Observatório da Cultura
Abraçar a vida

Transformar vidas

Quase todas as manhãs há uma pessoa que no meu local de trabalho me acolhe com um sorriso rasgado e olhos brilhantes. De quem está bem com a vida. No outro dia abordou-me com uma pequena pergunta. Dias depois perguntei-lhe eu se o assunto tinha ficado resolvido e então contou-me um pouco da sua vida, das suas - não pequenas - dificuldades. Não sei mais nada sobre ela, mas percebi que provavelmente era uma daquelas pessoas que continuaria a ser feliz ainda que o mundo se desfizesse à sua volta. Não por alheamento, mas por compreensão profunda, mesmo se inconsciente, da vida e da felicidade humana. Em pólos diversos há quem se queixe em permanência de pequenas coisas e há quem silencie uma profunda angústia, uma dor enraizada, numa aparência de felicidade.

Vive-se um tempo de descrença nos outros, de imensa solidão, de cultura da auto-suficiência. Dá-se pouco, mas também se recebe pouco. Porque é muito difícil pedir e receber. Não se pede, porque se faz cerimónia, mesmo nas relações mais próximas, ou porque simplesmente não se está disponível para ser confrontado com a necessidade de retribuir. Não há pedidos de auxílio em coisas simples, corriqueiras. Vive-se em rede, mas só naquela que funciona via computadores. A rede de pessoas, de relações estreitas, é frágil. A aparência de que tudo está bem esconde feridas profundas. Mas é tão socialmente incorrecto dizer-se que se está mal (o que pouco tem a ver com aquele queixume da pequena desgraça quotidiana que é amplamente exercitado). As dores existem e não há quem as revele e tão-pouco quem as reconheça.

Vive-se um tempo de direitos, mas não se vive um tempo de deveres. E isto traz em si uma contradição, porque se alguém tem um direito, outrem terá potencialmente um dever, nem que seja o dever de abstenção de qualquer actuação que possa fazer perigar aquele direito. Num ambiente social e cultural favorável a poucos deveres e a muitos direitos, as grandes discussões existem em torno dos limites dos direitos, procurando à exaustão estabelecer hierarquias, compressões e expansões de direitos sem se falar propriamente dos deveres. Não existe uma cultura de responsabilidade pelo outro, pelos outros.

Abraçar a vida como cultura, viver uma cultura de vida implica perceber em primeiro lugar que a vida não é a nossa, mas a de todos, a dos que nos são mais próximos. Que por sermos pessoas temos direitos, mas também deveres e estes não serão menos que aqueles. Esta relação compreende-se impressionantemente bem na relação entre pais e filhos, na imensa responsabilidade que os pais têm perante os filhos, nos inúmeros deveres que têm junto deles, na extraordinária abnegação que implica criar um filho e ao mesmo tempo, e também por isso, no amor profundo que se revela no cumprimento de todo esse complexo de deveres. É esse dar-se, colocar o outro, que é indefeso e totalmente dependente, em primeiro lugar, que permite a compreensão íntima do outro e de si próprio. Deus mandou o Seu Filho, porque era a maneira mais eficaz de compreendermos o Seu amor. E quem tem filhos partilha de alguma maneira deste mistério. Sabe que o amor pelos filhos é permanente, incondicional, intimamente compreensivo das dificuldades e fragilidades de cada filho, todos eles diferentes. Sabe que o amor não se divide, dá-se a cada um na sua totalidade, por inteiro, como o Pai se nos dá na comunhão. E bem se compreende porque Deus se revela com facilidade às crianças e como a relação dos filhos pequeninos com os pais é também ela modelo da relação que gostaríamos de ter com o nosso Pai. A confiança profunda e a entrega total, mesmo sem compreender tudo, ou compreendendo pouco, ou mesmo compreendendo apenas o mínimo revelado no amor paternal, são um sinal visível de como gostaríamos de estar com o Pai.

Como os pais fazem com os filhos, amar incondicionalmente implica sair de si próprio, colocar o outro em primeiro lugar, estar atento, fazer sacrifícios se for preciso, perceber que a felicidade terrena é feita de um composto de coisas boas e más e amá-la assim. Ser capaz de dar-nos, o que implica deixar cair barreiras, dar, mas também pedir para receber, aceitar a necessidade que temos dos outros. Porque não é o mundo exterior que nos torna felizes, mas a imersão profunda no mundo interior, a descoberta do local fonte da vida, transformadora da nossa atitude, do nosso modo de ver e de viver as coisas. É essa descoberta que permite gostar da vida como ela é, com as suas alegrias, fragilidades, condicionantes, acasos. Cabe-nos transformar o acaso, bom ou mau, nesse espelho de Deus.

Assunção Cristas

Professora de Direito na Universidade Nova de Lisboa

© SNPC

 

 

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Marta Wengorovius
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