Pedras angulares
Leitura » D. António Ferreira Gomes

Ser bispo conciliar no exílio

O livro “Ser bispo conciliar no exílio - 1959-1969”, que reúne extractos do pensamento de D. António Ferreira Gomes (1906-1989), antigo Bispo do Porto, foi lançado numa cerimónia que decorreu em Vila Nova de Gaia no dia 29 de Dezembro.

Para D. Manuel Clemente, que apresentou o livro, esta obra é importante para que nas comunidades cristãs se perceba que elas precisam de se libertar dos condicionalismos que apoucam o Homem, a sua grandeza e a sua esperança.

Por outro lado, continuou o prelado, este escrito de D. António Ferreira Gomes liga-se muito bem com o apelo que o Papa Bento XVI fez aos bispos portugueses aquando da sua visita «ad limina»: é muito importante que a Igreja não se enrede em questões organizacionais internas, mas que fale de Deus às pessoas.

D. António formou-se em Filosofia pela Universidade Gregoriana de Roma. Norteou o seu serviço à Igreja pela difusão dos valores da liberdade e da dignidade do homem, segundo a divisa “in lumine tuo videmus lúmen”. Foi Bispo de Portalegre entre 1949 e 1952 e Bispo do Porto entre 1952 e 1982.

D. Carlos Azevedo retrata desta maneira o período de exílio, que não pôde interromper nem para acompanhar o funeral da mãe:

"Saindo do país a 24 de Julho de 1959, por ser aconselhado a retirar-se uns tempos para férias, é depois proibido de entrar. Vê-se forçado a um exílio de dez anos, iniciado em Vigo e depois continuado em Santiago de Compostela, Valência – onde colabora na acção Pastoral -, Lourdes, Ciudad Rodrigo e Salamanca. Neste locais recebe frequentes visitas de amigos e apoio da diocese do Porto, que soube ser fiel e digna no exílio do seu bispo.

Durante o Concilio está em Roma, é membro da Comissão dos Seminários e Estudos, e participa na aula conciliar com intervenções de interesse, relativas ao esquema dos bispos, do ecumenismo, da Igreja no mundo e da liberdade religiosa (1963-1965), talvez esta a mais pertinente. Juntamente com o portuense D. Sebastião Soares de Resende, tem as intervenções mais relevantes da débil presença portuguesa no II Concilio do Vaticano.

No ano de 1969, devido a diligências da ala liberal, em colaboração com padres diocesanos actuantes junto da Nunciatura, Marcelo Caetano autoriza a sua entrada em Portugal. Começa o esforço de retomar e de redescobrir a diocese e de a reestruturar no estilo do Concílio."

Seguidamente, excertos do pensamento de D. António Ferreira Gomes durante o exílio.

“Não sei se serão dez ou vinte anos, se toda a vida, que terei de ficar em testemunho pela liberdade da minha Igreja, vinctus Christi como Paulo, lançado às “trevas exteriores” da Pátria, mas na comunhão da Igreja, nossa Pátria espiritual universal.” (Igreja, 29.)

“Que fazer?... Um bispo, com tempo disponível, que fará?... Tratado, controvérsia, apologética, solilóquio, que hei-de fazer?... Deus nobis haec otia fecit - dizia o suave e amável Virgílio, ao abrir uma das suas Éclogas. A mim, bispo do Porto, um “deus” bem minaz e soberano condenou-me aos ócios do desterro; que fazer então?” (Igreja, 29)

“A experiência da vida ensina-nos eficazmente aquilo que os nossos maiores nos pregaram, talvez sem grande eficácia: que a carreira da nossa vida não é uma trajectória lisa e direita mas antes uma vereda cheia de curvas e laçadas, uma gradativa e penosa ascensão” (Igreja, 34).

“... ainda não me aposentei nem queria transformar-me em estátua de sal. Não me interessa o passado, pelo passado, mas sim pelo presente e pelo futuro.” (Igreja, 35)

“Se pois foi por esses obstáculos que subimos, porque desdizer ou guardar ressentimentos contra os que nos forçavam a dar a nossa medida e que, em vez de obstáculos, se tornaram pontos de apoio?...” (Igreja, 34)

“Perspectiva e prospectiva são os dois extremos entre os quais oscila a lançadeira e se tece a vida do homem, como ser no mundo e na história” ( Pareceu, 112)

“O futuro a Deus pertence: e está muito bem entregue. A nós apenas compete reconhecer que para lá vamos; e que é melhor avançarmos de frente. Na verdade não seria bonito entrarmos no futuro... às arrecuas.” (Igreja, 31)

“Entre o ‘medo católico’ e a ‘agressividade católica’ há uma imensa zona livre, que é a frente eclesial sem complexos nem compromissos” (Pareceu, 83)

“Não é o culto nem a piedade, mas o magistério da Igreja que faz mossa a todo e qualquer totalitarismo” (Pareceu, 228)

“Não admira que a dialéctica paulina entre a lei e a graça ou a fé, que está entre os fundamentos primeiros do progresso cristão e da evolução ético-democrática, seja tão pouco falada [...]” (Cartas, 97).

“Não pode haver soluções sem problematização; aqui a cruz de todas as coordenadas da Graça em acção! [...] Tudo isto tem portanto de obedecer à história para fazer história...” (Pareceu, 230-231)

“No actual momento da história parece que a norma desejável seria algo como isto: na vida e acção da Igreja tanta diplomacia quanta seja ainda necessária ou útil e tão pouca quanto seja possível.” (Cartas, 215).

“Não será preciso acrescentar mais exemplos para mostrar como e quanto a existência do mal no mundo contribui ou interfere com a afirmação e progresso do agnosticismo e ateísmo no mundo contemporâneo.” (Cartas, 165).

“Tudo quanto me fizeram ou deixaram que se me fizesse, descartando naturalmente o ódio, malevolência ou cobardia, que não posso aprovar, tudo contribuiu para dar sentido à minha vida e valor ao meu testemunho.” (Igreja, 35).

“O discernimento cristão deve levar a amar a lei pelo bem da lei e não por motivos legalistas de sanção ou de pecado.” (Cartas, 96).

“Só há uma coisa mais dramática que deixar-se conduzir pela vida: é deixar-se amar por Deus” (Igreja, 33).

“A Lei nova, promovendo a liberdade dos filhos de Deus, vai a caminho da civilização do Amor, em que as leis, quer civis quer religiosas, são queridas pelo próprio bem da lei e como princípio da paz e liberdade...” (Cartas, 99).

“O Reino de Deus não tem de colidir com os ‘reinos’ do Homem, porque os supera, passa-lhes por cima sem necessidade de choque”. (Cartas, 99)

“A Igreja emitiu uma série de documentos [... ] que podiam chamar-se justamente a Magna Charta .da Igreja aberta a uma sociedade aberta, e ainda a ‘Carta da liberdade’ nova”
(Pareceu, 30)

“Consolei-me a dizer sim a quase todos os projectos [do Concílio] e de votar placet a todos os documentos definitivos, e isto não por mera resignação mas por adesão íntima e feliz. Tranquilizei-me pois até ao fundo no meu essencial sentire cum Ecclesia...” (Cartas, 296).

“Quem tem alguma coisa de novo e moralmente valioso a dizer aos homens do seu tempo não deve esperar imediata compreensão” (Carta à mãe, 23.7-1965)

“A Igreja foi fundada e pregada como núcleo do Reino de Deus neste mundo; como tal tem de permanecer e ser pregada. Foi esta a missão que Cristo Lhe confiou, na pessoa dos Apóstolos: que pregassem o Evangelho a todos e Lhe fizessem discípulos e entre todos os povos da terra.” (Cartas, 97).

“A verdadeira tradição portuguesa, clara e evidente nos dois pólos, mas discutível de um extremo ao outro da nossa colonização, não é racista nem segregacionista, nem propriamente imperialista” (Igreja, 255)

“Este paternalismo constantiniano, tão erradamente apelidado de ‘concordata de separação’, é um envelhecimento de Cristandade tão constantemente adiado” (Igreja, 275)

“Tantos jovens generosos se afastam de uma Igreja que só lhes aparece o abrigo, o porto dos medrosos e dos mesquinhos, dos submissos e obedientes, dos acomodantes e acomodados” (Igreja, 278)

“A ‘pastoral da inteligência’ deve pois começar por reconhecer a ‘modernidade’, com os seus riscos, como a grande oportunidade para a evangelização da inteligência, da qual deve descer, como das montanhas desce a água da chuva, o exemplo e o estímulo para o ‘florescimento do deserto’.” (Cartas, 85).

De D. António Ferreira Gomes escreveu Sophia de Mello Breyner:

Na cidade do Porto há muito granito
Entre névoas sombras e cintilações
A cidade parece firme e inexpugnável
E sólida – mas habitada
Por súbitos clarões de profecia
Junto ao rio em cujo verde se espelham as visões
Assim quando eu entrava no Paço do Bispo
E passava a mão sobre a pedra rugosa
O paço me parecia fortaleza
Porém a fortaleza não era
Os grossos muros de pedra caiada
Nem os limites de pedra nem a escada
De largos degraus rugosos de granito
Nem o peso frio que das coisas inertes emanava
Fortaleza era o homem – o Bispo –
Alto e direito firme como torre
Ao fundo da grande sala clara: fortaleza
De sabedoria e sapiência
De compaixão e justiça
De inteligência a tudo atenta
E na face austera por vezes ao de leve o sorriso
Inconsútil da antiga infância.

 

Conheça o «site» da Fundação Spes, fundada por D. António Ferreira Gomes.

Veja a reportagem da apresentação da obra "Ser bispo no exílio" (RTP).

RTP | Fundação Spes

Publicado em 31.12.2007

 

 

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