
«Jesus de Nazaré», de Bento XVI-Joseph Ratzinger, reeditado com extraordinário aparato iconográfico
Depois de ter publicado a obra "Jesus de Nazaré", de Bento XVI - Joseph Ratzinger, a editora "A Esfera dos Livros" apresentou recentemente uma nova edição do mesmo texto, enriquecida com dezenas de ilustrações inspiradas na Bíblia, em particular na vida de Cristo.
A medida das reproduções - em A3 e A4 - obrigou ao aumento das dimensões deste volume em relação à versão exclusivamente textual. Outra diferença consiste na utilização de papel de qualidade superior, preservando deste modo a beleza das imagens seleccionadas.
Como refere D. Giangfranco Ravasi no prefácio que adiante transcrevemos, as páginas desta obra «estão consteladas por um extraordinário e sumptuoso aparato iconográfico. Será como fazer uma peregrinação a um mundo de imagens admiráveis; será como seguir um percurso no interior de uma galeria de arte que se distende pelos séculos». É, por isso, um livro para guardar, oferecer e partilhar.
Prefácio
Tinha sido uma pergunta seca e inesperada, e caíra no meio daquele pequeno grupo de homens que caminhavam no território de um distrito da Galileia, onde surgia a cidade de Cesareia de Filipe e onde o Jordão, o rio que atravessa toda a Terra Santa, começava o seu curso: «Mas vós quem dizeis que Eu sou?» (Mt 16,15). Aquela pergunta de Jesus nunca mais deixou de acompanhar a humanidade nem de provocar as respostas mais diversas, como tinha acontecido naquele dia longínquo. Houve quem com irritação teve de reconhecer que Cristo se lhe atravessava no caminho, tornando-se inevitável. Como, por exemplo, tinha confessado o poeta russo Aleksandr Blok o qual, em 1918, em plena revolução soviética, anotava no seu diário: «Acabei agora o poema «Os Doze» e eu próprio me admirei: por qual razão falar ainda de Cristo, precisamente de Cristo E no entanto vejo sempre mais distintamente Cristo. Infelizmente Cristo! Infelizmente ainda Cristo!»

A entrega das tábuas da lei a Moisés (Giotto)
Mas também houve quem tenha compreendido que responder àquela pergunta teria sido como alterar radicalmente a vista e a vida em direcção a uma luz ofuscante. Foi o grande cidadão de Praga, o hebreu Kafka, quem confidenciou ao amigo Gustav Janouch: «Cristo é um abismo de luz. É preciso fechar os olhos para não nos precipitarmos nele.» Mas houve também quem se pôs à procura de uma resposta, aparentemente sem a encontrar, mas sempre lançando-se para a frente a fim de intuir os traços daquele rosto que o interpelava. Foi, por exemplo, o escritor argentino Jorge Luís Borges o qual no poema «Cristo na cruz declara»: «O seu não é o rosto dos pintores. / É um rosto duro, hebreu. / Não o vejo / e insistirei em procurá-lo / até ao dia / dos meus últimos passos sobre a terra». Mas houve também quem tenha encontrado uma resposta àquela interrogação, como aconteceu naquele dia ao apóstolo Pedro.

A tentação de Cristo na montanha (Briton Riviere)
Entre estes está também Bento XVI, o qual, na abertura ao seu «Jesus de Nazaré», reconhece que o livro nasce de «um longo caminho interior», cuja abordagem é clara e bem definida. De facto, na última frase do volume, a voz do Papa associa-se à da «Igreja que diz juntamente com Pedro sempre de novo a Jesus: Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo». A resposta convincente àquela pergunta contém, portanto, dois elementos: por um lado, há um homem, Jesus de Nazaré que tem um rosto humano, fala uma língua local, está situado entre coordenadas geográficas e históricas definidas; por outro, porém, n’Ele se oculta a epifania divina por excelência, «o Filho do Deus vivo». Esta unidade, à primeira vista desconcertante, tem sido celebrada ao longo dos séculos pela fé crista, mas também tem sido repetidamente negada, até a cancelar um ou outro destes dois perfis, ora o humano, porque incompatível com o mistério glorioso do Filho de Deus, ora o divino, porque inconcebível com um ser humano.

O exército dos anjos (Guariento di Arpo)
Também a cultura moderna repropôs o oscilar deste pêndulo ideal, a partir do séc. XVIII, quando se começou a despojar Jesus de Nazaré do manto divino, considerando esta dimensão quase como um efeito óptico ilusório da fé cristã, uma espécie de jogo pirotécnico ideológico criado pelo mito. Mas como reacção eis que aparece o outro pólo daquela oscilação: Cristo é o Verbo eterno e infinito e é apenas n’Ele que os nossos olhos devem fixar-se, ignorando a carnalidade do seu rosto, a história dos seus actos, elementos pálidos, inconsistentes, inverificáveis. Em ambos os casos estava sempre de permeio um corte nítido entre o Jesus da história e o Cristo da fé. Foi precisamente nesta fenda que quis colocar-se Bento XVI tentando colmatá-la, reconstituindo a unidade da pessoa de Jesus Cristo como estava delineada na resposta de Pedro naquele dia distante, vivido na sombra dos montes que confinavam a Palestina perto da cidade de Cesareia denominada de Filipe, em honra de um dos filhos do rei Herodes.

A entrada em Jerusalém (Maestro di Tolentino)
O itinerário que o Papa propõe compreende duas grandes trajectórias. A primeira é, aqui, nas doze etapas deste volume. Elas partem precisamente do Jordão, que corre ao longo do vale destinado a desaguar no mar Morto, o ponto mais baixo da superfície do nosso planeta, com os seus 400 metros abaixo do nível do mar. É, de facto, com o Baptismo de Jesus que começa a reconstrução da fisionomia plena e realizada daquele homem que tem um pai anagráfico legal, mas que foi gerado na eternidade pelo Pai divino. Daquelas águas procederemos penetrando no deserto da Judeia com a tempestade das tentações satânicas, escutaremos a voz deste homem subindo com Ele a um monte, contemplá-lo-emos enquanto reza, abrir-se-ão diante dos nossos olhos os cenários das suas parábolas, segui-lo-emos em companhia dos seus discípulos, levantar-se-ão solenes os símbolos que Ele evoca (água, videira e vinho, pão, pastor e rebanho), assim como impressionarão as suas autodefinições hieráticas e até provocatórias.

A fuga para o Egipto (Odilon Redon)
E no fim desta primeira trajectória textual, eis que se delineiam dois quadros em contraponto entre si: sobre o cume do monte da Transfiguração temos o desvelamento emocionante, mas transitório, do mistério que se esconde sob o perfil deste hebreu descendente do povo dos patriarcas, dos profetas e de David; mais além, todavia, está a resposta humana perante esta epifania e são precisamente aquelas palavras de Pedro que nos estão acompanhando desde o início destas nossas breves notas introdutórias. Naquele ponto vai abrir-se uma outra trajectória e é aquela anunciada por Bento XVI e ainda em elaboração sob a sua pena: deveremos seguir Jesus de Nazaré não só até ao cimo do Gólgota-Calvário, onde se consuma tragicamente a sua existência histórica, mas até ao cimo do monte das Oliveiras onde brilhará, tendo o céu como fundo, a glória do Ressuscitado, d’Aquele que é transcendente a respeito do nosso horizonte e, precisamente por isto, pode dizer do seio da sua eternidade e do infinito divino: «Eu estou convosco todos os dias, at ao fim do mundo» (Mt 28, 20).

O lava-pés (Maestro della Passione)
O teólogo Joseph Ratzinger, para este itinerário, confia-se constantemente a um guia: são as 64327 palavras gregas que compõem os quatro Evangelhos. «Quis fazer a tentativa, confessa, de apresentar o Jesus dos Evangelhos como o Jesus real.» Note-se aquele adjectivo «real»: não automaticamente sinónimo de «histórico», porque sabemos bem que muitos eventos não estão registados, não são documentáveis nem verificáveis historicamente, e no entanto, são profundamente reais. Em Jesus coexistem precisamente dimensões diversas, históricas, místicas e transcendentes. É, então, o Jesus «real» que tomado em consideração e que lentamente revela nestas páginas os seus lineamentos. N’ Ele é preciso reconhecer, certamente, os traços do caminhante que, como naquele dia em Cesareia de Filipe, avança pelas estradas poeirentas de uma província perdida do império romano, falando com os seus amigos. N’ Ele, porém, deve também descobrir-se o perfil secreto que espreita nas suas palavras únicas e emocionantes, nos seus gestos prodigiosos, nas suas revelações altíssimas. Somente se estes dois esboços se combinam entre si e coexistem no único retrato, é que temos o Jesus Cristo «real» e não só o Jesus «histórico» ou o Cristo «teológico».

Ecce Homo (Georges Rouault)
É, por isso, necessário que sobre ambos estes aspectos se concentre a pesquisa e é precisamente a tarefa da obra de Bento XVI, que quer manter em equilíbrio harmónico a humanidade e a divindade de Cristo. Queremos simbolicamente apresentar este empreendimento precisamente com o monte da Transfiguração que sela de um modo ideal o livro e a primeira trajectória da viagem cristológica proposta pelo Papa. Há antes de mais uma subida para realizar: um caminho na penumbra, e é o da história de Jesus com todas as suas componentes para verificar e examinar, através de uma análise fatigosa e às vezes árdua. Mas há também o cimo do monte onde Cristo «se transfigura»: em grego fala-se de «metamorfoses», porque se manifesta uma outra natureza de Cristo, a divina, antecipando assim o desvelamento pascal. Como fizeram os evangelistas, não é preciso dissolver a história, a «carne» de Jesus no remoinho da luz da glória divina, nem obscurecer esta última detendo-se na superfície da pele humana daquele homem. O eterno divino aninha-se no presente cronológico de Jesus Cristo, cuja identidade «real» está na unidade de uma pessoa que é «historicamente sensata e convincente», embora contendo em si uma suprema dimensão transcendente.

Job (Marc Chagall)
Não devemos, portanto, nem determo-nos durante a subida ao longo das vertentes daquele monte, à procura somente do Jesus histórico, nem acampar no cume como queria o apóstolo Pedro, armando a tenda da contemplação do mistério do Cristo glorioso. Toda a dissociação entre Jesus e Cristo, entre o homem e o Filho divino desconjunta a figura «real» de Jesus Cristo. É um risco que Bento XVI ilustra recorrendo a uma outra montanha, a que deu o nome ao célebre discurso de Jesus contido nos capítulos 5-7 do Evangelho de S. Mateus. O Papa adopta a viva «encenação» elaborada em 1993 pelo hebreu americano Jacob Neusner na sua obra «A Rabbi talks with Jesus» (Um Rabino fala com Jesus). Este decide sentar-se entre os discípulos que escutam o mestre de Nazaré e estabelece um diálogo interior com Ele encontrando uma plena sintonia: a descoberta de uma espiritualidade ligada à genuína tradição bíblica e judaica. Mas progressivamente vai-se formando uma suspeita que no fim se torna um escolho, quando Neusner intui que «o Eu de Jesus fala à altura mesma da Torah, à altura de Deus... Dou-me conta que só Deus pode exigir de mim o que Jesus exige». É precisamente esta «pretensão» que confere a Cristo a sua plena identidade e que afasta o rabino hebreu. Jesus exerce um fascínio realmente como rabino, um grande «mestre», mas no fim revela que Outro e que tem em si um Além!

O bom samaritano (Jean-François Millet)
E, continua Ratzinger-Bento XVI, precisamente por causa desta sua transcendência, «porque totalmente Outro, Ele pode tornar-se contemporâneo de todos nós, para cada um de nós mais íntimo do que cada um de nbs pode ser para si mesmo». Era a intuição que já brilhava na admirável fórmula elaborada por aquela esplêndida homilia ou tratado cristológico que é a neo-testamentária Carta aos Hebreus: «Jesus Cristo o mesmo ontem, hoje, para sempre» (13,8). Aquele Jesus que nasce, vive, sofre e morre como cada homem ou mulher, pode igualmente usar para si o presente eterno divino, «Eu sou». Aquele Cristo que está ligado à cultura e à sociedade judaica do séc. I pode também anunciar, como se disse, estar para sempre em qualquer ponto do tempo e do espaço, onde, sugeria o filósofo Soren Kierkegaard (séc. XIX) no seu diário, cada um de nós pode cruzar-se com Ele «nos caminhos das próprias desfigurações, quando nos escondemos d’Ele e dos homens», porque, para usar uma imagem do Apocalipse (3,20), Ele está ainda hoje à porta e bate para ser acolhido à nossa mesa na intimidade de uma ceia e de um diálogo.

A multiplicação dos pães (Arte paleocristã)
A esta nossa premissa, que quer ser tão só uma guia de leitura a um texto de arquitectura histórica, literária e teológica poderosa, mas nítida, queremos acrescentar agora um apêndice. Como resulta evidente mesmo ao simples acto de as folhear, as páginas que se seguem estão consteladas por um extraordinário e sumptuoso aparato iconográfico. Será como fazer uma peregrinação a um mundo de imagens admiráveis; será como seguir um percurso no interior de uma galeria de arte que se distende pelos séculos. Tinha razão o pintor Marc Chagall quando afirmava que durante séculos os artistas molharam o seu pincel naquele alfabeto colorido pela fé e pela beleza que é a Bíblia. E os Evangelhos foram em absoluto para o Ocidente uma espécie de léxico ou atlas de símbolos, de figuras, de eventos, de efígies, de ícones, de representações. Se devêssemos pegar numa enciclopédia ou num dicionário de arte, partindo da letra A com um Andrea del Sarto ou del Saragno ou com um Antonello de Messina para chegar à letra Z do espanhol Zurbará, descobriríamos um fio de ouro evangélico de tal modo ininterrupto, que transformaria a arte numa verdadeira e própria, livre e criativa «exegese» do texto sagrado. Como observava Jaroslav Pelikan no seu ensaio «Jesus através dos séculos e o seu lugar na história da cultura», «para além do que cada um possa pessoalmente pensar e acreditar a respeito d’Ele, Jesus de Nazaré foi durante quase vinte séculos a figura dominante na história da cultura ocidental».
Também por esta via regressamos, então, no final à pergunta da qual havíamos partido, colhida dos lábios do Jesus dos Evangelhos, uma pergunta que continua a ecoar, que não se pode mandar calar, á qual, como naquele dia, se dão as respostas mais díspares. Uma interrogação que exige também a nossa resposta, como sugere o escritor Mario Pomilio no seu romance «Quinto Evangelho» (1975): «Cristo colocou-nos perante o mistério, colocou-nos definitivamente na situação dos seus discípulos perante a pergunta: Mas vós, quem dizeis que Eu sou?»
D. Gianfranco Ravasi
Presidente do Conselho Pontifício da Cultura
in Jesus de Nazaré, ed. A Esfera dos Livros
27.11.2008
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Autor
Bento XVI - Joseph Ratzinger
Editora
A Esfera dos Livros
Páginas
432
Ano
2008
ISBN
978-989-626-122-1