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São Paulo, por Teixeira de Pascoaes

Paulo e os seus companheiros habitam a casa de Lídia, a pouca distância do oratório judaico, improvisado à beira do rio Gangites. Vão lá, todos os sábados. É um passeio, ao longo da via egnaciana, que separa a baixa da alta da cidade e serpeia depois, entre pomares e jardins, antes de se internar na solidão dos montes, em curvas fugitivas, ou em rectas paradas, nas planuras.

Paulo aproveita o local e o momento, para falar. O seu fim é recriar o homem na justiça e na santidade da Verdade, à imagem e semelhança de Jesus. O homem, criado à imagem de Deus, tem de ser recriado à imagem de Jesus. É a vitória o Filho sobre o Pai, a vitória de Jesus, o deus da paixão de Paulo.

Um belo dia, os quatro apóstolos dirigiam-se da casa de Lídia para as margens do Gangites quando uma jovenm escrava pitonisa lhes empece, no meio da estrada. Encara-os, surpreendida, como sob o domínio de súbita revelação interior. A jovem escrava reconhece-os (a escrava e não a pitonisa) e grita, num acesso de profético furor: estes homens são enviados de Deus! E mostram-nos o caminho da salvação!

Adivinhou-os a sua dor de escrava. Foram as lágrimas dos seus olhos que os viram, que viram a Verdade, porque a dor é o espírito da Píton e dá-nos o dom da Profecia.

Sempre que os topava, na estrada, acompanhava-os, muito exaltada, repetindo as mesmas palavras: São enviados de Deus! São enviados de Deus! Paulo falou-lhe e serenou-a. A escrava fez-se cristã e deixou de profetizar, com grave prejuízo do seu amo, que explorava, é claro, a desgraçada. O amo vinga-se de Paulo e Silas, apresentando-os à autoridade romana, como propagandistas de novas crenças religiosas e perturbadoras da ordem. Os dois são chamados à presença dos duúnviros de Filipo. Seguem-nos grupos de populares açulados, vociferando contra eles, até ao tribunal. Os duúnviros condenaram os apóstolos à bastonada, na praça pública. Belo espectáculo para a canalha, que berra e barafusta, mais encantada que furiosa. Depois de esfarrapados e sangrentos, meteram-nos no cárcere, onde os algemam e prendem a postes, por cadeias. Impossibilitados de passear, entre as quadro paredes de pedra, estão sentados na terra húmida, ou, de joelhos, orando e cantando hinos ao Senhor. Paulo, animado por ignoto sentimento de justiça, amava estes sofrimentos expiadores. Amava a cruz do remorso, onde Deus, na pessoa do Filho, expiara o Pecado criador. A Cruz e o Crucificado é que formam a pessoa do Filho e surgem, no alto do Calvário, como sinistra figuração de Deus, como o próprio Deus convertido num madeiro ensanguentado, abraçado a um corpo ensanguentado. Paulo, antes de tudo, é um trágico intérprete da Vida. A vida é crime, pecado, que só a morte redime e purifica. A vida apavora-o, e pede socorro à morte. Espera encontrar, na morte, a libertação do corpo ou da cruz, a ressurreição espiritual e perfeita, que não finda, identificação absoluta com Jesus. Mas, por enquanto, é o seu apóstolo, prisioneiro e coberto de feridas, no encantamento da dor expiadora; dívida que vai pagando, gota a gota, lágrima a lágrima, moedas que trocamos em alegria.

Súbito, um terramoto abala o cárcere, abrindo-lhes largas fendas, nas paredes, quebrando os grilhões dos condenados, que fogem, protegidos pela noite e pelo pânico. Paulo e Silas, impassíveis, continuam a rezar e a cantar. O aflito carcereiro, que os vê nesta sublime atitude. fica espantado, diante deles. E o terror aumenta o seu espanto e dilata-lhe os olhos como as trevas. Então reconhece os dois prisioneiros. Tocara-o a graça de Jesus. Desprende os apóstolos do potro e lava-lhes as chagas dos açoites. Passada a crise epiléptica da terra, o mal sagrado de Paulo e Dostoievski, porque esse mal é um superestado receptor da onda misteriosa do espírito; desvanecido o terramoto, o carcereiro, radiante, senta Paulo e Silas, à sua mesa, numa sala que lhe era destinada, no mesmo edifício da prisão. Mas os dois apóstolos não queriam permanecer encarcerados. Seria perder tempo precioso. Declaram-se cidadãos romanos. Os duúnviros mandam-nos soltar e apenas lhes pedem, por favor, que abandonem a cidade.

Paulo parte, acompanhado de Silas. Timóteo e Lucas, escapados ao castigo, menos notados certamente, demoram-se ainda, em Filipo.

Paulo diz adeus a Lídia. O seu destino é chegar e partir; aparecer num clarão matinal, como Jesus; desaparecer, como Cristo, num clarão do poente. A chegada é sempre de manhã, como a partida é sempre à tarde. Separa-se de Lídia, mas leva-a no pensamento, com os anjos. E não lhe deixa ainda Timóteo, a sua própria infância, o mais querido dos seus filhos? Em verdade, não houve separação; em verdade, ou noutro plano da existência, onde todas as almas se encontram, e onde é perfeita realidade o que é sonho, cá em baixo, como por exemplo, a Beleza ideal a que aspiramos.

Mas, numa estrada deste mundo, os dois apóstolos caminham, chaguentos ainda dos açoites. Passaram perto do Oratório, na margem do Gangites. Paulo baptizou Lídia naquela água... naquela água, não: em outra água, como na frase trágica de Heraclito.

Também passaram pela Memória de Octávio e pela sombra de Brutus, injuriando a Virtude. Aquele grito da desilusão ouve-se ainda, embora petrificado, no mármore da Memória; e repercute-se através do planeta, também petrificado em altos montes. Cada penedo tem uma expressão desiludida ou contraída até à máxima dureza, até ao pólo mais oposto à ilusão aérea e nebulosa.

A desilusão é um movimento no sentido da matéria, como a ilusão é um movimento no sentido espiritual. O Cosmos é Deus desiludido, em pleno Vácuo. A transição da ilusão para a desilusão marca a origem mortal das cousas: formas e formas tumulares. Por isso, o sentimento religioso é sempre uma tentativa de regresso à Ilusão divina originária, a antemanhã da Vida, em que se ouve apenas um canto de ave, no silêncio; o único silêncio que nos mostra o oiro de que é feito.

Os dois apóstolos continuam a marcha, pela via egnaciana, colando entre as ondas do Strimon e as ondulações do Pangeu, igualmente azuis, mas paradas no seu recorte inalterável. Paulo, como Silas, vai a pé, curvado, com os olhos inflamados de luz, e o fantasma de Estêvão, ao seu lado. Leva um fruto na mão, para o comer. Oferece-o ao primeiro mendigo. Nada lhe pertence da terra, porque a terra não lhe interessa. E só o que nos interessa nos pertence. A Terra é dos bichos, como a Lua é dos lunáticos. todos os tolos reinam naquelas planícies desertas, onde cai a sombra de altíssimas pirâmides, sem a mais leve mistura de claridade, dum negro absoluto e recortado, Lembra a sombra de Caronte, sobre a desvairada Antioquia. Também o céu é uma propriedade dos místicos; aquele céu azul em que certas almas se desdobram indefinidamente, numa ansiedade que é um bater de asas brancas, ascendendo para Deus.

Paulo é deste mundo interior que envolve o mundo e os outros mundos, e ninguém sabe onde ele acaba. Vê para dentro, ouve para dentro, pois, dentro de si, é que ele descobre tudo, - o Infinito. A nossa memória é universal, e excede o próprio Universo, quando aliada à fantasia criadora.

A via romana, sob os seus pés, confunde-se, de noite, com a Via Láctea. Não admira, que o Sol e a Terra fazem parte daquela mancha luminosa.

Uma jornada, e os dois apóstolos entram em Anfilopolis, por uma porta, e saem logo, por outra. À vista da baía do Strimon, atravessam a península Calcídica; embrenham-se no vale de Aretusa e passam pelo túmulo de Eurípedes. Vejo a sombra de Paulo pousar por instantes, naquele mármore, - o que nada significa, a não ser perante a luz e a opacidade da matéria. A opacidade rejeita a luz, que as cousas brutas são duma grande seriedade. Que absurdo o altar de pedra consagrado ao Riso pelos espartanos! Que absurdo aquele riso numa pedra, que é só tristeza, desilusão! E a caveira? Não me recordava da caveira, nem do seu riso espartano imitando lágrimas judaicas, ressequidas, apenas sal poído, a reluzir. Mas esse altar absurdo é o único monumento que resta, de pé, entre os escombros da cidade.

Numa região de lagos e oliveiras, árvores de secura, mirando-se nas águas, vendo a sua imagem matar a sede, longe delas, como nos acontece, tantas vezes, – encontram Apolónia, muito grega e devotada aos deuses mitológicos. Paulo não se demora. O que ele quer é chegar a Tessalonica, porto comercial movimentado e frequentado por várias gentes, vindas das costas mediterrâneas, semeadas de outros portos: ninhos e ninhos de asas brancas, que, ao findar o Inverno, singram as ondas azuis, alegremente.

Parte de Apolónia, sem olhar para trás, pela mesma estrada que vai dar a Roma, como todos os caminhos. Caminha, entre Silas e uma Sombra, que não deriva do seu corpo, mas do seu coração incandescente. É uma sombra viva, mais do que um ser animado, e bate-lhe o sol no rosto.

Caminham os três viadantes, no pó da estrada; e os seus vultos têm um novo relevo inconfundível. Radiantes, alumiam, pela primeira vez, as cousas que, tocadas dessa luz, se renovam como no próprio verbo de S. Paulo. Toda a alma que se renova, renova o mundo e o céu, porque ela é renovada por uma onda da Fonte original.

Paulo e Silas avistam, enfim, do alto duma colina, o panorama de Tessalonica. Dali, se descobrem também, para o sul, os cumes do Olimpo, mais eternos do que os deuses. Olhos oftálmicos do apóstolo viram neves e penedos. Que é dos teus olhos, Hesíodo, e das imagens divinas que neles pousaram, a viver? Agora, não há deuses: há Deus. O monte sagrado não é o Olimpo; mas o Calvário, com uma cruz negra e tinta de sangue. O teu idílio matutino, Hesíodo, converteu-se na tragédia pauliniana do Sol-posto, do Sol que morre para salvar todas as sombras. E a sua morte é o luar da Eternidade. As sombras parecem eternas, ao luar.

Os apóstolos entram na bela cidade marítima e ruidosa, cobertos ainda de silêncio campestre, poeira e verdes refluxos de folhagens. Montes e árvores transformaram-se em ruelas e casario até à beira da água, marcada por cais de pedra, onde acostam as naus, ingerindo e depondo homens e bichos, fardos e fardos brutos.

Paulo procura a morada de Jason, ainda seu parente. Este Jason (forma grega de Jesus) hospeda-o, em sua cada. Paulo aceita apenas um leito e um quarto. Alguns dias depois, recebe presentes e dinheiro de Lídia. A púrpura tendia-lhe bastante. É um tecido vermelho, precioso, que encanta os olhos dos romanos, como se fora a imagem viva do sangue. Pagavam-no por que preço!

Instalados em Tessalonica, Paulo e Silas visitam a sinagoga. Os judeus da Lei ou de lei, como sempre, não acreditam nas suas palavras. Para estes, o verdadeiro Messias não veio ainda. E, pobre dele, no dia em que vier! Será descrido também. Aparecer é um acto muito grave. Não há deus que se aguente no seu aparecimento, sem baixar ao nível inferior dum animal. Não é impunemente que o espírito se reveste de matéria. Põe a máscara, na cara, e já ninguém o toma a sério. Quem és tu? Um homem, como nós... Ver a face divina através da máscara humana, e a eterna aparição através da aparência transitória e a vida além da morte, que a vida é mais ampla do que a morte) amar até ser o amor, sofrer até ser a dor, dor e amor personificados em jesus, não é para criaturas fixadas e paradas em restritos conceitos da razão: é para as criaturas em perpétuo nascimento, para as almas em flor de doidos e poetas, e talvez para certos animais crepusculares, idealizados na penumbra, como um cão a uivar à Lua, transmigrando, nos seus uivos...

O judeu tradicionalista, agarrado aos preceitos imutáveis da Lei, com unhas de leão, repele as palavras do apóstolo. Mas os escravos ouvem-nas, comovidos, porque elas prometem o que eles sonham e principalmente porque sofrem. E sonham porque sofrem. O sonho é emanação do sofrimento, – a claridade da fogueira. Os fartos e satisfeitos são incapazes de sonhar. O ventre cheio deixa a cabeça vazia.

Mas há também os que sonham por natura. Felizes, é como se fossem desgraçados; fartos de tudo, é como se tudo lhes faltasse. E há os que morrem de fome, num banquete. E só estes conheceram a fome, na verdade.

Paulo está com os escravos e os famintos, contra as classes dominantes. O seu fim é criar uma sociedade religiosa, em que todos sejam irmãos em Jesus Cristo, o único senhor. Todos senhores no Senhor; e cada um no seu espírito liberto ou em Deus. Deus é Liberdade.

Paulo, expondo os princípios do seu Credo, combate, naturalmente, costumes e leis estabelecidos e vícios derivantes. À sensualidade desenfreada opõe a abstinência e a castidade; à avareza e à cobiça, o desprezo das riquezas; à vaidade a humildade e à crueldade a piedade. Sustentar os irmãos nestes preceitos, ou em luta vitoriosa contra os baixos instintos, era impor-lhes uma atitude violenta e dolorosa. É difícil harmonizar a alma e o corpo, agir como se pensa. É difícil; e a culpa não é do homem, que vive em dois mundos tão distintos! Como há-de ele repetir num, espiritualmente, o que pratica, materialmente, no outro? Mas o apóstolo necessita de conservar os seus irmãos dentro duma nova existência moral impecável, que resista às más influências do Passado e transfigure a Humanidade. Conserva-os, afirmando-lhes que será por pouco tempo: Cristo vem aí, não em pessoa humana, como outrora, mas em todo o seu esplendor e poder. Vem julgar os bons e os maus. Esperem, não desfaleçam!

E os irmãos esperavam o grande milagre. Esperavam os vivos e os mortos, quer dizer, os que morreram nessa crença, pois do nosso último pensamento é feita a outra vida. Todos se julgavam nas vésperas do terramoto universal. Essa época de frequentes tremores de terra, fomes e epidemias, facilitava a propagação de ideias apocalípticas. Um medo misterioso empalidecia as fisionomias, como o terror do Inferno, na Idade Média. Um cometa, o nascimento dum monstro, apavorava todo o Império. O romano era um ser agoirento e sinistro, um misto de ave nocturna e de rapina, mocho e águia. O mocho canta nos versos de Virgílio, como a águia pousa nos estandartes legionários. Não é o mocho ateniense, com a sua alma de cotovia e uma cara de espanto filosófico; é o mocho da meia-noite, anunciador de mortes e desgraças.

Paulo, em dados momentos, tomava este tom apocalíptico, de origem puramente hebraica, forjado e caldeado no orgulho, aceso e vingativo, duma raça oprimida, que explode em palavras destruidoras do Universo.

Começa a fazer adeptos, em Tessalonica. Sabemos o nome de alguns: Secundo, Caio, Aristarco. O primeiro e o último voltarão a aparecer, nesta narrativa, com sacos de esmolas às costas, destinados aos santos da igreja mãe. Mas jazem ocultos nos seus nomes opacos. Não saem deles para esta imagem, quase material, em que se tornam quase visíveis certos personagens de poemas e romances. São nomes abstractos, sinais mortos. Não participam do Verbo original.

Os judeus da sinagoga, indignados, recrutam ociosos e aventureiros que se prestam, em troca de moeda, a provocar desordens e motins. Rodeiam a casa de Jason, gritando e exigindo ao morador a entrega dos apóstolos. O parente de Paulo não cede. Os díscolos forçam as portas; mas não encontram a presa desejada. Vingam-se, levando Jason e outros fiéis à presença dos politarcas, governadores de Tessalonica. Encarcerados, são libertos no dia seguinte. Na mesma noite desse dia, Paulo e Silas puseram-se a caminho de Bereia, pequeno burgo, num contraforte do Olimpo maravilhoso, hoje mais ainda do que outrora. A Grécia antiga só existe actualmente, na verdade. É depois de haver caído em ruínas, que ela se ergue, refeita pela nossa fantasia, em toda a sua beleza imorredoura.

Mas os judeus de Tessalonica não arrefecem. Conhecedores do destino dos apóstolos, vão, como rafeiros, atrás deles. Correm a Bereia, insurrecionando a vadiagem. Paulo foge, novamente, mas sozinho, deixando Silas e Timóteo, que viera de Filipo, com Sopratos e outros irmãos. O ódio é contra ele, contra o maior. Foge, sozinho, batido da tempestade, que é o seu próprio génio sublime, enfurecendo o vulgo estúpido, levantando nuvens de pó. Enfurece os outros e tortura-o a ele, deslumbrando-o. Mas a sua tortura tem o perfil de Estêvão; e o seu deslumbramento o de Jesus. Estêvão e Jesus confundem-se no mesmo espectro divino. O sangue de Estêvão e do de Cristo manam-lhe da mesma ferida aberta no coração. A dor e o amor, no seu coração, dramaticamente se casaram; mas, ao longe, esfumam-se em idílio. Tudo é paraíso, ao longe, nesse horizonte de quimera, linha ideal marcando o fim da realidade. A labareda do inferno, de longe, é luar celeste. é a esperança a evolar-se da desesperança, a filha a nascer da mãe.

Paulo não desanima. Oprimem-no, mas não o vencem. Ferem-no, mas não o matam. É um ser fantástico, inatingível, um ser nocturno, que possue o poder nocturno de criar a luz. Sofre, para alumiar.

A vida de Paulo, como a vida das mães, é um perpétuo drama, para que existam novas almas. A nossa alma é gerada em outra, que nos ame e sofra por nossa causa. Paulo, amando os seus semelhantes e por eles padecendo, transfigura-os idealmente, converte-os em novas almas. A dor é que gera as almas, integrando-as na existência. É sob uma força angustiosa, condensadora, que um sonho se transforma num objecto dos sentidos, como este penedo ou aquela árvore. Paulo sofre, para que o seu sonho seja realidade. Sofre, resplandece! Mas há pessoas que não suportam a luz alheia e atiram pedras ao sol.

Lá vai, sozinho, batido da tempestade, perseguido por espectros: o ódio, o remorso e um vulto de mulher em delírio, que é a sua paixão por Jesus Cristo ou por todos os padecentes, outras tantas imagens dele mesmo. Ouve palavras que o injuriam, vê figuras de pesadelo que lhe mostram os dentes e as unhas, e sente inefável alegria. Sente-se viver em Jesus Cristo. É o amante nos seios da bem amada, que a sombra deste homem projecta-se nos caminhos da Grécia antiga e nas ruelas da Ávila medieva. Sofre, resplandece. Saltam-lhe as lágrimas dos olhos, abrasadas de alegria! A alegria alvora da sua angústia, dos últimos cumes da sua angústia, atormentados de subir. Mas deles, cresce um alvor espiritualizado, aurora espiritualizada, a graça de Deus, precursora do sol de Deus.

Caminha, sozinho, alegre e triste, envolto na sombra doirada do anjo negro, que lhe crava um espinho, na carne, em certas horas. Ele mesmo é o anjo do crepúsculo, voando entre a noite e o dia, nesse clarão da distância a arder. Este anjo é talvez a nossa fantasia, a repetir o nosso ser, em outro plano da existência, apenas pressentido. Somos nós, á nossa frente, livres, em demanda do futuro.

Paulo chega a Dium. Ali, embarca, para Atenas, que é a pátria da Razão, o poeta da Loucura. Ai das estátuas e dos templos! A terra sacra da Hélade vai tremer. A terra treme, quando é trilhada por fantasmas; mas fica indiferente, sob as patas dum mastodonte.

A nau corta as águas do golfo Térmico. Paulo, da amurada, avista, distraído, os grandes montes mitológicos: o Olimpo, o Ossa, o Pélion e outras alturas fabulosas, e , por isso mesmo, sempiternas. Agora, costeia a ilha Eubeia, e dobra o cabo Súnio, coroado por um templo branco em fundo azul. É quando, aos viajantes maravilhados, se desvenda o panorama ateniense. Lá está a Acrópole e a estátua enorme de Minerva. Vê-se, de bordo, a crista doirada do capacete e a ponta da lança doirada. Rebrilha, ao longe, aquela aresta de oiro cintilante. É a estrela do génio helénico, acendida na ponta duma lança, a defender, dos bárbaros, a terra sacra. Mas não a defende de Paulo, porque ele é o génio da loucura divina, que funde todas as estátuas.

O navio interna-se no golfo de Egina; e ancora no porto de Falero. Paulo desembarca, e entra sozinho em Atenas, irmã de Jerusalém; uma, em pedra negra; a outra em mármore branco. Esta brancura, trabalhada com a primeira e a última arte, bate-lhe nos olhos, luminosa de que prestígio! Um prestígio de nomes imortais! Basta o de Platão...

Paulo observa os templos, tão numerosos como as casas. Plutarco, diz, sorrindo, que, em Atenas, havia mais deuses do que homens. Deuses de mármore, inertes e impecáveis, distintos de certos deuses asiáticos, tocados dum sentido nocturno, em que germinam ideias novas de imortalidade e redenção.

Descobre as Propoleias, obra de Mnesiclés, a Vitória sem asas, para que não fugisse, voando, a fonte Clepsidra, a gruta de Pã, o Pártenon, centro das festas panateneias, obra única de Calicrate, Ictinus e Fídias; e o Erecteon, dentro do qual arde um lampadário de oiro, suspenso duma palmeira de bronze.

Todo o monte da Acrópole se cobre de templos, altares, estátuas e, entre elas, uma colossal de Minerva, que se vê do mar. Cá em baixo, aos pés da colina, o casario da cidade e outras estátuas, templos e ginásios, pórticos e teatros, como o de Baco, onde se representaram as tragédias de Ésquilo e Sófocles. A arte não seduz o apóstolo, que é o génio criador antes da criação, a poesia antes do verso, em relâmpagos. Alguém os ordenará, mas tarde, num completo sistema teológico. O frio cristaliza, é geométrico. As palavras de Paulo são ainda o vento a espalhar a semente, na terra: o vento e a chuva. Mas a seara não pertence a quem a semeia, pertence ao bicho que a rouba e come.

Decorridos alguns dias, ancora em Falero, uma nau, que lhe traz Timóteo. É uma figura evocada, que aparece; e, depois de aparecida, se conserva no mesmo ambiente em que fora recordada. Estas figuras estão, cá fora, diante de nós, como se as tivéssemos na memória. Saem-nos do íntimo para o ar do mundo, entram no domínio da realidade, mas não perdem a natureza ideal que lhes deu a nossa evocação. É um privilégio das criaturas perfeitas de corpo e alma.

Timóteo não se demora. Regressa a Tessalonica, onde ficara Silas, como Lucas, em Filipo. Paulo continua sozinho, (assim o quis) nessa Atenas, que foi o berço do sol, e é agora um túmulo vazio, ainda ilustre. Habita-o uma turba faladora e inteligente, mas céptica. Pessoas cultas ou intelectualmente definidas, paradas dentro de conceitos terminantes, já frias, boas para o sepulcro, passam pelo perfil de Paulo, incandescente, – uma labareda a iluminar estátuas. Divaga, nas ruas, observando a cidade, não os seus edifícios, mas os seus habitantes. Esses é que lhe interessam. Interessam-lhe as almas, como a um demónio. Frequenta a Ágora, cheia de ociosos letrados, que passeiam, discutindo as artes e as letras, por entre as estátuas de Aristagiton e Harmódio, Liucurgo, Píndaro e Demóstenes. insinua-se nos grupos tagarelas. Tem maneiras finas, sabe ser notado, com agrado. Provoca certas conversas habilmente. prepara o momento para falar de Cristo e da sua ressurreição. Não o entedem. Alguns imaginam que a palavra anastasis (ressurreição) é uma deusa e Cristo, o seu marido. Outros, ouvindo-o, afastam-se, gracejando ou indiferentes. Raros o escutam. Percebe a estranheza que produzem as suas palavras; mas não desanima. Confia em si próprio e no futuro. Sente-se na posse da Verdade. Tem o mundo nas mãos, quem estiver na posse da Verdade, ou quem souber dar forma definida a um desejo vago tornado universal.

Resolve discursar no Areópago, o mais antigo tribunal de Atenas, que absolvera Orestes, conforme a tragédia esquiliana e condenara Demóstenes. Paulo sobe os dezasseis degraus da escadaria, aberta na rocha, onde se vista, numa funda cavidade, o terrível Santuário das Euménides, as deusas mais íntimas do homem. Quando o apóstolo, no alto da colina consagrada a Marte, se volta para os ouvintes, descobre, num plano inferior, o panorama de Atenas; e, ao longe, o mar, montanhas e céu, da mesma cor azul.

Ei-lo, de pé, perante gente culta que estranha a sua figura miserável e sublime, ridícula e sublime. Se o ridículo está perto do sublime, é natural que se misturem e formem um rosto caprichoso e inverosímil, como o deste pobre judeu, que lembra o alforge dum mendigo, cheio de estrelas. É um rosto encovado e amarelo, - incandescente, - de místico espanhol. A Ibéria é outra Judeia, outro deserto febril, onde o esqueleto do Rocinante, feito de pedra do Sinai, domina toda a planura solitária. Dom Quixote é apenas um sonho do Rocinante, que a fome transformou em pesadelo ou fardo pesado.

Paulo principia o seu discurso, habilmente. Invoca, não um deus novo ou estrangeiro, mas o deus ignoto, a quem os próprios gregos erigem altares, á beira dos caminhos. Os gregos erigiam altares aos deuses ignotos, como boa e prudente precaução, não ficasse fora do seu culto algum deus irritado e despeitado. Mas não admira que, no tempo de Paulo, já houvesse altares dedicados a um deus ignoto, aquele deus único dos judeus da Diáspora ou o dos estóicos.

Esse deus que honrais sem o conhecer, é o deus que eu vos venho anunciar. É o deus criador de tudo, no qual somos e vivemos; um deus vivo que em nada se pode assemelhar à prata ou à pedra, a qualquer obra de arte trabalhada. E cita, a propósito, versos de Aratus e Cleanto. Os ouvintes estavam atentos, mas eram almas saciadas de literatura e filosofia, de frases feitas e consagradas na esgrima intelectual. O grego foi sempre um ginasta, hábil no jogo das atitudes e dos argumentos. Mostrava a mesma destreza, na Academia ou no Ginásio. Geómetra e escultor, estabeleceu, no tumulto das forças instintivas, um ponto fixo de partida para a conquista da realidade objectiva. Em volta da Acrópole inabalável, agitavam-se, cá em baixo, todos os credos políticos e sociais, desde a democracia ao comunismo, desde a liberdade à tirania. O esqueleto tem de ser uma coisa inanimada, a fim de poder suportar a vida.

É difícil imaginar aqueles ouvintes de S. Paulo, aquelas caras de literatos, fervidas e refervidas. E todavia, ainda existem, deterioradas pelo tempo. Lá estão, mortas, diante da figura viva do apóstolo. Que figura! O Sol da Hélade bate-lhe na calva queimada; e de pé, estendendo, para o auditório, a mão direita, pende-lhe, do braço, o manto salgado do mar e sujo da poeira das estradas.

O seu estilo bárbaro, incorrecto, os seus olhos oftálmicos, a sua aparência de judeu, causavam certos murmúrios de irónico desprezo. Ele era já a Fealdade, Goya depois de Rafael ou Cristo depois de Apolo.

Mas o pior é quando o apóstolo afirma a sua crença na morte e ressurreição de Jesus Cristo! Nessa altura, os ouvintes não resistem. Manifestam-se ruidosamente contra ele. Escarnecem-no e debandam, a rir. Paulo, só e escarnecido, desce a escada aberta no penedo, onde Marte fora julgado pelos seus irmãos em divindade, e ele, Paulo, apóstolo de Cristo, pelos pedantes de Atenas.

Ei-lo só e incompreendido, como Lucrécio. Sempre Paulo e Lucrécio! O cantor da vida e o da morte! O canto de Lucrécio é o grito supremo da Humanidade desiludida, mas doloroso que os de Dante, no seu Inferno, pois quem grita, nesse Inferno, é Dante. Os condenados são meras sombras do Poeta. Lucrécio encontra na desilusão a felicidade. Alcança tudo no regresso ao nada. No seu poema, já se adivinha o suicida. É a confissão dum doente incurável. Mas a palavra de Paulo é o canto da nova ilusão ou da esperança. É na sombra de Lucrécio que a alma de Paulo se ilumina. A crença nasce da descrença, como a ciência da ignorância e a luz da treva. Que é a treva senão a descrença na luz? A crença na luz é que alumia; e a esperança na salvação é que nos salva. Ser imortal é esperar a imortalidade. Esperar em Deus é ser com ele, em toda a sua glória, eternamente.

Se a presença de Deus se revela, de algum modo, é no sentimento da Esperança. É de todos os nossos sentimentos, o mais exterior a nós, o que de mais longe vem. E nada perde da sua frescura e limpidez, na infinita distância percorrida. Parece que o bebemos na prórpia fonte.

Teixeira de Pascoaes

in São Paulo (cap. IX), Assírio & Alvim

03.07.2008

 

 

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Capa do livro

São Paulo

Autor
Teixeira de Pascoaes

Editora
Assírio & Alvim

Páginas
318

Ano
2002 (2.ª ed.)

Preço
€ 20,25

ISBN
972-37-0684-9


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