
A Igreja do Coração de Jesus, de Peter Zumthor (2/4)
Na semana em que se assinala o Dia Mundial da Arquitectura (6 de Outubro) - com uma agenda de eventos que se prolonga até Janeiro de 2009 - continuamos a apresentar a série de quatro artigos acerca de Peter Zumthor, a propósito da exposição que decorre em Lisboa, até 2 de Novembro, sobre os edifícios e projectos concebidos entre 1986 e 2007.
O projecto para a igreja do Coração de Jesus resulta da participação de Peter Zumthor, em 1996, no concurso promovido pelas paróquias de Munique e de Freising, para a reconstrução da anterior igreja, destruída num incêndio dois anos antes. Dentre as 158 propostas apresentadas, resultou vencedora a do atelier Allman Sattler Wappner Architekten, construída entre 1997 e 2000, apesar da contestação levantada ao programa do concurso, que impunha, para a futura igreja, uma configuração do espaço litúrgico do tipo “processional”, não permitindo a utilização de modelos de assembleia mais envolventes e participativos, à semelhança da vizinha e pioneira igreja de São Lourenço (arq. Emil Steffann, 1955).

A proposta apresentada por Peter Zumthor caracteriza-se por dois elementos distintos - a igreja propriamente dita e diante esta, um pátio murado adjacente à torre sineira que recupera o tema hortus conclusus -, forma encontrada para integrar a solução no território envolvente, feito de construções e jardins murados. O pátio anterior à igreja, definido pelo arquitecto como “um lugar de encontro e serenidade”, assume-se como estrutura complementar do edifício religioso, caracterizando-se como um espaço encerrado com percurso periférico coberto, em redor de uma área central arborizada, à semelhança de um claustro monástico. No canto noroeste do pátio, implanta-se a torre sineira, alta e esguia, constituindo o ponto focal desejado para guiar a aproximação ao edifício, bem como afirmar inequivocamente a sua presença no território.

Volumetricamente, a igreja define-se, de um modo bastante simples, por uma grande caixa levantada por dois perímetros distintos de parede, sendo o exterior constituído por tijolos de terra cozidos, distribuídos de forma plástica e expressiva enquanto atravessados por raios de luz, metáfora do barro terreno de que somos feitos e que a mão de Deus trabalha. Entre paredes surge um deambulatório que põe em conexão não só as quatro entradas na igreja, mas também a capela do Santíssimo, o baptistério, os confessionários e a sacristia. Outras quatro passagens de reduzida dimensão dão acesso ao centro do edifício, onde se situa o espaço litúrgico, marcado por um significativo pé-direito livre, acentuado por expressivos planos verticais azuis.

A opção por um azul escuro profundo e intenso deve-se a referências da história da arte – o azul da capela de Giotto e o azul dos quadros de Yves Klein -, mas também por tradição da representação teológica – o azul aparece normalmente relacionado com a divindade e com a Verdade, e na pintura bizantina e medieval designa frequentemente Cristo. Importa aqui recordar, a este propósito, o ícone da Trindade de Andréi Rubliov, e o significado das vestes azuis dos três anjos.

O desenho e sistema construtivo do tecto, feito de numerosas pirâmides suspensas, participa na verticalidade do espaço, e proporciona uma irradiação harmoniosa e uniforme de luz que vem do alto iluminar a estrutura de barro assente na terra.

O espaço litúrgico foi concebido de forma inteligente para proporcionar uma assistência em comunhão tanto quanto possível, apesar das limitações impostas pelo programa. O chão da igreja revela um ligeiro afunilamento dirigido ao altar, deslocando a centralidade focal do presbitério especificamente para o altar, e estimulando a noção de assembleia reunida em torno da Mesa da Eucaristia, ideia reforçada pela localização, a tardoz do presbitério, do órgão e do coro.

A igreja proposta a concurso por Peter Zumthor apresentava-se como um projecto de arquitectura assumidamente contemporânea, não desligada da rica e extensa tradição e memória de séculos de arquitectura religiosa. Não cortando a ligação ao passado, procurava posicionar-se claramente no presente e enriquecer uma história já repleta de obras de arte, mas sempre disponível para novos contributos.

Tradição e progresso, nas palavras do autor: “Com a solidez envolvente do exterior, amaciada pela sensualidade material da luz e sombra do tijolo trabalhado, sem sumptuosos ou elaborados embelezamentos, o projecto junta a tradição de igrejas de tijolo que prevaleceu no centro e norte da Europa nos anos 1960. O espaço da igreja que alcança a luz alta e o azul monocromático que a adorna são vistos como contribuições contemporâneas para a história dos interiores de igrejas e da tradição da sua decoração artística.”





Artigo relacionado:
A igreja, a capela e o oratório de Peter Zumthor (1/4)
João Alves da Cunha
Arquitecto
07.10.2008
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