Pedras angulares
Relatos de um Peregrino Russo

A cadência orante do coração

Vagueei, durante muito tempo, por vários lugares, tendo como companhia a oração de Jesus, que me animava e confortava ao longo dos caminhos, em todas as ocasiões e em todos os encontros. Por fim, apercebi-me que o melhor era instalar-me num lugar onde pudesse ficar em solidão, para estudar a “Filocalia”, qua andava lendo aos bocadinhos, quando parava para passar a noite ou quando, durante o dia, parava para descansar. Cada vez era maior o desejo de aprofundar esse estudo e de, com fé, através da oração do coração, poder retirar dele o ensinamento verdadeiro para a salvação da minha alma. Mas, por maior que fosse o meu desejo, eu nunca poderia encontrar, em qualquer lugar, um trabalho manual, pois desde tenra idade que não conseguia mover com destreza o meu braço esquerdo. E, então, pela impossibilidade de arranjar um abrigo permanente, encaminhei-me para terras siberianas, onde vivia o bem-aventurado Inocêncio de Irkutsk, pois, ali, nas estepes da Sibéria, encontraria o isolamento e o silêncio que procurava e poderia, mais facilmente, dedicar-me á leitura e à oração.

Assim, fui caminhando, não deixando de fazer a minha oração permanente. Finalmente, passado algum tempo, comecei a sentir que a oração, por si própria, passava para o coração, isto é, o coração no seu próprio ritmo, lá no seu interior, começou como que a dizer as palavras da oração, acompanhando a cadência: 1 – Senhor… 2 – Jesus… 3 – Cristo… e assim por diante. Deixei de dizer a oração com os lábios e comecei a escutar com fervor o que dizia o coração, lembrando-me o que me ensinara o falecido monge. E como isso era agradável! Entretanto, comecei a sentir uma ligeira dor no coração, mas, no espírito, um amor tão intenso por Jesus Cristo, que, se o visse, me prostraria a seus pés, nunca mais o deixando, e agradecendo-lhe esta consolação que é dada, em seu Nome, na sua piedade e amor, à sua criação, pecadora e indigna.

São Paulo
São Paulo: "Orai sem cessar" (1 Ts 5, 17)

Depois, serenamente, irrompeu um calor agradável no meu coração, que se espalhava por todo o peito. Isto fez com que me dedicasse afincadamente à leitura da “Filocalia”, para analisar estas minhas novas sensações e estudar como se desenvolve a oração interior do coração, pois sem esta confirmação receava iludir-me e cair no fascínio, como me avisara o monge, por ter aprendido rapidamente a oração. Por isso, passei a caminhar, principalmente à noite, dedicando os dias à leitura da “Filocalia”, sentado à sombra das árvores da floresta. Ah! Quanta coisa nova, quanta sabedoria me proporcionou essa leitura! Este exercício causou-me uma tal alegria, que é difícil de imaginar. Na realidade, encontrei no livro algumas passagens incompreensíveis para a minha inteligência, mas os efeitos resultantes da oração do coração esclareciam o que eu não compreendia. Por vezes, sonhava com o meu monge, que me explicava muita coisa, e, acima de tudo, guiava a minha alma para o caminho da humildade. E assim me deleitei por mais de dois meses. Caminhava principalmente pelo interior da floresta e por trilhos isolados. Quando chegava a uma aldeia, pedia uma sacola de pão, um punhado de sal, um cantil de água e preparava-me para fazer mais uns cem quilómetros.

 

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Introdução aos "Relatos de um Peregrino Russo", por Cristina Campo

 

in Relatos de um Peregrino Russo, Paulinas

Publicado em 13.02.2008

 

 

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