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Evocação

S. Martinho de Dume: A conversão dos suevos e o monaquismo

A Arquidiocese de Braga celebra hoje, 22 de Outubro, a solenidade do seu Padroeiro principal, S. Martinho de Dume (c. 520-579). Ocasião para uma breve evocação da acção do bispo de Braga na conversão dos suevos e no monaquismo peninsular.

 

A conversão dos suevos

Os suevos, chegados à Galécia em 409, tinham-se instalado, em geral, em ambientes menos atingidos pela romanização, o que lhes facilitou a preservação da sua identidade e atrasou a fusão com os hispano-romanos. Em meados do século V, converteram-se ao catolicismo ao tempo da proclamação de Requiário como rei. A sua morte, devido à pregação do bispo Ajax, vindo da Gália, e com a conivência de Potâmio, bispo de Braga, o Noroeste Peninsular, a braços ainda com os estragos causados pelo priscilianismo, deixou-se enredar pelo arianismo.

Ao tempo da chegada de Martinho à Galécia, o priscilianismo ainda estava impregnado no povo, O I Concílio de Braga assestou-lhe, contudo, um golpe decisivo. Devido aos compromissos religiosos assumidos por ocasião da doença do seu filho Miro; ou para consolidar, pela via da unidade religiosa, a coesão do seu Reino; ou para conseguir da Gália católica uma ajuda na defesa contra os visigodos arianos; ou por convicção; ou, em parte, por cada uma destas causas, o rei Carrarico, quando Martinho chegou à Galécia, dispunha-se à conversão ao catolicismo. Após a decisão real, a pregação de Martinho, que tinha acesso à corte, e a força das suas convicções e do seu exemplo repuseram no rei e também, paulatinamente, nos seus vassalos a pureza da fé católica. A conversão do povo parece ser já uma realidade no tempo de Teodomiro.

Foi Martinho quem devolveu a alma católica ao povo. Por ele os suevos recuperaram, na sua integridade, o humanismo cristão, que continuou assim a marcar o modo de estar dos indivíduos e as linhas mestras da sociedade. Pelo que se pode deduzir do teor da generalidade das suas obras, Martinho parece ter concebido um plano de conversão ou de reconversão dos pagãos, começando gradualmente pelas exigências naturais, para só depois chegar ao específico cristão. E tudo isto enquadrado num plano generoso e abrangente. A sua acção missionária visava o rei e a sua corte, o povo, o clero e os monges. Com efeito, é visível nas suas obras a preocupação pela continuada catequização do povo, por exemplo, mediante o cuidado na frequência e conteúdo das visitas dos bispos às suas Igrejas; ou, também, pelas diferentes medidas que incentivava de revitalização do clero e de renovação e desdobramento das estruturas de acção pastoral.

Tão intensa foi a sua acção apostólica que, alguns anos depois, no II Concílio de Braga, Martinho podia dizer que «pela graça de Cristo, nesta Província, nada é duvidoso acerca da unidade e da rectidão da fé». Pode afirmar-se que, de algum modo, Martinho foi para as Igrejas da Galécia e da Lusitânia o que, umas décadas mais tarde, foi para a Bética Isidoro de Sevilha. E chamado, por isso, com razão, catequista do palácio e apóstolo dos suevos.

 

O Monaquismo

O monaquismo peninsular, e mormente o do Noroeste, distingue-se nitidamente do Ocidental. Tem as marcas de um espírito local, com arraigo nas suas próprias tradições. Chega, por isso, a merecer a designação específica de monaquismo visigótico ou hispânico.

A Regra Benedítína, inicialmente, entra pouco ou nada na Galécia. O monaquismo dos primeiros séculos nesta região, em muitos casos, aparece desacreditado ou objecto de desconfiança, devido ao rigoroso ascetismo dos priscilianistas com quem às vezes se confundia. Estes, além dos seus exageros ou erros, mantiveram uma relação difícil com a hierarquia que chegou quase a pôr em causa a sua subsistência. Esta era a situação da vida monacal na Galécia quando entra em cena Martinho de Dume.

Não se sabe ao certo onde e quando se fez monge. Mas já era esta a sua condição quando chegou à Península. Não obstante o seu estatuto monacal e o seu carisma de fundador, não escreveu uma Regra para o seu mosteiro e nos seus escritos parece estar mais preocupado com a formação do povo. Não confunde, contudo, o exigido aos monges com o que se espera do comum dos cristãos. As Sentenças dos Padres do Egipto e o Liber Geronticon. De octo princípalibus uitiis, que Pascásio traduziu por indicação sua, serviram certamente para a formação dos monges, mas não podem considerar-se uma Regra.

O seu estilo é o de um monge de tipo oriental a viver no Ocidente. Os referenciais mais relevantes seriam as grandes figuras dos Padres dos desertos do Próximo Oriente, sem esquecer a idiossincrasia da população do seu mosteiro e o ambiente em que se situa. O ideal do monge consiste em alcançar a absoluta indiferença diante das coisas deste mundo. Para isso, conta com a penitência e o exame de consciência para recordar os pecados e chorá-los. O jejum, o trabalho, unido à obediência, fazem parte da penitência. O trabalho implica também o apreço pelo estudo. E isto num clima de silêncio, de meditação, de oração e a caridade como alma de tudo. Assim se entende que os mosteiros fossem luminares para os eclesiásticos e para o povo, ao mesmo tempo que ajuda para os pobres.

”Propagador da espiritualidade egípcia, escreve Matoso, seguidor de S. Martinho de Tours na conciliação da disciplina monástica com o serviço pastoral da comunidade, convivendo em boas relações com os monges celtas e até aceitando, pelo menos algumas das suas instituições mais típicas, S. Martinho é, portanto, um excelente conciliador” (350). Assume-se a proximidade de Martinho ao monaquismo egípcio. Mas isto não era uma novidade absoluta no Ocidente: estava já um pouco por todo lado. Não terá pesado muito nele o monaquismo norte-africano, que tinha como referência tutelar Agostinho. Ao invés, Martinho terá conciliado o seu monaquismo com as experiências eremíticas e cenobíticas do Norte de Itália que se personificavam em Martinho de Tours. Esta corrente juntava duas características: a evangelização dos pagi e a cooperação dos monges e dos clérigos. Poderia ainda acrescentar-se a este somatório de elementos o monaquismo celta, com origem nas Ilhas Britânicas, já presente na Galécia, mas sem se confundir com os priscilianistas. O monaquismo celta, na sua concepção, sobrepunha a organização e o estilo monástico à normal estrutura eclesial. Dominava o abade, que também podia ser bispo, ou era superior a este. Isto pode ajudar a entender a própria situação de Martinho, abade-bispo.

O monaquismo que Martinho cultivou em Dume e a partir de Dume aparece assim como uma conciliação de todos estes elementos, conjugados com o bom senso, de que faz gala nas suas obras, e robustecido pelo vigor da sua própria vida cristã. Martinho pode, pois, ser considerado o restaurador do monaquismo no Noroeste Peninsular.

 

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22.10.2008

 

 

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