Observatório da Cultura
D. Gianfranco Ravasi

A Bíblia, grande código da cultura

Olhemos para a Bíblia como grande código cultural. É verdade que, para nós crentes, ela constitui antes de tudo essa luz que ilumina os caminhos múltiplos da vida. Mas para a cultura representa também um fundamental ponto de referência, uma âncora. Um grande filósofo como Pascal defendia, nos seus Pensamentos, que a Bíblia serve não apenas para consolar e reparar cada instante da existência, mas também para a desafiar e revolver. Ela é fonte de paz e também de emoção. E emoção intensíssima, deve dizer-se. Nietzsche, que toda a vida se bateu contra a herança judaico-cristã, acabou por reconhecer, e são palavras suas, que aquilo que experimentamos lendo um poeta grego como Píndaro ou um poeta italiano como Petrarca e o que vivenciamos na leitura dos Salmos, é tão diferente como uma terra estranha face à nossa própria pátria. A Bíblia é para o homem do Ocidente a sua pátria: ela ressoa pelos nossos ouvidos e entra pelos nossos olhos mesmo se esquecida, mesmo quando a cultura parece ter-se distanciado da sua dimensão sagrada.

 

Afirmar a qualidade estética da Bíblia

A Bíblia está composta, como sabeis, por setenta e três livros muito diferentes entre si. Estes livros têm uma qualidade literária distinta. Tanto nos deparamos com essa obra-prima que é o livro de Job, como nos abeiramos de um panfleto mínimo e modesto como é o livro do profeta Abdias (poucas linhas, quase uma única página). Encontramos o Cântico dos Cânticos, magistral composição de imagens e de poesia, além de insuperável hino ao amor, mas temos também textos áridos como os livros históricos de Esdras e Neemias, livros que relatam acontecimentos de uma maneira que a nós leitores parecerá um deserto. Um deserto de pedras, de nomes, de dados e de datas.

A Bíblia, porém, confiou a sua beleza sobretudo a uma dimensão: à dimensão da palavra. A palavra é fundamental e ao mesmo tempo paradoxal, porque é uma realidade frágil. Morre uma vez pronunciada. Contudo ela é recurso que diz o divino, exprime o eterno e o infinito. Sabemos bem que ela pode mergulhar no íntimo e ser como espada que fere. Há pessoas que se odeiam toda uma vida por causa de uma única palavra errada dita uma vez.

Quando abrimos a Bíblia vemos que ela começa com uma frase que, em hebraico, é quase musical. Quero-a citar aqui: «Deus disse, faça-se a luz e a luz foi feita». Uma palavra está na raiz da criação, na raiz do Ser, e revela o mistério do agir criativo de Deus. A palavra é, assim, assinalada como princípio da História. Lembremos a experiência do Monte Sinai. Do Sinai o que desce? Desce Moisés com dez palavras, que as duas tábuas contêm. No livro do Deuteronómio, no capítulo IV, surge uma frase particularmente forte e sugestiva que descreve a experiência de Deus feita por Israel. No Sinai diz-se: «O Senhor falou-vos do meio do fogo; ouvistes o som das palavras, mas não vistes figura alguma. Era uma voz apenas». Em hebraico a palavra qol significa voz, som e também trovão. Deus é um som. Uma palavra! E esta é todo um acontecimento que salva Israel, ao contrário das representações idolátricas. Aos pés do Monte Sinai, o vitelo de ouro representa uma imagem concreta do erro de Israel. A Bíblia não cessa de recomendar: “Não sigamos os muitos ídolos de ouro. Sigamos a palavra.” E o Novo Testamento prossegue nesta linha. Uma das obras-primas absolutas da literatura mundial, e não apenas da Teologia, é o prólogo do Evangelho de João. Como começa o primeiro capítulo? Num grego límpido começa: “No princípio era o Logos / a Palavra”. No Fausto, de Goethe, a tradução deste Logos, desta Palavra, é feita com quatro vocábulos alemães. Goethe, pela boca de Fausto, tenta traduzir, por diversos caminhos, a riqueza escondida no lexema Logos. E propõe quatro hipóteses:

a) No princípio era das Wort (era a Palavra);
b) No princípio era die Kraft (era a Potência, a Palavra que cria);
c) No princípio era der Sinn (era o Sentido, o Significado);
d) No princípio era die Tat (era o Acto, a Acção).

Todos estes significados estão presentes no campo semântico da Palavra que no hebraico bíblico é Dabar, e, no grego, Logos. Não significa só a palavra, mas uma palavra que tem força, que cria, que corta, revolve e julga à maneira da espada. Jeremias diz: “É um martelo que quebra a rocha, que separa as pedras, a palavra de Deus”. E é igualmente uma Palavra que entra na História, pois é verdade que o prólogo de João afirma: «Palavra se fez carne!». É por isso que, segundo a Bíblia, perscrutar a natureza e o mistério da Palavra não é de modo nenhum uma actividade secundária. Deus escolheu-a como lugar da sua epifania, da sua revelação, mesmo se ela nos parece frágil e provisória.

A palavra bíblica é expressa num modo belo e estético. A beleza dos símbolos bíblicos deu origem, por séculos e séculos, a toda a história da arte. Contudo, o homem da Bíblia não tinha uma prática artística, propriamente dita. As imagens eram proibidas. Recusava-se legitimidade a qualquer ícone de Deus. A imagem de Deus era a pessoa humana, homem e mulher. O povo bíblico não tem arte, mas cria arte na palavra. Tanto é assim que um pintor como Marc Chagall escreveu: «Por muitos séculos os pintores molharam os seus pincéis naquele alfabeto colorido que eram as páginas da Bíblia». Todas as imagens, as cores, as cenas principais e secundárias do texto bíblico tornaram-se, ao longo da história da arte, uma espécie de alfabeto. O próprio Jesus quando fala, como é sabido, usa sempre imagens, parábolas, sinais. Nos Evangelhos temos pelo menos trinta e cinco parábolas que se tornam setenta e duas se contarmos com as comparações um pouco mais desenvolvidas. Jesus falou por metáforas em modo belo, com uma largueza fascinante. E na beleza do texto permanece ainda a sua musicalidade originária.

Dizia um Padre da Igreja, Máximo Confessor: “Se tu não conheces as palavras do texto, como podes conhecer a Palavra?” É necessário portanto estudar as palavras da Bíblia, compreendê-las, aprofundá-las, não fazer como aqueles que imaginam que os símbolos, as narrativas, as metáforas são expressões a cancelar e a substituir imediatamente por uma linguagem formal filosófico-teológica. A Bíblia convida-nos a dizer Deus numa teologia narrativa, que preserva os modos simbólicos, que não esquece o horizonte estético. E convida-nos também a rezar, como os Salmos o atestam, em modo poético, e não com orações triviais, cinzentas, insignificantes.

 

Os três modelos de apropriação da Bíblia

A Bíblia é o grande código da cultura do Ocidente. Grande código quer dizer a estrela polar. A Escritura funciona como um repertório ou estaleiro de imagens preparadas para usar. Essa apropriação ocorreu nas formas mais diversas. Podemos, por isso, dizer que, na história da cultura ocidental a Bíblia cumpre o papel de alma, não só a nível artístico mas também no plano filosófico e moral. Mesmo quem não acredita e parece prescindir da moral bíblica não pode negar que no interior dele e da sociedade onde vive, as dez palavras do Decálogo, por exemplo, continuam a estar vivas. O Decálogo é uma referência moral e ética, mesmo para quem não crê, mesmo para quem o recusa e viola. Pensemos nesses belíssimos dez filmes dedicados ao Decálogo por um cineasta polaco agnóstico, Krzysztof Kieslowski. Ele transcreveu de forma estética os dez mandamentos.

Queria dar aqui três exemplos, ou falar de três modelos de apropriação da Bíblia. O primeiro modelo é aquele que eu chamo de actualização. A Bíblia é distante e remota: é um texto antigo. A arte, tal como a liturgia ou a pregação, transporta a Bíblia para o presente, para o quotidiano. À sua maneira como que a reescreve com a ortografia de hoje. Escolho como exemplo o capítulo XXII do livro do Génesis, quando Abraão escuta aquela palavra aparentemente contraditória da parte de Deus para imolar Isaac. Deus parece desautorizar-se a si próprio, ir contra si mesmo, porque ordena a Abraão o impensável. Ora bem: quem havia dado a Abraão o seu filho? O próprio Deus! Isaac era o filho da promessa, e contudo ele deveria ser sacrificado. Abraão sobe ao monte, ascende com terror sob aquele céu mudo. Deus está ausente, cala-se depois da enigmática ordem. Um extraordinário filósofo do século XIX, Soren Kierkegaard, e tantos outros grandes artistas tomaram este tema para meditação. Rembrandt, por exemplo, representa Abraão a fechar os olhos ao filho enquanto mantém a faca na outra mão, de maneira a ocultar o instrumento da morte. Kierkgaard escreveu sobre este motivo numa obra muito bela, intitulada Temor e Tremor. E aqui procura explicar o significado daquela página bíblica. Situa-a como uma parábola do crer, o drama de todo o crente. No fundo, a qualquer crente a fé exige um último passo, que ocorre na solidão absoluta, sem mais nenhuma prova. É o momento do puro risco. Mas Kierkegaard diz: naquele momento em que Deus nos empurra para o último passo, Deus ama-nos. Tal como uma mãe deve afastar do seu corpo o filho, ajudá-lo a alimentar-se sozinho e não apenas do leite materno, assim Deus parece afastar o homem de Si para que este se torne uma criatura livre, capaz de caminhar pelo mundo. Deus quer que O amemos livremente. Não porque daí tiramos vantagens ou provas.

O segundo modelo é, talvez, ainda mais estranho: o da deformação. Tantas vezes na história da cultura aconteceram deformações da Bíblia. É um processo constante. Dou um exemplo. Na tradição cultural do Ocidente, Job é o exemplo da paciência. Ora, se lermos o livro, excepto os primeiros dois capítulos, ele é sobretudo um grito por Deus. Tanto é assim, que um americano contemporâneo intitulou o seu comentário a Job como Job the Impatient. Um outro comentador francês classificou-o como l'homme revolté. Porque Job levanta-se contra Deus. A certo momento, por exemplo, ele diz-lhe: “Tu, ó Deus, és como um tigre que se prepara, que coloca os olhos em mim para devorar-me. Tu és como um guerreiro triunfante que esmaga o crânio das suas vítimas. Como um arqueiro que aponta directo ao coração”. No Oriente os imperadores não caçavam apenas os animais selvagens, mas também os escravos, os prisioneiros, tentando acertar-lhes com as flechas. Sendo assim, Deus é representado como um arqueiro sádico. Estas são páginas blasfemas, poder-se-á dizer. Mas ajudam-nos a ver que nos momentos de dor, em horas desesperadas, quando um homem grita por Deus ou contra Deus, e a nós crentes soa como blasfémia, talvez devamos ser cautelosos a julgar, porque existe um livro da Bíblia que diz: Deus está silencioso perante a nossa dor.

O silêncio, porém, é também revelação de Deus. A deformação do livro de Job não é só inofensiva, como a de fazê-lo herói da paciência. Há uma obra de um dos pais da psicanálise, Carl Jung, chamada Resposta a Job. Esta resposta é curiosa porque toma o seu partido, distanciando-se muito do sentido do texto original. O livro de Job é uma obra sobre o crer, sobre a fé verdadeira. A verdadeira fé persiste no momento da prova, não é apenas uma consequência das experiências de felicidade. E contudo, o que diz Jung? Jung diz: “Deus cria o bem e o mal. E decide ele o que é o bem e o que é o mal. Essa é uma decisão da sua omnipotência, não da nossa liberdade. E por isso tantas vezes não somos capazes de entender o bem e o mal. Quando isso acontece os homens rebelam-se contra Deus.” E acrescenta: “Há apenas uma pessoa - Job - que tem a coragem de levantar-se e dizer a Deus: 'Tu, ó Deus, és injusto porque me castigas a mim, inocente'”. Isto é a crítica moral a Deus. Job é um rebelde contra a norma divina. Contudo, escreve Jung, o livro de Job reserva-nos uma incalculável surpresa: “Deus enche-se de curiosidade e quer compreender as razões de Job. É então que entra no mundo Jesus Cristo, e Jesus Cristo está ao nível de Job porque é homem. Contudo sabe também as razões de Deus. Ao lado de Job está assim Jesus Cristo, que compreende quer as razões de Deus, quer as razões do homem. E é por isso que Deus deve explicar ao homem as razões do bem e do mal.” Há quem pense que esta obra de Jung seja uma parábola para descrever o signi-ficado da psicanálise: explicar as razões obscuras da-quilo que é o bem e daquilo que é o mal. Mas este é o significado de Job? Certamente não. Job tem um outro significado. Contudo vemos que deformando, degenerando a mensagem original, ainda assim se mostra que a Bíblia contém em si uma poderosa força hermenêutica, mesmo quando é levada para outras direcções.

A terceira e última imagem é a do modelo que eu chamo de transfiguração. Existem casos em que nós, exegetas, recorremos a muitas explicações para fazer compreender uma única frase bíblica. Muitas explicações para descrever a beleza e a fragrância de uma breve mensagem. Acrescentamos notas e notas ao texto bíblico. E contudo há artistas que o conseguem fazer de forma bastante mais concisa e fulgurante. Deixo dois exemplos. O primeiro é o de um pintor que me é muito caro, Caravaggio. Em Roma, na Igreja de San Luigi dei Francesi, há uma capela que representa as cenas fundamentais da vida do Evangelista Mateus. Uma das pinturas conta a sua vocação. Ora, a vocação de Mateus ocupa no Evangelho duas linhas, não mais, mas altera completamente a vida a este cobrador de impostos. A cena é descrita por Caravaggio deste modo: Jesus entra por uma porta e é iluminado lateralmente pela iluminação que provém da janela, uma luz lateral, impressiva, atravessada de emoção. E Cristo não diz uma palavra. Faz um gesto. Por outro lado, no escuro de um quarto que percebemos ser o lugar de cobrança das taxas, está Mateus e os seus empregados contando o dinheiro. Mateus olha espantado para Jesus que entra e que desenha para ele apenas um gesto: um dedo na sua direcção. Mateus não consegue desviar o olhar daquele dedo e do braço estendido de Jesus. Porquê? Porque é a citação do dedo e do braço do Criador de Miguel Ângelo na Capela Sistina. Adão adormecido é chamado ao Ser e à vida pelo dedo de Deus. O indicador de Deus. O que pretende dizer Caravaggio? O indicador de Cristo recria, redime a vida deste homem que estava apenas ligado às coisas, ao dinheiro, aos ídolos. Mateus não diz uma única palavra, faz apenas um gesto, que significa: “Serei eu? Serei eu o destinatário deste indicador? Desta mão? Desta obra criadora?” E todo o seu rosto se ilumina. A vocação é descrita como ruptura com um passado, mas sobretudo como dom da Graça. A pintura explica melhor que muitos tratados a Teologia da Graça e da liberdade humana.

Vocação de São Mateus. Caravaggio

E o outro exemplo a que quero aludir é um exemplo musical em torno a um salmo brevíssimo, modesto, que literariamente nem é uma obra-prima. É o salmo mais breve, o 117 em hebraico, com dezassete palavras apenas. É como um Glória ao Pai colocado no fim dos outros salmos. Existem nesta composição duas palavras que são fundamentais. O salmo é um salmo de louvor, Louvai o Senhor, e o motivo apresentado é “Veritas et Misericordia". Em hebraico são termos que indicam o laço entre duas pessoas que se amam, aliadas entre si. O sentimento é alguma coisa de intraduzível, de inefável. Como explicar isto? Precisaríamos sem dúvida de muitas palavras. Porém, se escutássemos agora as “Vésperas Solenes de um Confessor”, de Mozart, K339, voltaríamos a encontrar este salmo. E escutaríamos a música extraordinária que começa assim: “Israel e o seu Deus estão ligados por um amor de aliança, verdade e misericórdia.” Começa com o soprano, que num solo canta o louvor, o laudate. E sobe, sobe, sobe até ao cimo. A um nível altíssimo para a voz do soprano. A voz deve atingir Deus. Depois, o soprano, quando chega ao verso que diz “Veritas et Misericordia” cai, desce até nós. E começa o coro. Porque naquele momento é todo o povo, somos todos nós quem deve professar a fé na aliança de Deus. Deus não está na distância, como primeiro pensava o soprano subindo até ao céu. Ele é amor e fidelidade, e então, todos juntos cantam docemente estas últimas palavras. Mozart, sem saber nada de hebraico, explicou que o louvor sobe até Deus, mas Deus está aqui connosco, com o seu amor, e nós falamos-Lhe docemente, todos juntos.

Terminava estas reflexões com as palavras de uma poetisa de extracção hebraica, Nelly Sachs, a qual dizia, numa sua balada dedicada aos profetas, homens de palavra: “Se os profetas chegassem/ através da porta da noite à nossa obscuridade/ e procurassem um ouvido como pátria,/ um ouvido que escute,/ serias capaz de escutar?”. Esta é a grande pergunta. Devemos ter o ouvido livre, puro, o ouvido do coração, para escutar esta palavra que é, sim, sagrada, mas é também uma palavra bela, admiravelmente fascinante.

D. Gianfranco Ravasi
Presidente do Conselho Pontifício da Cultura

Universidade Católica Portuguesa, Lisboa, 19.06.2008

Observatório da Cultura 10

© SNPC | 12.11.2008

 

 

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