Observatório da Cultura
Cultura da Vida

Eu vim para que tenham vida, e a tenham em abundância (Jo 16, 21)

A cultura da vida é a expressão maior do amor do Criador pela sua criatura. Deus criou o homem à sua imagem e semelhança, redimiu-o ao entregar o seu próprio Filho, abrindo-lhe as portas da eternidade. O dever de respeitar a dignidade de cada ser humano, em cuja natureza se reflecte a imagem do Criador, tem como consequência que não podemos dispor da criatura arbitrariamente.

«A vida é o primeiro dos bens recebidos de Deus, e constitui o fundamento de todos os outros; garantir o direito à vida a todos, e de maneira igual para todos, é um dever de cujo cumprimento depende o futuro da humanidade (1)». «A Sagrada Escritura afirma: “Deus criou o homem à Sua imagem, criou-o à imagem de Deus; Ele os criou homem e mulher” (2). Por ter sido criado à imagem de Deus, o indivíduo humano possui a dignidade de pessoa; não é só alguma coisa, mas alguém, capaz de se conhecer, de se possuir e de livremente se dar e de entrar em comunhão com outras pessoas. Ao mesmo tempo, ele é chamado, pela graça, a uma aliança com o seu Criador, a dar-Lhe uma resposta de fé e amor que mais ninguém pode dar em seu lugar. [...] Numa síntese eficaz Santo Agostinho ensina: “Deus, que nos criou sem nós, não quis salvar-nos sem nós (3)” (4)».

Deus manifestou-se ao homem por meio da incarnação, tendo-o criado à sua imagem e semelhança, fez-se um como ele. Quer o prólogo do evangelho de São João, quer o início da carta aos Hebreus nos sublinham este facto. Ele que é a Vida, fez-se a vida do homem, para que este tenha a Vida que não acaba. O próprio Senhor Jesus afirmou ser e é o Caminho, a Verdade e Vida (5).

Desde toda a eternidade que Deus promove e cultiva a vida. O nascimento do Senhor Jesus, anunciado pelo anjo, fundamenta a noção de cultura da vida:

«Anuncio-vos uma grande alegria, que o será para todo o povo: Hoje na cidade de David, nasceu-vos um Salvador, que é o Messias Senhor (6)».

O pensamento antropológico cristão nunca pôs em causa a dignidade da vida humana desde o início da sua concepção até à morte. Nos primeiros séculos e, sobretudo tendo em conta os evangelhos de São Mateus e São Lucas sobre a gestação do Senhor Jesus e de São João Baptista, a questão nem se colocava. São Lucas ao falar de São João no seio de Santa Isabel usa o termo brefos (7) (infans in utero), com o qual depois se vai referir às crianças em geral brefê (8) (infantes).

Os Padres da Igreja mantiveram também uma posição uniforme relativamente a este tema da vida: a criança deve ser respeitada desde o seio materno. O testemunho mais antigo conhecido é do início do século II na Didaché (9) que sustenta que os filhos são obra de Deus. Podemos encontrar um ensinamento semelhante na Epístola de Barnabé (10). Clemente de Alexandria no Pedagogo (11) refere que não somos verdadeiramente humanos se não defendermos a criança desde o seio materno. Os testemunhos tornam-se verdadeiramente numerosos com os Padres Apologistas. Atenágoras no Oriente e Minúci o Félix em Roma sustentam que se deve tratar dos embriões pelo simples facto de serem seres vivos. No entanto, o autor mais peremptório é Tertuliano (12) que afirma como a dignidade da pessoa humana está presente desde a sua concepção:

«A nós, porém, interdito em absoluto o homicídio, não é lícito sequer desfazer o que foi concebido no útero, quando do sangue materno se vai extraindo ainda o necessário para plasmar o ser humano. Impedir de nascer é apressar o homicídio e é indiferente suprimir uma vida já nascida ou quebrá-la antes de nascer. O homem também é aquilo que será. Do mesmo modo em que todo o fruto está já na sua semente».

Para São Tomás (13) os comportamentos contra a vida humana implicam uma atitude adversa à criação e à vocação originária do homem para o amor. Uma cultura que favorece a violência contra a pessoa recebe em troca violência, sob a forma de terrorismo, racismo, purificação étnica, tortura, eutanásia, etc.

O Magistério da Igreja também sempre defendeu e promoveu a cultura da vida. Num período conturbado, após a II Grande Guerra, em que o homem parecia dominar as questões da técnica o Papa Pio XII alerta:

«O “conceito técnico da vida” é uma forma particular de materialismo, na medida em que oferece como resposta última à questão da existência uma fórmula matemática e de cálculo utilitário. [...] Um mundo assim conduzido não pode dizer-se iluminado por aquela luz, nem animado por aquela vida, que o Verbo, esplendor da glória de Deus (14), fazendo-se homem, veio comunicar aos homens (15)».

A cultura da vida foi tema central em todo o pontificado do saudoso Papa João Paulo II:

«Sem o sentido do transcendente, todo o tipo de cultura permanece um fragmento informe, como a torre de Babel incompleta. Não é possível construir uma verdadeira cultura e esquecer ou, até recusar o que ela implica: cultura significa “cultivação”, a começar por si próprio. Um homem sem cultura está em falta para com a obra que cada um deve a si próprio. Vida sem cultura é vida sem profundidade espiritual, sem abertura ao mistério; vida exposta ao risco de uma superficialidade regulada apenas pelas necessidades e pelo consumismo (16)». «O acto cultural apresenta-se [...] como uma decisão em favor da vida, do progresso e assim prolonga-se, de forma sempre renovada e dinâmica, ao longo da história das diversas culturas (17)». «A morte luta contra a Vida: uma “cultura da morte” procura impor-se ao nosso desejo de viver, e de viver plenamente (18)».

Em particular, na sua encíclica Evangelium Vitae, faz uma verdadeira apologia da vida:

«A Igreja sabe que este Evangelho da vida, recebido do seu Senhor, encontra um eco profundo e persuasivo no coração de cada pessoa, crente e até não crente, porque se ele supera infinitamente as suas aspirações, também lhes corresponde de maneira admirável. Mesmo por entre dificuldades e incertezas, todo o homem sinceramente aberto à verdade e ao bem pode, pela luz da razão e com o secreto influxo da graça, chegar a reconhecer, na lei natural inscrita no coração (19), o valor sagrado da vida humana desde o seu início até ao seu termo, e afirmar o direito que todo o ser humano tem de ver plenamente respeitado este seu bem primário. [...] O Evangelho do amor de Deus pelo homem, o Evangelho da dignidade da pessoa e o Evangelho da vida são um único e indivisível Evangelho. É por este motivo que o homem, o homem vivo, constitui o primeiro e fundamental caminho da Igreja (20)».

E alerta-nos para as novas preocupações sociais:

«Como há um século, oprimida nos seus direitos fundamentais era a classe operária, e a Igreja com grande coragem tomou a sua defesa, proclamando os sacrossantos direitos da pessoa do trabalhador, assim agora, quando outra categoria de pessoas é oprimida no direito fundamental à vida, a Igreja sente que deve, com igual coragem, dar voz a quem a não tem. [...] Espezinhada no direito fundamental à vida, é hoje uma grande multidão de seres humanos débeis e indefesos, como o são, em particular, as crianças ainda não nascidas. (21)».

O Mistério Pascal de Cristo é o expoente máximo da cultura da vida, a vitória da vida sobre a morte:

«Levantando os olhos para “o espectáculo” da cruz (22), poderemos descobrir, nesta árvore gloriosa, o cumprimento e a plena revelação de todo o Evangelho da vida. […] Também hoje nos encontramos no meio de uma luta dramática entre a “cultura da morte” e a “cultura da vida”. Mas o esplendor da Cruz não fica submerso pelas trevas; pelo contrário, aquela desenha-se ainda mais clara e luminosa, revelando-se como o centro, o sentido e o fim da história inteira e de toda a vida humana. Jesus é pregado na cruz e levantado da terra. [...] Revela-se assim, no momento da sua extrema debilidade, a identidade do Filho de Deus: na Cruz, manifesta-se a sua glória! Com a sua morte, Jesus ilumina o sentido da vida e da morte de todo o ser humano. [...] A salvação, operada por Jesus, é doação de vida e de ressurreição. [...] Os milagres, as curas e as próprias ressurreições eram sinal de outra salvação que consiste no perdão dos pecados, ou seja, na libertação do homem do mal mais profundo, e na sua elevação à própria vida de Deus. [...] Também hoje, voltando o olhar para Aquele que foi trespassado, cada homem com a sua existência ameaçada recobra a esperança segura de encontrar libertação e redenção (23)».

A cultura da vida não é reduto dos cristãos:

«O Evangelho da vida não é exclusivamente para os crentes: destina-se a todos. A questão da vida e da sua defesa e promoção não é prerrogativa unicamente dos cristãos. Mesmo se recebe uma luz e força extraordinária da fé, aquela pertence a cada consciência humana que aspira pela verdade e vive atenta e apreensiva pela sorte da humanidade. Na vida, existe seguramente um valor sagrado e religioso, mas de modo algum este interpela apenas os crentes: trata-se, com efeito, de um valor que todo o ser humano pode enxergar, mesmo com a luz da razão, e, por isso, diz necessariamente respeito a todos. [...] O Evangelho da vida é para bem da cidade dos homens. [...] De facto, não pode haver verdadeira democracia, se não é reconhecida a dignidade de cada pessoa e não se respeitam os seus direitos. Nem pode haver verdadeira paz, se não se defende e promove a vida (24)».

Em síntese podemos concluir:

«Cristo é o Verbo da Vida (25). Por isso, abrir as portas a Cristo quer dizer anunciar, celebrar e preservar o dom da vida. (26)». «A Igreja opõe-se à [violência] colocando-se ao serviço da vida humana em todas as suas fases e anunciando a presença do Deus da Vida na cultura actual, da qual tantos sinais de morte se tentam apoderar. Os motivos que a encorajam nesta tarefa estão para lá das razões derivadas da ciência, da mera compaixão, ou da simples filantropia. As suas raízes profundas encontram-se na fé em Deus que não só convida à existência, mas que a recria também com a graça, para a acolher por fim na comunhão trinitária. Por isso, a vida de cada pessoa, mesmo aquela que possa parecer mais inútil ou marginal, tem um valor infinito enquanto filha de Deus, e objecto do seu imenso amor (27)».

Afirmemos a cultura da vida do nascer ao morrer: a abundância de vida que Ele nos dá, que resplandece a Sua glória, sinal da Sua ressurreição, a plenitude da eternidade.

Isabel Maria Alçada Cardoso

 

 

(1) Cf. Papa Bento XVI, Discurso na Assembleia Geral da Pontifícia Academia para a Vida, Vaticano, 24.2.2007.

(2) Cf. Gn 1, 27.

(3) Santo Agostinho, Sermão 169, 11, 13.

(4) Cf. Papa Bento XVI, Mensagem para o Dia Mundial da Paz, Vaticano, 1.1.2007.

(5) Cf. Jo 14, 6.

(6) Cf. Lc 2, 10-11.

(7) Cf. Lc 1, 41.

(8) Cf. Lc 18, 15.

(9) Cf. Didaché II, 2.

(10) Cf. Epist. Barnabé XIX, 5; XX, 2.

(11) Cf. Clemente de Alexandria, Pedagogo, II, 10.

(12) Cf. Tertuliano, Apologético, IX, 8.

(13) Cf. São Tomás de Aquino, Suma Teológica, II-II, q. 64 a. 5 e 6; q. 122 a. 4-6.

(14) Cf. Hb 1, 3.

(15) Cf. Papa Pio XII, Radiomensagem natalícia, Vaticano, 24.12.1953.

(16) Cf. Papa João Paulo II, Aos representantes do mundo da cultura, Castelo de Praga, República Federal Checa e Eslovaca, 21.4.1990.

(17) Cf. Papa João Paulo II, Aos representantes do mundo da cultura, Salvador, Brasil, 20.10.1991.

(18) Cf. Papa João Paulo II, Homilia, Denver, Estados Unidos da América, 15.10.1993.

(19) Cf. Rm 2, 14-15

(20) Cf. Papa João Paulo II, encíclica Evangelium Vitae, 25.3.1995, n. 2.

(21) Cf. Idem, n. 5.

(22) Cf. Lc 23, 48

(23) Cf. Papa João Paulo II, encíclica Evangelium Vitae, 25.3.1995, n. 50.

(24) Cf. Idem, n. 101.

(25) Cf. Jo 1, 1-2.

(26) Cf. Papa João Paulo II, Aos jovens, Caracas, 11.2.1996.

(27) Cf. Papa João Paulo II, Aos bispos da Colômbia, Vaticano, 30.5.1996.

 

 

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