
Diário de uma Mulher Católica a Caminho da Descrença
A partir de entrevista realizada por António Marujo, Laura Ferreira dos Santos, autora de dois volumes do Diário de uma Mulher Católica a Caminho da Descrença, conta como escreve este diário singular na literatura portuguesa, as suas distâncias e proximidades com o catolicismo e a fé. E fala ainda dos cuidados paliativos e da morte assistida.
Já há muitos anos que escrevo. Neste segundo volume, de vez em quando há extractos de diários antigos. Escrevi sempre porque tinha vários problemas para resolver e porque a escrita foi sempre a melhor maneira de pensar sobre eles.
Há uma canção de Leonard Cohen, que diz mais ou menos: "Toca os sinos que ainda podes trocar,/ larga a tua oferta perfeita,/ em todas as coisas há uma fissura/ e é por aí que a luz entra." Desde que a ouvi, andei sempre à procura dessa luz, não só em circunstâncias de sofrimento, mas também em ocasiões mais favoráveis.
É uma escrita contra os afectos tristes, como diria Deleuze, mas também em busca da alegria possível. Este segundo diário coincide com o meu primeiro cancro, que perpassa pelo texto, tal como a doença e a morte da minha mãe, porque foram cancros em simultâneo. A ideia não é fixar-me aí, é ir passando pela vida, pensando sobre ela. E tentando encontrar soluções para poder continuar... a resistir.
Preciso de escrever para continuar a viver e por isso é que os diários continuam, há mais textos no meu computador. Se agora fôssemos editar o diário correspondente a 2007, veríamos diferenças em relação ao Diário II, não obstante a coincidência estranha de este sair numa altura em que eu tenho recidiva de cancro. A parte final do Diário II indica um caminho que se foi consolidando ao longo dos outros: já não tenho as dúvidas de religião que expressei no Diário I.
O cristianismo sacrificial
Sinto-me mais próxima de Cristo porque os evangelhos sempre tiveram uma grande importância para mim. Vejo, até certo ponto, que não posso ir plenamente a Cristo se não vou pela Igreja. A convicção na existência de Deus reforçou-se, mas serei uma católica nas margens. Algumas pessoas poderão considerar-me pouco ortodoxa. Digo sempre que estou à procura de uma ortodoxia maior. Quando discordo de algumas posições do Vaticano, por exemplo em relação à morte assistida, é em busca de uma ortodoxia maior. Essa ortodoxia que dizem que me falta, considero-a uma ortodoxia menor. À imagem do que Santo Agostinho dizia, sobre a procura de um Deus maior.
Para mim, é importante a luta contra um determinado cristianismo sacrificial, que insiste na ideia de que, a quem te bate numa face, deves oferecer-lhe a outra. Respirei de alívio quando uma psicanalista francesa, lendo o original, afirmou que se devia interpretar de outro modo: "A quem te bate numa face, mostra-lhe um outro caminho". O cristianismo sacrificial não nos ajuda a mudar o mundo; pelo contrario, a sensibilidade ao sofrimento, tão típica de Cristo, torna o cristianismo uma grande energia crítica e emancipatória. Se queremos um exemplo de hospitalidade contrário aos ventos neo-liberais dos nossos tempos, bem podemos encontrá-lo na parábola do bom samaritano.
Houve uma época em que eu não conseguia largar a Subida do Monte Carmelo, de S. João da Cruz. Ele surgiu porque eu precisava de me entender. A "noite do espírito" correspondia muito ao que eu sentia. Teresa de Lisieux apareceu porque era uma personagem que me intrigava. Quando li as Obras Completas, vi que ela não era uma jovem um bocado pueril e aparentemente sem grande profundidade, mas uma rapariga que, não obstante ter morrido cedo, aprofundou muito o cristianismo. É notável a sua luta contra uma espécie de descrença, mas ela continua com fé. Antes disso, o Diário Íntimo de Unamuno marcara-me muito.
As teologias feministas
Lembro-me de uma entrevista com o padre João Resina, na Pública, em que ele dizia que se fosse engenheiro e a Igreja uma fábrica, ele saía; mas como nem a Igreja é uma fábrica nem ele um engenheiro, permanecia. Como também tenho sentido essa impossibilidade de sair da Igreja, mas como a vivência dentro da mesma Igreja também não me é fácil, o diário serve também para pensar.
Nietzsche foi o filósofo que mais se debateu com o cristianismo. Eu andava na Faculdade de Filosofia quando aderi ao cristianismo e quis confrontar-me com Nietzsche, para ver que razões ele tinha de queixa do cristianismo e ver se o conseguia salvar para o meu lado. E também tinha uma certa paixão pela maneira como ele escreve: simples, mas complexa.
Escrevo o diário quase constantemente a ouvir música. Como se a música trouxesse ao de cima aquilo que noutras circunstâncias a pessoa não conseguiria trazer ao de cima. Bach interessou-me não só pelo agrado que musicalmente me provoca, mas também pelo significado de muitas das letras das cantatas, que me dizem muito. Lembro-me da "última luz, irrompe, vem buscar-me", referindo-se à morte. Ainda por cima, é cantado de forma muito harmoniosa, muito bela, isso diz-me muito.
A minha ideia é continuar a publicar o diário. Ele já existe no computador, em 700 ou mil páginas escritas. O diário faz parte da minha vida, é essa arma de resistência e de reflexão. O religioso é uma dimensão que abrange toda a pessoa, não é possível abstrair o que é religioso como se fosse um produto quimicamente puro. O diário serve também, ou sobretudo, para pensar toda a realidade em função disso.
Em dada altura, decidi deixar de ir à missa. Isso coincidiu com um período de maior afastamento da Igreja, quando descobri a teologia feminista. Eu já sabia que as religiões eram todas basicamente androcêntricas, mas não tinha a ideia de que o cristianismo o fosse assim tanto. A influência que o androcentrismo tem no cristianismo - os grandes patriarcas, a liturgia que só pode ser celebrada por homens, a pintura ocidental que mostra, por exemplo, Deus como um senhor de idade a criar um outro homem - das mulheres não reza a história. As mulheres não são dignas de tocar determinados instrumentos.
Há passagens de um outro livro que escrevi, Alteridades Feridas - Algumas Leituras Feministas do Cristianismo e da Filosofia, que começam no diário e depois passam para textos académicos, nos quais continuo a pensar sobre os problemas que tenho - ou me apaixono por aquilo que estou a fazer ou aquilo me diz alguma coisa, ou não consigo fazer.
Esse livro diz-me muito. As questões sobre a invisibilidade das mulheres, do seu «disempowerment» e do roubo das mulheres quase que brotaram no diário. A questão do roubo já li há muitos anos no Deleuze e outros autores e em que eles dizem qual a principal diferença entre meninos e meninas: muito antes deles, elas são roubadas duma série de potencialidades de desenvolvimento pessoal e social.
Os cuidados paliativos
Não é a morte que me assusta. Acredito que há uma vida para além desta. Nunca me esqueci de um texto dos Irmãos Karamazov, quando um deles pergunta: "Achas mesmo que um dia nos vamos ver todos outra vez?" E o irmão diz simplesmente: "Sim". Quando li isto, veio-me uma lágrima aos olhos. Não é a morte em si que me preocupa. É antes o filme de terror que pode ser, para uma pessoa, a sua despedida desta vida. E não me parece nada que Cristo pretendesse que essa passagem tivesse de ser tão difícil, que as pessoas tenham de sair desta vida numa tão grande agonia.
A morte é uma questão importante para ser decidida. Não gosto de utilizar o termo eutanásia, pois os nazis tinham um programa de eutanásia, que era de extermínio, que não tem nada que ver com um pedido deliberado da pessoa. Morte assistida e cuidados paliativos não se devem opor.
É possível usufruir dos cuidados paliativos enquanto as pessoas acham que vale a pena mas, quando acharem que a situação já é de terror - como aconteceu em França, com Chantal Sébire - devem poder acabar com a vida, acompanhadas dos amigos... Às vezes há uma celebração litúrgica e depois as pessoas recolhem aos seus aposentos e morrem, junto dos mais próximos.
Precisamos imenso de cuidados paliativos. É uma vergonha Portugal ter tão poucos cuidados paliativos. Muitas vezes, as pessoas ligadas aos cuidados paliativos não admitem colocar outras hipóteses. Chantal Sébire morreu na clandestinidade em França e, no mesmo dia, o Hugo Klaus, o escritor belga, morre legalmente.
O que me faz confusão é que haja tanto pessoal de saúde que é a favor da vida mas que depois se esqueça que essa vida é encarnada em pessoas. No Norte, é muito habitual os médicos tratarem as pessoas, sobretudo se são pouco favorecidas economicamente, por tu. Parece-me que isso é um grande desrespeito pela vida daquelas pessoas. Ao não cumprimentar sequer as pessoas que entram num consultório, isso é um grande desrespeito pela vida. Não quero dizer que não haja muitos profissionais de saúde que não sejam humanamente bons.
O encontro com Deus
Gosto muito daqueles coloridos pós-pôr do sol. Espero que o meu encontro com Deus seja também num ambiente desses, que é mais apaziguador, mais belo. Tenho a sensação que só nessa altura, como se diz na Bíblia, todas as lágrimas do nosso rosto serão enxugadas e todas as dúvidas que temos e não conseguimos resolver racionalmente serão resolvidas.
Imagino Deus sobretudo como uma força extremamente acolhedora, como uma energia extremamente acolhedora, um ser de tão grande beleza e bondade que é impossível uma pessoa não se sentir atraída por ele ou não querer imediatamente abraçá-la. A minha ideia do outro lado é que simplesmente vamo-nos abraçar imediatamente e dizer: "Finalmente!"
António Marujo
in Público, 05.05.2008
06.05.2008
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Diário de uma Mulher Católica a Caminho da Descrença II
Autor
Laura Ferreira dos Santos
Editora
Angelus Novus
Páginas
204
Preço
€ 11,00
€ 10,00 («online)
ISBN
978-972-8827-42-7
