O grande silêncio
«O grande silêncio»

Entrevista com Philip Gröning, realizador


Porque decidiu fazer um filme sobre o mosteiro cartuxo?

Inicialmente não pensava fazer um filme sobre a vida no mosteiro. Eu queria fazer um filme sobre o tempo. De entre as Ordens onde o silêncio é observado, achei que a dos cartuxos era o mais interessante, já que cada um dos monges fica centrado em si próprio. Eles vivem numa pequena cela com camas de palha e, para se aquecerem, têm apenas uma pequena caixa de metal. Se o lume se apaga, fica um frio terrível. Por outro lado, a vida comunitária é muito estável e intensa. Os dias são tão estruturados que eles raramente têm tempo em que aconteça ficarem sós. Há rezas até durante a noite. É a vida de ermita, mas numa comunidade.


Como é que um filme sobre o tempo se tornou num filme sobre o silêncio?

Um filme “normal” funciona com a linguagem e a linguagem cobre o tempo. A maior experiência que um espectador pode ter ao ver um filme é sentir o tempo. Normalmente esta experiência confunde-se com a história. Num filme sobre o silêncio (um filme mudo), esta experiência do tempo é trazida à tona. E nada a pode remover. Neste caso, está directamente ligada à maneira como vivem os monges: numa estrutura temporal extremamente rígida que impõe o momento onde a acção se deve executar e as regras segundo as quais deve ser executada.


O seu filme fala do tempo a dois níveis: nós, espectadores, temos a sensação do tempo real, mas também sentimos a mudança de estações...

Alguém que viva sempre no mesmo sitio onde os dias se assemelham à perfeição sentirá mais a mudança de  estações que os outros.
Imaginem, passar a vida a olhar pela mesma janela (sempre a mesma e única janela), um mesmo pedaço de jardim ou uma certa montanha. A alteração da natureza assim como do tempo terá forçosamente um significado diferente.
O valor do trabalho e dos objectos parece ser diferente para os cartuxos... Os cartuxos vivem em grande pobreza, mas são pobres conscientemente. Por exemplo, o alfaiate guarda cada pequeno botão e cada pedaço de tecido. Quando um monge morre, os seus botões são reutilizados. Numa cena do filme vemos a colecção de botões na oficina do alfaiate. Também há caixas inteiras de fios, e até as partes mais ínfimas das vestes dos monges são recicladas. Se olhar de perto, verão que se trata da junção de vários bocados de tecido. Não se deita nada fora nos cartuxos e todo o dinheiro que não foi utilizado é revertido para as obras de caridade.


É uma filosofia?

Sim. Lembro-me de uma vez em que deitei uma coisa fora. O alfaiate veio-me logo perguntar porque é que eu tinha feito isso. Então eu não teria nenhum respeito por aquele que tinha trabalhado? Porque pensava eu que, de repente, já não tinha valor? Não é avareza, é atenção. A atenção com a qual se preocupam com tudo aqui: com os objectos, o tempo, nós próprios e a nossa alma.


A liberdade individual existe no mosteiro?

Sim, absolutamente! Só encontrei indivíduos determinados. Contrariamente aos cisterianos ou aos trapistas, que observam igualmente o silêncio, os cartuxos vivem cada um à sua maneira. A sua individualidade exprime-se de maneira muito viva na sua cela: podemos ver como Benjamim, o africano, juntou uma data de coisas depois de apenas 6 meses, enquanto Francis vive numa cela praticamente vazia há 7 anos.


Durante as filmagens, viveu como um monge. Será porque não podia ter feito de outra forma ou quis experimentar esse estilo de vida?

Era preferível viver no local para compreender o que vivem os monges. Se filmamos no mosteiro enquanto vivemos no hotel, não dá para capturar os ritmos dessa vida. É por ter vivido no local e com eles durante vários meses que pude penetrar nos ritmos de trabalho dos monges. Fiz tudo sozinho: estava atrás da câmara, gravei o som, carreguei vinte kilos de material. Pensei muitas vezes que não conseguiria até descobrir outra imagem que me fascinava. Era particularmente esgotante à noite e confesso que falhei algumas rezas nocturnas.


Mas estava no local todas as noites...

Sim. Durante toda a sua vida, os monges cartuxos nunca dormem uma noite completa. 3 horas de sono são seguidas de 2 ou 3 horas de reza, depois de novo 3 horas de sono. Eles nunca relaxam completamente, ficam concentrados em permanência, ajudados por vagas de adrenalina. Os cartuxos não têm férias nem tempo livre. É à noite que eles mantêm uma actividade durante mais tempo: a oração da noite. Depois segue-se a missa da manhã (45 minutos) e a da noite (30 minutos), sem esquecer as orações feitas na cela 7 vezes por dia. Para mais, cada um lava os seus próprios pertences, lava a louça, trabalha no jardim, corta madeira, lê livros e cumpre tarefas no mosteiro. O tempo pessoal não existe. Cada vez que pensava que iria poder relaxar um pouco, tocava um sino a chamar para uma actividade.


Quanta película tinha ao fim da jornada?

Cerca de 120 horas. Eu filmava uma cassete por dia, ou seja 49 minutos. E como eu seguia as tarefas quotidianas dos monges (lavar a louça, lavar a roupa, jardinagem...), só tinha 2 a 3 horas por dia para o meu trabalho de realizador.
Tentei não repetir nenhuma vez um plano. Se uma cena era boa, eu obrigava-me a não voltar a filmá-la. O meu primeiro objectivo era evitar os lugares comuns e não filmar o tipo de cenas que estamos à espera de ver num mosteiro.


Como é que comunicou se ninguém falava?

No filme vemos na antecâmara a caixa na qual os monges deixam mensagens uns para os outros. Por exemplo, um monge estava contra a ideia das filmagens. Nesse caso, insisti para me encontrar com ele. Se ele se opusesse ao ponto de se ir embora do mosteiro, eu não filmaria. Deixei-lhe então uma mensagem com os locais e as horas de filmagem para o dia seguinte perguntando-lhe se ele estava de acordo. Fiz a mesma coisa para as cenas com o jardineiro e o alfaiate. Nos cartuxos, há uma regra que diz que podemos falar se for necessário para realizar o trabalho. E como as filmagens eram o meu trabalho, pude dizer-lhe: “Aqui, preciso de uma cena com três espetos”


Não há um voto de silêncio propriamente dito?

A regra dos cartuxos quer que nós falemos o menos possível. Em certos sítios, não se deve falar de todo: na capela, na antecâmara e nos corredores. Por outro lado, noutros sítios é-nos pedido para falar, por exemplo nas passeatas de domingo. Ainda assim pede-se que cada um se mantenha numa bolha de solidão. É por essa razão que as oficinas e as salas são tão grandes. Se alguém está a cortar legumes na cozinha, uma outra pessoa (que executa a mesma tarefa) deve estar suficientemente afastada da primeira para a esquecer. É obviamente um mecanismo que torna o facto de permanecer silencioso mais fácil. Naquela atmosfera, tentei ser o mais discreto e o mais silencioso possível. Ao principio das filmagens, o mais difícil era controlar o barulho que eu próprio fazia.
No silêncio ambiente, qualquer deslocação ou chiar de material parece desmedido. Eu tinha até dificuldades em suportar o barulho insuportável do movimento do tecido do meu hábito.


Foi uma ideia dramatúrgica formidável a de acompanhar um iniciado, elemento novo nesta comunidade...

Foi um puro acaso. Eu tinha acabado de chegar quando me informaram que ia chegar um aprendiz no dia seguinte às 9 da manhã e que era primordial que eu filmasse esse acontecimento. Não me sentia pronto para filmar momentos tão íntimos, mas a ocasião não voltaria a apresentar-se tão cedo...


Foi o único admitido durante a sua estadia?

Quatro novos monges chegaram à comunidade durante a minha presença de seis meses no mosteiro deles. Não ficaram todos. Muito estão persuadidos que se querem tornar monges, mas eles não se apercebem que não vai realmente de encontro às suas vontades. Eu diria que 80% dos iniciados não ficam. Dos outros 20% alguns são excluídos pelos monges.


Não é terrível ser mandado embora por um mosteiro?

Na cerimónia de admissão, está bem claro que cada um é livre para se ir embora e que a comunidade tem o direito de excluir quem ela quiser. É uma protecção para os candidatos: se os monges percebem que um candidato não será capaz de viver numa ordem tão estrita, é excluído. No início, tentei convencer os monges que eram contra o meu filme que seria uma boa publicidade para o mosteiro. Mas esta ideia é absurda para um cartuxo. Admitamos que após 25 anos no mosteiro, um monge decreta que não é o tipo de vida que ele estava à espera e decide abandonar o local. Não há nada pior, porque para onde irá ele?
Nenhum dos cartuxos se preocupa com o futuro da Ordem. Existe há quase 1000 anos. Se Deus decidir que amanhã acabou, então assim seja.


Porque optou por não colocar comentários em “voz off”?

Não podemos utilizar uma linguagem para descrever um mundo que evolui tão longe dos mecanismos da linguagem. Os monges tornam-se virtuosos a aprofundar o seu conhecimento das coisas. Posso apenas desejar que o espectador sinta igualmente. Mas não pode funcionar se eu oferecer explicações a tudo o que se vê. Era claro para mim que iria fazer um filme sobre a visão das coisas e a escuta dessas mesmas com precisão. Obviamente, os comentários fazem-se depois da montagem... Mas têm uma qualidade diferente. Através da montagem, o espectador decide o que quer ver e ouvir, quando está claro ou quando o está menos. É um filme calmo, mas não é mudo. O registo sonoro é muito interessante. Ouvimos e vemos tudo de maneira diferente dentro do mosteiro. Através do silêncio os objectos tornam-se nos nossos duplos, como por exemplo os botões para o alfaiate.


Certos espectadores não compreendem logo o que fazem os monges...

Não me incomoda. O meu filme não tem resposta para todas as perguntas. Se ele suscitar interesse no espectador, este pode navegar na Internet e fazer a sua própria pesquisa. Hoje em dia, estamos esmagados debaixo de informação. O que falta, e é o que cada um deve descobrir por si mesmo, é o significado das coisas. O meu filme quer ser igualmente um filme sobre o próprio espectador, sobre as suas percepções, sobre os seus pensamentos. Ele deve concentrar-se sobre si próprio. É também um filme sobre a contemplação. É preciso pensar que, em média, um monge passa lá 65 anos da sua vida. 65 anos ao longo dos quais ele se entrega ao mesmo ritual dia após dia.
Não posso explicar o seu significado ao espectador, que pode apenas ficar com uma vaga impressão através das repetições no filme. Era a única forma de fazer o filme: não dar qualquer direcção ao espectador, mas deixando-lhe uma liberdade total.


Uma liberdade que os monges também têm?

Os monges têm uma certa liberdade apesar da severidade das regras, já que devem controlar as suas vidas. Pensamos que se pode modelar uma vida, ou que deveríamos modelá-la para atingir a felicidade. É por essa razão que muita gente tem medo da vida. O mosteiro é um local onde o medo não existe. Os monges têm essa confiança secular que Deus dirige tudo.


Em certas cenas, os monges têm uma faceta infantil...

É verdade. Por exemplo numa das cenas, eles divertem-se a deslizar numa ladeira com neve e lançam-se bolas de neve. Não nos podemos esquecer que os monges são muito atléticos. Eles ajudaram-me a carregar o material na montanha quando eu já não podia mais. Até aqueles que tinham um preconceito me ajudaram. Para mim, havia um mistério: o contacto físico. Existirá num mosteiro? Afinal, é um componente primordial da vida humana. É por esta razão que as cenas no cabeleireiro são tão importantes, nomeadamente quando se corta o cabelo de um monge ou quando se passa pomada no velho monge.


Qual é a posição actual dos cartuxos? A sua influência é importante?

Encontrarão essas respostas noutro sitio. Eu não quis fazer um filme sobre o mosteiro, mas sobre a vida dos monges. Sobretudo porque vejo paralelos com a vida de artista. E com a minha vida quotidiana enquanto realizador. Estou consciente dos sacrifícios que é preciso fazer e do que é preciso rejeitar. Nos dois mundos, gerimos conceitos como a concentração, a percepção e o significado desses actos.

 

 

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