Deus, pega-me pela mão. (...) Gosto de me sentir abrigada e segura, mas se for deixada ao relento, aceitá-lo-ei, se for a Tua mão que me deixar. Hei-de acompanhar-Te sempre guiada pela Tua mão e tentarei não ter medo".


19.
"Ontem à noite, pouco antes de me ir deitar, dei por mim, de repente, ajoelhada na alcatifa, no meio desta grande sala, entre as cadeiras de metal. Assim. Sem mais nem menos. Puxada para o chão por algo mais forte do que eu. Faz tempo, tinha dito de mim para mim: "Vou ver se consigo ajoelhar-me". Tinha ainda muita vergonha desse gesto tão íntimo como os gestos do amor, todos gestos de que ninguém consegue falar. A não ser um poeta (...) A força criadora é, afinal de contas, uma parte de Deus. As pessoas precisam é de ter a coragem de o dizer (...). Estas palavras acompanharam-me semanas a fio. É preciso é ter a coragem de o dizer. A coragem de pronunciar o nome de Deus".


20.
"A mãe que, a certa altura, disse: "Pois é. Na verdade sou religiosa". A Tia Piet disse há dias quase o mesmo, aqui em frente da lareira: "Na verdade sou religiosa". O cerne está nesse "na verdade" (...) O que querem elas dizer com esse "na verdade""?

21.
""Mas o que é que acontece às pessoas para quererem destruir os outros?" perguntou-me Jan amargurado. Disse-lhe: "As pessoas, pois, as pessoas. Mas lembra-te que tu também és uma delas (...) A maldade dos outros também está dentro de nós (...) Não acredito que se possa melhorar alguma coisa no mundo exterior se não começamos por nos melhorar a nós. Essa parece-me ser a única lição desta guerra. Aprender a procurá-lo dentro de nós e em mais parte nenhuma"".


22.
"Quando uma pessoa tem vida interior, talvez não haja uma diferença tão grande como tudo isso entre estar fora ou dentro dos muros de um campo. Será que conseguirei justificar estas palavras, mais tarde, a mim própria? Será que as conseguirei pôr em prática? Não devemos ter ilusões. A vida vai ser muito dura. Hão-de nos separar, hão-de me separar de todos os que me são queridos. Creio que esse tempo já nem está muito distante".


23.
"Às vezes é quase impossível aceitar e entender, Deus, o que as Tuas imagens e semelhanças andam a fazer umas às outras, neste mundo e neste tempo de excessos (...) Mas eu encaro o Teu mundo olhos nos olhos, Deus, e não me refugio em sonhos belos (...) Apesar de tudo, continuo a louvar a Tua criação, Deus!"


24.
"Não é Deus que nos deve explicações. Nós é que lhas devemos a Ele. Sei o que ainda nos pode esperar (...) Deus não nos deve explicações pelas coisas sem sentido que fazemos. Somos nós quem tem que dar explicações. Já morri mil mortes em mil campos de concentração, sei de tudo, nada novo me pode angustiar. De uma forma ou de outra, sei de tudo. Mas porém acho que esta vida é bela e plena de sentido. A cada instante."


25.
"E eu creio em Deus, mesmo quando daqui a pouco os piolhos me devorarem na Polónia".

26.
"Quando hoje caminhava pelos corredores a abarrotar, senti, de repente, uma enorme necessidade de me ajoelhar ali, no chão de pedra, no meio de toda a gente. O único gesto de dignidade humana que ainda nos resta neste tempo, é ajoelhar perante Deus".


27.
"E se Deus não me ajudar mais, nesse caso hei-de eu ajudar Deus".

 

Artigo relacionado

O Diário de Etty Hillesum (Introdução)

João Bénard da Costa

in Público, 25.05.2008

27.05.2008

 

 

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Capa do livro

Diário

Autora
Etty Hillesum

Editora
Assírio & Alvim

Páginas
342

Data
2008

Preço
€ 19,80

ISBN
978-972-37-1274-2

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