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João Bénard da Costa

A casa encantada. O Padre Manuel Antunes: o lugar do saber

A primeira vez que o vi, foi no fundo da “sala capitular” do claustro do velho Convento de Jesus, corria o ano de 1957. Eu tinha feito vinte e um anos, ele ia fazer trinta e nove. Eu estava a acabar o terceiro ano do curso de Ciências Histórico-Filosóficas na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, à época moradora nesse convento e dirigida por Vitorino Nemésio. Ele acabava de ser convidado pelo mesmo Nemésio – no gesto mais feliz de funções que exerceu com manifesto desconforto – para ensinar História da Cultura Clássica e História da Civilização Romana.

Ao Padre Manuel Antunes – embora eu nada conheça da sua vida pessoal nem conheça quem conheça – poderá aplicar-se o que ele próprio disse um dia de Kierkegaard: “um ser que nunca foi criança, nunca foi adolescente, nunca foi jovem, mas adulto, sempre adulto”. Aos 39 anos, parecia ter 50. Como recordarão os que o conheceram, o físico não o ajudava. De meã estatura, magríssimo, lívido, com um fio de voz, parecia, nos hábitos talares que, nesses tempos, nenhum sacerdote dispensava e muito menos um servo de Jesus, a própria encarnação do beato asceta, que o secular anticlericalismo português investiu no padre, quando o não investia com a malícia e os prazeres da mesa, na imagem caricatural dos abades do Minho.

Em 1957, metade (pelo menos) dos alunos da Faculdade de Letras, a metade oposicionista, era jacobina e via em cada clérigo um oficiante do regime então vigente. Se já tinham franzido os sobrolhos à notícia de um padre jesuíta como professor da Faculdade, quando o viram não reprimiram comentários trocistas e, até mesmo, se bem me lembro, alguns risos. Duraram pouco. À medida que o Padre Manuel Antunes foi desenvolvendo a sua hoje famosa semiogonia de conceitos como história, cultura ou civilização, fez-se um imenso silêncio naquele vasto auditório, a que se seguiu o pasmo quando citou de cor, em grego clássico, uma longa passagem do Críton, que logo traduziu, sem se socorrer de qualquer nota, ou quando, passando a Cícero ou a Tácito, usou da pronúncia restaurada para dizer Kikero ou Takitus. Depois divagou sobre Hegel e Dithey, Max Scheler e Heidegger, com autoridade e segurança que esmagaram os preconceituosos ou os que, vendo caras, julgavam ver cabeças.

Começou nessa tarde a lenda do Padre Manuel Antunes, constituída a partir do ímpar prestígio que alcançou durante os vinte e quatro anos da sua carreira docente.

 

Nunca fui aluno dele. Mas, se em 1957 já sabia que ele era o mais cultivado e o mais criador dos nossos críticos literários, pelos textos da Brotéria, se, ainda na década de 50, escutei sobre ele encomiásticos elogios de pessoas de elogio tão exigente como Sophia ou Jorge de Sena, a espantosa dimensão do homem foi-me revelada quando o conheci pessoalmente, em 1959, graças à amizade comum de António Alçada Baptista.

Eu preparava então uma tese sobre o tema do “outro” no personalismo de Mounier. Depois de algumas conversas, nesses anos iniciáticos da Moraes, pedi para falar com ele e visitei-o na sede da Brotéria, então na Lapa. Lembro-me que era uma tarde muito fria e que a moradia era de uma austeridade impressionante. Mandaram-me entrar para uma salinha desconfortável de cadeiras hirtas. Nenhum aquecimento. Chamado do quarto, o Padre Manuel Antunes apareceu-me de sobretudo e mãos enregeladas. Quando lhe expliquei ao que vinha, disse-me que nem o tema nem o pensamento de Mounier eram terrenos que dominasse. Mas forma-me encomendadas algumas leituras, e em breve, eu tinha uma bibliografia que ia de Buber a Buytendijk, de Nédoncelle a Jean Wahi, para citar alguns nomes com quem depois vivi, entre dezenas de outros, de que me indicando, de memória, edições e datas ou recomendando as melhores traduções, quando se tratava de alemães ou nórdicos. Saí dali esmagado: se assim acontecia em terrenos em que se dizia leigo, que seria se lhe pedisse autores das suas orientações dominantes? Esqueci o frio, esqueci o desconforto. Mas não deixei de reflectir em como seria a vida daquele homem, entre as aulas e essa casa, em que até para ir jantar a casa de amigos tinha que pedir autorização.

Nos anos 60, o nosso convívio estreitou-se. Quando cinco casais de católicos, apelidados de progressistas, estabeleceram entre si um Pacto (ideia do António Alçada) que implicava vidas e trabalhos comuns, foi o Padre Manuel Antunes o nosso Assistente (assim se designava o nosso orientador espiritual) e não vacilou perante a heterodoxia da coisa. Muito pelo contrário: viu nela um sinal de Deus e de caminhos futuros ou de caminhos do futuro. Depois, foi um dos membros da comissão portuguesa, filial do Congrés / Association pour la Liberte de la Culture e esteve em combates muito difíceis nos anos 60 e 70, antes dessa Revolução que ele analisou, como mais ninguém, nesse livrinho sublime a que chamou Repensar Portugal, em que, de 1979, e interrogando os cinco convulsos anos precedentes, se perguntou e nos perguntou “como e porquê aconteceu assim”. Termina a introdução a essa obra com duas citações de Nietzsche que me têm acompanhado vida dentro: “é a cultura que dota a consciência de memória, mas essa memória é mais função do futuro que do passado” ou “a primeira categoria da consciência histórica não é a memória ou lembrança: é o anúncio, a expectativa, a promessa”.

Citações contraditórias? Para ele não o eram, nem nunca o foram, e, na minha memória, as junto a duas das citações que mais lhe ouvi. Uma é de Heraclito e diz-nos que “quem não espera não encontra o inesperado, que é inefável e inacessível”. A outra, de Claudel, quando escreveu que “cada artista vem ao mundo para dizer só uma coisa, une seule toute petite chose. É só isso o quem que encontrar, agrupando tudo o resto em redor dela”. A porta que só para a personagem do Processo de Kafka fora feita e que depois da morte dele não podia servir a mais ninguém.

Citei acima a passagem do Padre Manuel Antunes sobre Kierkegaard, o sempre adulto, atrevendo-me a compará-lo, nessa dimensão, ao homem que nasceu de família humilíssima da Beira Baixa e que, aos 14 anos, deu entrada no Seminário Menor da Companhia de Jesus, em Guimarães. Mas, se o Padre Manuel Antunes fala do autor de A Alternativa como de um “espírito carregado de interrogações”, “carregado de interrogações” é como eu o lembro ou repenso. A resposta para elas tê-las-á encontrado na Fé, essa Fé que o fazia “chorar de alegria”, no “pleurer de joie” pascaliano, que ele também tanto gostava de citar. Mas foi nas interrogações que sem cessar buscou, no seu imenso saber, o saber mais universalista de qualquer português do nosso tempo – e peso bem as minhas palavras – esse saber que o fazia mover-se, com singular luminosidade, entre a cultura greco-latina e o pensamento contemporâneo dele; comentar com tanta acutilância Gide como Eliot, Pessoa como Nemésio, Agustina como Soljenitsine, Jorge de Lima como Cecília Meireles, Sena como Sophia, Camões como Garrett; debruçar-se cobre a História Medieval com a mesma distância e a mesma proximidade com que se debruçou sobre os anos 70 portugueses; estudar Marx e Freud como Toynbee ou Spengler; meditar nas grandes questões teológicas, desde os Padres gregos a Bultmann; aproximar e afastar o mítico do místico. E apenas escolhi alguns dos aspectos do seu pensamento que mais me fascinam, pois foi inesgotável a lista das suas paixões, como foi a imensidade da sua erudição. Alguns livros o podem atestar a quem não teve o privilégio de ser seu aluno ou de ter convivido com este homem que nos deixou aos 66 anos, há duas décadas. Mas sabe-se que a obra publicada é uma ínfima parte da que está por publicar e, só quando tudo vier a lume, nos poderemos aproximar melhor da vastidão de uma cultura entendida como generosidade, nas justas palavras de Maria Ivone Ornellas de Andrade. Será esse o melhor fruto das comemorações decorridas esta semana, que estabelecem em torno dele um consenso tão mais estarrecedor quanto a inveja e a maledicência são os pecados maiores do povo que somos.

 

Diz-se – costuma-se dizer que o povo costuma dizer – que “o saber não ocupa lugar”. Ao dizê-lo, tanto se pode estar a dizer que se sabe sempre menos do que se pode saber (seria dito popular de sentido equivalente ao étimo da palavra filosofia, já que o saber jamais se detém e só o amor a ele pode caracterizar os que o buscam, em busca impossível de ser plenamente satisfeita) como que de nada adianta saber, quando esse saber só contribuiu para nos roubar a santa paz da ignorância. Evitando o conhecimento a quem esse conhecimento só pode ser nocivo, quer o alcance da frase se destine ao que não devemos conhecer (os frutos da árvore do bem e do mal) ou, cinicamente, se aplique á omissão do que não damos a conhecer para nos poupar a sermos conhecidos.

Mas o saber ocupa lugar e é do lugar desse saber que provém o peso do magistério do Padre Manuel Antunes. Porque é de saber que se trata quando pensamos nele e quando o reencontramos, como raros mais neste país, no lugar que nos permite compreender melhor.

Como escreveu o Padre Manuel Antunes: “a universalidade da natureza humana joga com a espantosa diversidade das culturas e das civilizações. É essa universalidade que permite ter umna noção, embora genérica, do todo, é ela que permite, na medida do possível, uma visão sinóptica e compreensiva do mesmo todo, é ela que permite ao homem – a este homem – descobrir-se ou encontrar-se em obras que ele não realizou e que se encontram longe dele tanto no espaço como no tempo: num poema de Homero, numa tragédia de Sófocles, numa escultura de Fídias”.

Essa universalidade foi o que o Padre Manuel Antunes buscou, através do saber ou do lugar do saber. Sabendo também que no homem, que não é Deus nem átomo perdido, mas ser intermédio – metaxy, dizia ele platonicamente – esse lugar nunca pode situar-se num dos extremos, mas “tocando nos dois ao mesmo tempo”, segundo o célebre princípio de Pascal. Isso lhe permitiu a generosidade, acima referida, isso me permite aplicar-lhe outro provérbio português de que ele talvez tenha sido o mais belo representante: “Onde há bom saber, poucas vezes há repreender”.

João Bénard da Costa

Director da Cinemateca Portuguesa

 

in Padre Manuel Antunes (1918-1985) – Interfaces da cultura portuguesa e europeia, José Eduardo Franco, Hermínio Rico (coord.), Campo das Letras, Porto, 2007.

 

Conferência proferida no Congresso Internacional Padre Manuel Antunes – Interfaces da Cultura Portuguesa e Europeia, Fundação Calouste Gulbenkian, 16.12.2005

 

Publicado em 17.09.2007

 

 

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Padre Manuel Antunes

































































Capa do livro "Padre Manuel Antunes - Interfaces da cultura portuguesa e europeia"



































































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