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Memória

Pedro Hispano Portugalense
Papa João XXI

A revista “Acção Médica”, órgão oficial da Associação dos Médicos Católicos, publicada ininterruptamente deste 1936, dedica o seu último número (Novembro de 2007) a “Pedro Hispano Portucalense – Papa João XXI - No 8.º Centenário do seu Nascimento.

Ao longo de mais de 250 páginas, a obra apresenta os seguintes artigos: “O perfil psicológico do Papa João XXI” (Álvaro de Caíres); “Pedro Julião – “Clericus Universalis” (António Metrelles do Souto); Sobre a composição de algumas obras médicas de Pedro Hispano (Maria Helena da Rocha Pereira); Pedro Hispano e a terapêutica medicamentosa medieval (José Manuel Toscano Rico); Pedro Hispano, Mestre de Lógica (Jesué Pinharanda Gomes); Notas sobre Pedro Hispano e o pensamento medieval (Henrique Barrilaro Ruas); O Papa João XXI e a ciência do seu tempo (José Francisco Meirinhos); Notas sobre o Brasão de Armas do Papa João XXI (Francisco Simas Alves de Azevedo); Tumulação do Papa João XXI (António Meyrelles do Souto).

A coordenação, prefácio e co-autoria do volume, que inclui imagens e bibliografia, são de J. Paiva Boléo-Tomé, Professor Catedrático Jubilado da Universidade Lisboa (Cirurgia/História da Medicina), Professor de Bioética e Director da revista “Acção Médica”.

Transcrevemos seguidamente o prefácio da obra.

Numa notável iniciativa do Dr. A. M. Meyrelles do Souto, na qualidade de Secretário da Secção de História da Medicina da Sociedade de Geografia de Lisboa, decorreu nesta Sociedade um ciclo de conferências sobre o Papa João XXI, que se iniciou em 27 de Setembro de 2001, terminando com uma Sessão Solene no dia 16 de Maio de 2002.

Justificava-se, e justifica-se amplamente esta homenagem a um dos homens mais notáveis do seu tempo, e que marcou a cultura e o ensino universitário durante mais de três séculos. Na verdade, a passagem do oitavo centenário do seu nascimento, que não é possível ainda situar com precisão, mas que é com certeza anterior a 1210 (talvez 1205 ou 1207?), deveria ter conduzido todos os responsáveis pela cultura em Portugal à organização de um verdadeiro trabalho de pesquisa, estudo e divulgação nacional de uma das maiores figuras nacionais e europeias. Dante, na sua “Divina Comedia”, não hesita em colocá-lo entre os maiores, no XII Canto do Paraíso.

Infelizmente, não fora esta iniciativa de Meyrelles do Souto, apoiada pela Sociedade de Geografia, parece que, como tem acontecido a vários dos nossos maiores, seria só mais um centenário esquecido, ou envergonhadamente lembrado.

A revista “Acção Médica” decidiu não deixar cair no esquecimento os valiosos trabalhos apresentados no ciclo de conferências, tomando a seu cargo a sua edição em livro. Este o motivo da apresentação da obra que agora se deu à estampa.

Cada estudo é precedido de um resumo desenvolvido para maior facilidade de acesso ao seu conteúdo. É igualmente incluído, parcialmente, um texto publicado em 1946 sobre o perfil psicológico de Pedro Hispano/Papa João XXI, recheado de factos históricos e de leitura acessível, que nos pareceu digno de ser divulgado.

Falar do Papa João XXI, que fora, antes da eleição ao Papado, Pedro Hispano ou Pedro Julião, nascido e criado em Lisboa, não é apenas dar a conhecer um português que ocupou a Cadeira de Pedro no século XIII. Na verdade, trata-se também, e principalmente, de uma das figuras mais notáveis da ciência do seu tempo, como médico, como filósofo, como teólogo, como mestre universitário.

Foi muito curto o seu papado – apenas oito meses e cinco dias – interrompido por um acidente dificilmente explicável – um desabamento no palácio papal, em Viterbo, onde tinha sido eleito. Mas estes poucos meses mostraram um Papa que, embora acusado por alguns de pouco sensato (e adiante se perceberá porquê), foi enérgico, decidido, disciplinador, unificador e pacificador, isto é, o Papa de que a Igreja necessitava nos momentos difíceis que atravessava.

Há quem o designe como o segundo Papa Português, colocando S. Dâmaso como o primeiro nascido em terras portuguesas. E é bem provável que S. Dâmaso, que viveu entre 305 e 384 e foi eleito Papa em 366, tenha nascido em terras que mais tarde seriam portuguesas, pois todos os documentos mais antigos indicam Guimarães como o seu local de nascimento: “Damasi pape confessoris, de Vimarani in regno Portugaliae” (do Missal de Évora, 1509). O próprio S. Jerónimo, que foi seu secretário e confessor, o refere como de origem “natione Hispanus, ex patre Antonio…”. Só bastante mais tarde, no século XVIII, começou a ser defendida a tese de ter nascido em Roma, embora de pai “hispânico”. Mas, mesmo confirmando o seu nascimento em Guimarães, não poderemos, em boa verdade, atribuir-lhe a nacionalidade portuguesa, uma vez que a nação ainda não existia. Podemos assim, sem qualquer hesitação, designar João XXI como o primeiro Papa Português (13 de Setembro de 1276 a 17 de Maio de 1277).

Outra questão que se tem levantado diz respeito à ordenação numérica que ele próprio escolheu – XXI. As dúvidas, ou as confusões, vêm do ano de 985, em que foi eleito Papa aquele que adoptou o nome de João XV. Na verdade, este Papa, que sucedeu a João XIV (anteriormente Bispo de Pavia), eleito em Dezembro de 985, morreu no mesmo mês da sua eleição, não chegando a ser sagrado. No entanto, o sucessor adoptou o nome de João XVI (25 de Abril de 986 a 7 de Maio de 996), continuando os seguintes a mesma ordenação numérica.

Fala-se bastante do homem de ciência que foi eleito Papa, e que o tornou conhecido como “Clericus Universalis” e “Magnus in Sciencia”. A sua eleição foi uma surpresa, e terá sido consequência da guerra de influências entre duas famílias poderosas, os Orsini e os Collona. Pedro Hispano não era italiano e não pertencia a qualquer partido. Possuía, sim, uma cultura e um prestígio científico excepcionais, assim como a fama de homem recto, que acabaram por se sobrepor às guerrilhas políticas, e à pressão da população de Viterbo, que exigiu a eleição papal sem mais delongas, num conclave quem poderia ter sido agitadíssimo, à semelhança do vergonhoso conclave anterior.

Mas, além de homem culto, que dominava a ciência médica, a história natural, a filosofia, a lógica e a psicologia, e que lia directamente no grego ou no árabe as obras mais representativas dos autores antigos, veio a revelar-se, como Papa, um verdadeiro disciplinador das desordens internas da Igreja, um pacificador enérgico das disputas e ambições entre os príncipes e reis cristãos, um unificador da Igreja, conseguindo o regresso à unidade da Igreja do Oriente, e um verdadeiro precursor das relações ecuménicas. Vale a pena deixar aqui umas breves notas sobre todo este trabalho, realizado em tão curto espaço de tempo.

Pode-se dizer que iniciou o seu pontificado “por dentro”, castigando severamente os autores dos distúrbios durante os Conclaves em que participou, e confirmando a suspensão, efectuada pelo seu antecessor, Adriano V, das Constituições para as eleições pontifícias, com a intenção clara de as libertar de todas as influências políticas que habitualmente as inquinavam. Na verdade, a guerra de influências entre o “partido francês”, que exigia um Papa de origem francesa, e o “partido italiano” (ou ítalo-germânico), eram a regra em todos os Conclaves. Enérgico e decidido, João XXI procurou acabar de vez com estas interferências. Faltou-lhe o tempo necessário para fazer publicar as novas Constituições que estava a preparar. Este facto tem sido explorado por alguns autores que defenderam a tese do assassinato.

Ainda no plano interno, João XXI ficou conhecido pelas célebres condenações doutrinais de Paris, em que, a seu pedido, foram analisados e discutidos vários erros de doutrina que estavam a ser divulgados e defendidos (Março de 1277), embora essas condenações tenham sido da autoria do Arcebispo de Paris. Na verdade, o Papa confirmara em paris, como seu Legado, o Cardeal Simon de Brie para tomar conhecimento do que se passava e posterior resolução. Identificadas as irregularidades por uma comissão de mestres e teólogos, o Arcebispo de Paris apressou-se a rejeitá-las, antes mesmo de João XXI tomar conhecimento do seu conteúdo.

No plano externo, começou por procurar obter a reconciliação entre Charles de Anjou e Rudolfo de Habsburgo, tendo por objectivo principal conseguir a paz na Península Italiana. Graças à sua acção, foi possível a coroação de Rudolfo, com o compromisso de não intervir nos assuntos da Romagna.

Entretanto, estava prestes a estalar a guerra entre Afonso X de Castela e Filipe III de França. Rapidamente, enviou dois legados, dotados de todos os poderes canónicos, para, se necessário, excomungarem os dois Reis, se persistissem nas suas intenções bélicas. A guerra foi evitada.

Como unificador, enviou uma missão papal ao imperador Miguel Paleólogo, de Bizâncio, para acabar com o cisma entre a Igreja do Ocidente e a Igreja do Oriente. Esta união tinha já sido decidida por ambas as partes no Concílio de Lião, em 1274, mas a separação continuava. Foi a sua acção diplomática, persistente e inteligente que conseguiu tornar realidade a união das duas Igrejas, sob uma única autoridade, o Papa, sucessor de Pedro.

Incansável defensor da Paz entre Povos e Nações, pode-se dizer que foi o precursor do ecumenismo, ao receber e retribuir uma embaixada dos Reis Tártaros, com quem procurou estabelecer relações de amizade, dando continuidade a uma iniciativa de Gregório X.

Thesaurus Pauperum - Exemplar impresso em Lyon, 1527

Quanto à sua obra escrita, continua a não ser pacífica a atribuição de autoria de alguns dos livros que constam da sua bibliografia. Se há obras que não oferecem dúvidas, como Thesaurus Pauperum e Summa Logicales, e ainda outras escritas a pedido, como Liber de Morbis Oculorum (talvez o primeiro tratado de Oftalmologia) ou a obra Dieta Morborum Vulneratorum (escrita a pedido do cirurgião Fantino), outras existem em que a sua autoria é posta em dúvida. É bem conhecida a sua pouca (ou nenhuma) simpatia por certos dominicanos do seu tempo. talvez isso explique um pouco a existência de autores, dominicanos, que afirmam ter existido mais do que um Pedro Hispano (é claro que estes seriam dominicanos…), embora bastante afastados no tempo, pois o segundo e até mesmo um terceiro seriam dominicanos que teriam vivido no século XV. É sintomático que os autores que contestaram a autoria de quase tudo o que escreveu, e até a sua própria qualidade científica, fossem principalmente dominicanos, ao contrário dos seus mais incansáveis defensores, encontrando-se entre estes contemporâneos do Papa.

Mas pondo de parte esta “guerrilha” pouco abonatória das relações existentes entre as Ordens Religiosas e que se estendeu ao longo dos séculos em muitas situações históricas, a confusão é natural, relativamente às obras publicadas anteriormente à descoberta da imprensa, por Gutenberg (1440). Na verdade, era quase regra os copistas incluírem nos textos originais notas que tinham sido escritas por discípulos ou por estudiosos, não sendo raro acrescentarem capítulos completos. É fácil calcular as dificuldades levantadas para a identificação da origem. É muito elucidativo de todos estes problemas o texto da Professora Maria Helena da Rocha Pereira, uma das maiores autoridades em paleografia e crítica textual, principalmente no que diz respeito à obra de Pedro Hispano Portugalense. Tem igualmente muito interesse o estudo, muito documentado, do Professor José Meirinhos, porque nos dá uma ideia da outra face – a das dificuldades e dúvidas, insistentemente repetidas apesas das provas em contrário, e do peso que tiveram nessas dúvidas os dominicanos.

Aliás, é bem conhecida a existência de problemas semelhantes passados com a obra de Hipócrates, e com outras figuras grandes da história das ciências, antes de Gutenberg. Mas essas dificuldades e dúvidas em nada alteraram o seu enorme prestígio, passando-se o mesmo com Petrus Hispanus Portugalensis, que foi filósofo, cientista e Papa, com o nome de João XXI.

Merecem ainda relevo muito especial as suas relações com o Rei Afonso III de Portugal. Era bem conhecido o espírito rebelde e as atitudes autoritárias deste soberano, desde que conseguira a deposição do irmão, o Rei D. Sancho II, procurando impor energicamente a sua autoridade, não só no Reino, mas igualmente na vizinha Castela. Quando João XXI iniciou o seu pontificado, as relações da Santa Sé com o Rei de Portugal já se encontravam muito deterioradas, tendo um seu antecessor enviado ao rei uma Bula extremamente dura. O procedimento indigno e de má fé de vários protegidos de El-Rei, muitos deles súbditos infiéis à Igreja, assim como os atritos e usurpações dos direitos dos Bispos, eram uma constante, sob o pretexto de que era necessário corrigir irregularidades e a corrupção do clero. Avisado várias vezes de que esse papel pertencia ao Papa ou aos seus representantes, papel que João XXI desempenhou com decisão e energia, o Papa acabou por se ver obrigado a confirmar um Legado Papal enviado por Gregório X, de nacionalidade portuguesa, Frei Nicolau, dando-lhe plenos poderes, mas com a recomendação de tentar demover o velho monarca, que dissimuladamente prometia uma coisa e fazia outra. Frei Nicolau, desenganado e vendo a inutilidade dos seus esforços, acabou por cumprir o que já estava estabelecido na Bula de Gregório X – afixar em todas as Catedrais, em cerimónia solene, as graves disposições de interdição já ali contidas.

A notícia da morte trágica do Papa português, levou Afonso III a temer que a situação se agravasse ainda mais com o sucessor. Por isso pediu a Frei Nicolau que suspendesse a sua missão de interdito, convidando-o a vir a Lisboa para com ele tratar “matérias de consciência”. Conta-nos Alexandre Herculano que Frei Nicolau se dirigiu ao Paço, onde o Rei lhe afirmou que estava pronto a jurar cumprir o que lhe era exigido, desde que lhe fossem retiradas as penas. A resposta de Frei Nicolau, muito dura, foi dada de acordo com as instruções que recebera: “Essas penas só pode relaxá-las aquele que as impões; mas sabei que, ainda que para isso tivesse poder, não vos aliviaria de uma única enquanto não visse inteiramente cumpridos os mandatos apostólicos. Fazei-o: que eu, ou relaxarei as penas ou fá-las-ei relaxar”.

O Rei não cumpriu, o Interdito foi publicado, seguindo-se um período de guerra que Herculano descreve cuidadosamente. Só na aproximação da morte quis Afonso III corrigir o sue procedimento, e, perante os principais dignitários da Sé de Évora, e na presença do Infante D. Dinis, seu sucessor, jurou sobre os Evangelhos reconhecendo os seus erros, e que ele ainda, ou o seu sucessor, cumpririam as promessas que lhe tinham sido exigidas.

Estas breves notas dão uma pequena ideia das qualidades de verdadeiro estadista e Defensor da Fé do Papa mais notável do século XIII, considerado por muitos o homem mais culto do seu tempo. As edições das suas obras, principalmente do Thesaurus Pauperum, obra escrita a pensar nos doentes que não tinham possibilidades económicas, e das Súmulas, sucederam-se nos séculos seguintes. Só as Súmulas tiveram mais de 260 edições.

Homem de ciência, homem de fé, apoiando decisivamente os que não tinham posses, diplomata decidido, soube exercer o seu curto pontificado com uma dignidade, firmeza e eficácia invulgares reconhecida por quase todos, apesar da acusação de pouco senso referida por alguns, baseada apenas na facilidade com que qualquer pessoa tinha acesso ao Papa. Indiscutivelmente, merece a nossa admiração e a nossa homenagem.

J. Paiva Boléo-Tomé

Publicado em 17.01.2008

 

 

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Capa da revista

Revista "Acção Médica"
Pedro Hispano Portugalense
- Papa João XXI -
No 8.º Centenário
do seu Nascimento

Autor
J. Paiva Boléo-Tomé (coord)

Editora
Acção Médica

Páginas
263

Data
Novembro 2007

ISBN
978-989-20-0937-7

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