Pedras angulares
Primeira tradução da Bíblia para a língua portuguesa

Um português chamado João Ferreira Annes d'Almeida

A chamada Bíblia de Almeida é um marco da cultura e da língua portuguesa, mas entrar nela é penetrar numa desacertada nebulosa de complementos, emendas, revisões, edições, versões que se por um lado actualizam, também escurecem (e muito) o dado original.

A compreensão exacta da complexidade do labor do tradutor, do seu génio e limites, é um desafio ainda não abraçado.

A primeira referência a João Ferreira d'Almeida, em fontes internacionais, tem um tom picaresco, que quadra bem ao viajante que ele foi. Ocorre num livro de viagens pela Ilha de Ceilão, publicado na Holanda, em 1672. O autor, Filippe Baldeo, a exemplificar como os elefantes podem ser repentinamente perigosos, narra que "um ministro português Reformado", chamado João Ferreira d'Almeyda, quando fazia a viagem de Gale para Colombo, acompanhado de sua esposa", se viu em grande dificuldade, pois um elefante lançou a tromba contra a liteira da mulher. Os carregadores indígenas, como é de supor, lançaram-se a fugir e, se, ao final, ninguém se feriu, o certo é que, como se diz, não ganharam para o susto.

Mas sustos, confrontos, desamparos e fugas foi coisa que não faltou à bem temperada vida deste português singular. João Ferreira Annes d'Almeida nasce talvez em Torre de Tavares, Mangualde. Deve recordar-se que documentos antigos o apresentam como "nativo de Lisboa", mas é natural que para um estrangeiro da época, a escrever no Oriente, "Lisboa" fosse simplesmente uma iniciação generalista, sem muito rigor. Há, em relação ao nascimento nesse lugar da Beira Interior, ausência de qualquer atestação documental: permanece apenas como "a tradição que todos aceitam" (Hallock-Swellengrebel). Contudo, se considerarmos a importância eclesial que a figura de Almeida ganhou, desde cedo, para os cristãos reformados, este argumento deixa de parecer tão frágil. Quanto à data há outras certezas. No prefácio que apõe á sua tradução do opúsculo Differença D'a Chiristandade, e que constitui peça-chave para sondar a sua biografia, ele mesmo escreve: "Ao segundo ano de minha Conversão, que foi o de 1644, e de minha idade, o 16". Contas feitas, chegamos à data de 1628.

Começou Almeida, naturalmente, por ser conduzido dentro do catolicismo, inclusive por um tio eclesiástico, que lhe serviu de tutor. E isto já na cidade de Lisboa. Assim, porventura, se explica o invulgar apetrecho cultural e linguístico que, tão precoce, há-de manifestar. Sirva-nos, para um relance a essa estação da sua vida, a passagem do estudioso Eduardo Moreira: "Em casa do tio clérigo se conservou ele até aos catorze anos incompletos, educado nas virtudes e manhas, se as tinha, do seu protector. Certamente passou da gramática ao latim e, porventura, á lógica. Certamente ajudou á missa, conheceu a tábua de Pitágoras, o Lunário Perpétuo, folheou com mão esperta alguma História Sagrada e decorou João de Barros."

Mas aos 14 anos, incompletos!, sem que o contexto seja muito claro, parte para a Holanda e, dali, para o Oriente. A surpresa desta decisão e o silêncio das suas razões, faz com que avultem as hipóteses mais díspares. Seria ele apenas um adolescente foragido, um pouco vexado pelo autoritarismo do tutor eclesiástico? Ou partiu deslumbrado pela oportunidade económica? Viajou sozinho ou acompanhado? É verdade que o imenso poderio militar holandês se servia de contingentes de contratados, aventureiros e esquivos. Teria Almeida acompanhado um adulto, até um familiar, quem sabe, com o fito de servir os novos senhores do vasto comércio oriental? Ou a motivação de fundo foi já religiosa? Foi ele induzido por alguma voz ou tendência judaizante, visto a Amesterdão da época ser capital de cristãos-novos e judeus de origem portuguesa? Pode crer-se que o adolescente que cirandava por Lisboa, disperso e disponível, por entre a fermentação ideológica e social desse tempo, tenha clandestinamente contactado com o cristianismo da Reforma?

Qualquer que tenha sido o motivo para tão inesperada evasão, o que se sabe é que ela determinou tudo: a equação do seu passado e do futuro, as renúncias, as permutas, os trabalhos e as paixões.

O ano de 1642 é um marco fundamental da cronologia de Almeida. Larga da cosmopolita Amesterdão, passa por Batávia (actual Jacarta), a caminho de Malaca. E precisamente nesse tempo de viagem do qual nada se sabe, nessa travessia da mocidade por uma vastidão desconhecida, diante desse algures ou nenhures, dá-se aquilo que Ferreira d'Almeida apelida como "conversão": "Aquele Benigno Pae d'as Luzes, de quem procede todo bem, por sua infinita Misericordia taõ immerita e inopinadamente, logo 'nos primeiros Annos da minha Mocidade foi servido trazerme ao Saudável Conhecimento de sua Divina Verdade: 'no mesmo instante se serviu logo tambem de em mim prantar hum ardente e inextinguivel Zelo e Desejo de, conforme a o Talento que de sua paterna e liberal Maõ recebera, o comunicar tambem...". De que modo a verdade, ou o sentimento dela, se fez, no improvável daqueles confins, acesa e possível? O próprio protagonista explica ter sido consequência da leitura do folheto Differença D'a Christandade, "este livrinho em Castelhano, que por Sua Divina Graça, indo daqui para Malaca, o Anno de 1642, foi servido de me deparar".

Dos 14 aos 23 anos de idade, João Ferreira de Almeida vive nessa praça. Aos 16 mete-se "a traduzir do Castelhano em Português algumas Epístolas & Evangelho d'os Santos Apóstolos e Evangelistas". Foi um início talvez prematuro e humílimo, mas vertendo aquilo que os nossos vizinhos tinham já há muito colhido das Escrituras para o seu linguajar, e fazendo cópias à mão para o distribuir pelas comunidades de Malaca, Batávia e Ceilão, encetou Almeida não apenas a habilidade de um ofício, mas o limiar irremediável de um destino. Em 1648 talvez, aconteceu o seu casamento com a filha de um pastor protestante holandês. Nesse ano foi nomeado Visitador de Doentes, o grau mais baixo na hierarquia calvinista: "percorria diariamente os hospitais e casas de doentes, animando e consolando a todos com suas orações e exortações" (Hallock-Swellengrebel). Em Janeiro do ano seguinte já era diácono, membro do clero de Malaca. Traduz o opúsculo Differença D'a Christandade, ao qual está compreensivelmente apegado, mas, por esse documento, sabemos que Almeida havia já transposto para português o Catecismo de Heidelberg e a Liturgia Reformada. Nessa data, e razões conclusivas mais uma vez escasseiam, demite-se do encargo de diácono naquela praça-forte e parte para Batávia, sendo integrado na Igreja local.

Estuda então Teologia intensamente, um pouco ao avesso daquilo que intencionava, pois que o colocam numa espécie de compasso de espera, provando-o antes de lhe outorgarem as responsabilidades pastorais que ele almeja. Esses tempos, contraditórios e doridos, contra os quais muitas vezes ele se revolta, acabam por se revelar providenciais. Volta às traduções do Novo Testamento, se bem que ainda não operando com os textos gregos originais. Em 1652 o Conselho da Igreja aprecia Os Quatro Evangelhos e Actos dos Apóstolos, traduzidos em português pelo visitador de doentes, João Ferreira, e atribui-lhe uma quantia equivalente a um mês e meio de trabalho.

Passará por provações muito grandes. Pede autorizações que não recebe, o seu processo de promoção emperra, quando se resolve um conflito ou uma desconfiança outros irrompem de outra parte, é colocado sob vigilância teológica. Só em 1656, a 16 de Outubro, viria a ser ordenado ministro com a imposição das mãos. Contava então 28 anos de idade.

De 1656 a 1663 partirá como Ministro Pregador em missão para Ceilão e sul da Índia. Mas essa distância não atenua o clima de suspeição que o rodeia. Experimenta hostilidades que derivam das interpretações ambíguas da sua dupla pertença: pela sua cidadania é menorizado face aos holandeses. Chega a ser proibido de pregar em português, porque era a língua da potência rival. Mas, por estar ao serviço dos holandeses como ministro ordenado da Igreja calvinista, é perseguido junto dos portugueses, que o consideram apóstata. O seu retrato teria sido queimado publicamente em Goa. E os missionários católicos travam com ele, e acerca dele, incendiadas polémicas. Da sua actividade literária, neste período, há apenas a notícia da tradução de alguns salmos. Tudo somado, a expedição missionária de Ferreira d'Almeida revela-se um fracasso e, perante a crueza dos factos, o Conselho de Batávia pede-lhe que volte o mais depressa possível.

Regressa então para a segunda e definitiva estadia em Batávia. Tinha 35 anos de idade e corre o ano de 1663. Dedica-se Ferreira ao serviço pastoral. Preside à liturgia junto dos chamados «portugueses negros», pessoas da mais humilde condição e de profusas raças, falantes de português quando ali já não havia nome de Portugal. Elabora folhetos catequéticos, polemiza com os missionários católicos, pede mais livros sagrados em língua espanhola, revê e imprime na oficina gráfica do governo de Batávia a sua tradução das Fábulas de Esopo, queixa-se das intempéries climatéricas, tem muitos achaques, trabalha poeticamente os Salmos para serem cantados, termina a tradução, a partir do grego, do Novo Testamento (1676), espera e desespera pelo imprimatur que não lhe dão e não chega... Tudo o que lhe diz respeito ganha uma lentidão enervante, pois se os méritos são reconhecidos, o poder holandês não vê com bons olhos a difusão da língua da potência comercial que veio a suceder. Por fim anunciam-lhe que o seu Novo Testamento será editado em Amesterdão e, quando o recebe, conta "mil erros", que ele próprio corrigirá à mão, como o prova o único exemplar que se conhece, e que está em depósito na Biblioteca Nacional.

Superada esta prova, deixam-no então, livre de todo o trabalho pastoral, para se dedicar a traduzir o Antigo Testamento, tomando para esse projecto talvez o Hebraico, certamente o latim da Vulgata e traduções em línguas que dominava. Nesse trabalhará até a altura da sua morte, em 1691. Na sua tradução tinha chegado até Ez 48, 21, que reza assim: "E o que restar será para o príncipe; desta e da outra banda da santa oferta, e da possessão da cidade, diante das vinte e cinco mil canas da oferta, na direcção do termo do oriente e do ocidente, diante das vinte e cinco mil, na direcção do termo do ocidente, correspondente às porções será a parte do príncipe: e a oferta santa e o santuário da casa estarão no meio." Poderia, este passo, quase ser um fragmento da sua vida: o oriente e o ocidente congraçados, a oferta e o santuário que se atravessam como centro, "e o que restar", que é sempre um saber que se não sabe.

Traduzira assim o português João Ferreira Annes d'Almeida todo o Novo Testamento e cerca de 90% do Antigo Testamento. Há divergências quanto à autoria final dos complementos. O que confirma, com certeza, é que o Rev. Jacobus op den Akker, missionário companheiro de Almeida, teve um papel decisivo nesse processo.

P. José Tolentino Mendonça

Este texto faz parte da apresentação da obra "Bíblia Ilustrada" (vol. I), Assírio & Alvim.

© Assírio & Alvim

 

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