Igreja precisa de linguagem mais «afetiva», «poética» e «estética»
A Igreja precisa de renovar a sua linguagem para se situar na sociedade secular, sublinha um artigo de capa da edição desta quarta-feira do jornal da Santa Sé, “L’Osservatore Romano”.
O assunto é abordado a propósito da próxima assembleia do Sínodo dos Bispos, dedicada ao tema “A nova evangelização para a transmissão da fé cristã”, que decorre de 7 a 28 de outubro no Vaticano.
O jornal cita o texto que os prelados vão debater na aula sinodal: «Temos (...) muitas vezes a impressão de não conseguirmos dar corpo (...) [à] esperança, de não conseguirmos “fazê-la nossa”, de não fazer dela palavra viva para nós e para os nossos contemporâneos, de não a assumir como fundamento das nossas ações pastorais e da nossa vida eclesial» (n. 166).
O artigo refere que instrumento de trabalho do sínodo realça a importância da conversão pessoal permanente e a seguir «sugere a necessidade de criar uma linguagem nova para comunicar o Evangelho ao mundo de hoje».
Não se trata de um «novo conteúdo mas um modo novo de exprimir a boa nova de Cristo num contexto social e cultural novo», observa o autor, Robert Imbelli.
«A Igreja sente como seu dever ser capaz de imaginar novos instrumentos e novas palavras para tornar audível e compreensível também nos novos desertos do mundo a palavra da fé que nos regenerou para a vida verdadeira em Deus», assinala o n. 8 do texto de trabalho do sínodo, citado pelo jornal.
O autor continua o artigo chamando a atenção para a obra “A Secular Age”, de 2007, assinada pelo filósofo católico canadiano Charles Taylor, que «descreve em detalhe as fases que conduziram ao atual estado secular», apontando as perdas e os ganhos desta transição.
No último capítulo, Taylor realça a necessidade de criar uma linguagem arejada, «criativa» e ao mesmo tempo «mais afetiva e poética», que constitua um contraponto ao palavreado prevalecente da «tecnologia unidimensional».
«Uma linguagem que chegue à dimensão estética da experiência, através da música, arte ou literatura», explica Imbelli ao analisar o volume “A Secular Age”.
«Taylor cita, como exemplos da capacidade de criar uma linguagem mais integral e evocativa, dois grandes poetas católicos: o sacerdote inglês Gerard Manley Hopkins e o leigo francês Charles Péguy», aponta o artigo.
Hopkins «reavivou o sentido sacramental de um mundo “a que foi confiada a grandeza de Deus”», enquanto Péguy «transmitiu de modo poético um sentido vivo da comunhão de todos os santos, unindo a terra e o céu».
Estes modelos, conclui Imbelli, podem inspirar uma nova apropriação do Evangelho e estimular «a renovação de uma imaginação centrada em Cristo, capaz de guiar e sustentar os cristãos no trabalho multiforme da nova evangelização».
Rui Jorge Martins
© SNPC |
10.07.12








