Leitura
Vaticano II, 50 anos, 50 olhares
A Paulus Editora lançou recentemente a obra “Vaticano II, 50 anos 50 olhares”, que recolhe o testemunho de leigos, religiosos e clero sobre o Concílio ou um dos seus documentos.
Bento XVI, João Paulo II, João Paulo I, Paulo VI e João XXIII, o papa que convocou o Concílio, são algumas das presenças neste volume, que conta também com a participação de Adriano Moreira, cón. António Rego, Aura Miguel, Guilherme d’Oliveira Martins, D. Helder Câmara, D. Ildo Fortes, João César das Neves, João Duque, D. Joaquim Mendes, D. Jorge Ortiga, cardeal José Saraiva Martins e D. Virgílio Antunes, entre outros.
Os testemunhos sublinham as mudanças que o Vaticano II (1962-1965) provocou na Igreja, no mundo e a nível pessoal, num olhar para o passado que se projeta no presente e no futuro.
Oferecemos a introdução do livro, seguida do texto de D. Eurico Dias Nogueira, arcebispo emérito de Braga.
Nos próximos dias publicaremos os artigos de Marcelo Rebelo de Sousa, professor catedrático de Direito e comentador político, e D. Manuel Clemente, bispo do Porto e vice-presidente da Conferência Episcopal Portuguesa.
Apresentação
O Concílio Vaticano II foi «uma dádiva do Espírito à sua Igreja», segundo João Paulo II, e «um extraordinário evento eclesial, nascido do coração de Deus, por meio de uma intuição de João XXIII, e que teve em João Paulo II um intérprete qualificado e uma testemunha coerente», segundo Bento XVI.
Às portas de completarmos 50 anos do seu início, todos os cristãos são convidados a revivê-lo e reavivá-lo. São convidados a reviver a sua história e a conhecê-lo melhor. São convidados a ler, meditar, rezar, contemplar, viver e partilhar o seu conteúdo. São convidados a descobrir as suas motivações, os seus bastidores, as suas problemáticas, as suas decisões e os seus frutos. São convidados a contemplá-lo sobre diferentes perspetivas, com um olhar atento, curioso e dedicado.
Com esta intenção – de analisar o Concílio sobre múltiplos olhares – convidámos uma série de cristãos (leigos, consagrados, padres, bispos e cardeais) a escrever sobre o Concílio ou um dos seus documentos específicos. A dar um testemunho sobre o que representou o Vaticano II, o que ele mudou na vida da Igreja, do mundo e sobretudo na vida pessoal de cada convidado. Um olhar sobre o passado, o presente e o futuro da Igreja e da sociedade, a partir das mudanças introduzidas pelo Concílio e os seus diversos documentos. Foram convidadas personalidades de diversas áreas, a fim de mostrar a riqueza da Igreja (Povo de Deus, Corpo de Cristo e Templo do Espírito) e contemplar todas as temáticas englobadas pelo Concílio, com o objetivo de mostrar a sua atualidade e centralidade para os cristãos na sua vivência da fé e na sua relação com a sociedade.
A fim de apresentar o antes, durante e depois do Concílio, reunimos testemunhos inéditos, mas também selecionámos alguns textos históricos de grandes personagens que viveram e fizeram o Concílio. Neste livro apresentamos os 50 testemunhos, ou 50 olhares, que certamente mudarão a forma como lemos e interpretamos o Concílio. Não seguimos uma ordem cronológica, nem alfabética, nem de importância, até porque seria praticamente impossível estabelecer tal ordem. A disposição dos textos foi escolhida a fim de traçar um roteiro de leitura agradável, variado e progressivo.
Iniciamos o nosso percurso com um excerto da convocatória do Concílio, feita através da constituição apostólica Humanae salutis, em que o Papa João XXIII apresenta algumas mazelas da sociedade e reconhece a necessidade de mudança que parte do aggiornamento da Igreja e do testemunho adequado dos cristãos. Ao longo do livro, apresentaremos textos preciosíssimos de todos os Papas posteriores a João XXIII: uma carta que João Paulo I, ainda D. Albino Luciani, bispo de Vittorio Veneto (Itália), escreveu ao seu clero para explicar a nova espiritualidade litúrgica e a nova mentalidade da missa pós-conciliar; o testemunho do Papa João Paulo II sobre o desafio lançado aos padres conciliares e a missão da Igreja no mundo; a homilia de Bento XVI que explana a bela e profunda relação do Concílio e da Igreja com Nossa Senhora; um excerto do discurso do Papa Paulo VI na última sessão pública do Concílio. Para completar, um excerto do beato Tiago Alberione a exprimir a espiritualidade conciliar.
Logo nas primeiras páginas, o cardeal José Saraiva Martins e o bispo D. Eurico Dias confidenciam-nos a sua alegria em participarem pessoalmente no Concílio. D. Manuel Clemente, D. Joaquim Mendes, monsenhor Vítor Feytor Pinto e o professor Marcelo Rebelo de Sousa complementam tais testemunhos, mostrando a perspetiva de como, ainda jovens, acompanharam e foram influenciados pelo Vaticano II desde Portugal.
Antes de iniciar o bloco com olhares sobre as constituições conciliares, o historiador padre João Chaves Bairos apresenta um panorama histórico do Concílio, comparando-o a um pai cheio de pedagogia que educa os seus filhos para a responsabilidade e a maturidade.
Enfocando a Dei Verbum, sobre a Palavra Divina, temos as reflexões dos biblistas D. Anacleto de Oliveira, D. Virgílio Antunes, cardeal Carlo Maria Martini e do padre Armindo dos Santos Vaz. Sobre a constituição da Igreja expressa pela Lumen gentium falam-nos D. Jorge Ortiga, monsenhor José Espírito Santo e o irmão Darlei Zanon.
Sobre a relação desta Igreja com o mundo (Gaudium et spes) testemunham a experiência de vida do Dr. Adriano Moreira e do Dr. Guilherme de Oliveira Martins. Finalizam este bloco sobre as pilastras do Concílio, ao redor das quais se agrupam os demais documentos conciliares, os textos de D. José Manuel Cordeiro, sobre a renovação litúrgica introduzida pela Sacrosanctum concilium, e do padre António Cartageno, sobre o papel da música sacra nesta renovação.
Após algumas circulares escritas por D. Helder Câmara, que revelam curiosidades sobre os bastidores do Concílio, o teólogo João Batista Libánio mostra como as mudanças impulsionadas pelo Vaticano II foram recebida e introduzidas na América Latina. O bispo de Mindelo (Cabo Verde), D. Ildo Fortes, apresenta o seu olhar a partir da África, enfocando principalmente o decreto Ad gentes, sobre a atividade missionária da Igreja.
A fim de responder a alguns dos maiores desafios do tempo, o Concílio aprovou nove decretos e três declarações. Um dos principais temas abordados é o espaço e papel dos leigos na Igreja. O jornalista Paulo Rocha, o casal António Fonseca e Cláudia Sebastião, o gestor Luís Carvalho e o advogado José Vaz Serra Moura apresentam as suas visões sobre este tema e como vivem a sua missão de leigos comprometidos na Igreja e sociedade de hoje. Do sacerdócio comum ao qual todos os batizados fazem parte passamos a refletir sobre o sacerdócio ordenado, com D. António Marcelino a falar sobre a formação do clero (Optatam totius) e o padre Manuel Morujão sobre o ministério e a vida dos presbíteros (Presbiterorum ordinis).
Entre os leigos e o clero temos a vida consagrada, citada na Lumen gentium, mas pormenorizadamente refletida no decreto Perfectae caritatis. Grande foi a renovação neste campo, tanto das instituições de vida ativa como de vida contemplativa. A irmã Lucília Oliveira Gaspar e o padre Mário dos Santos testemunham as suas alegrias como consagrados em congregações de vida ativa, enquanto a irmã Maria Clara e as irmãs Carmelitas Descalças revelam as mudanças instituídas na clausura.
Outro tema muito caro ao Vaticano II foi o apostolado com os meios de comunicação social (Inter mirifica), cada vez mais importante e estratégico na missão evangelizadora da Igreja. Sobre isso falam, com profundo conhecimento de causa, o padre Sílvio Sassi, o cónego António Rego, a Dr.ª Aura Miguel e o padre Francisco Pereira Barbeira.
Uma especial atenção é dada pelos padres conciliares à questão da liberdade religiosa (Dignitatis humanae), do ecumenismo (Unitatis redintegratio) e do diálogo inter-religioso (Nostra aetate). D. António Vitalino Dantas, o Dr. João César das Neves, a Dr.ª Catarina Martins e o professor João Duque exploram e atualizam os documentos conciliares de uma maneira muito objetiva e concreta.
No último bloco de testemunhos, o jovem padre José António Carneiro fala da relação dos jovens com o Concílio; o padre José António Fortea explica a teologia do exorcismo; e o cónego Senra Coelho contextualiza historicamente o Concílio e convida-nos a reler, meditar e aplicar os seus conteúdos.
Para finalizar, um excerto do discurso de Paulo VI na última sessão pública do Vaticano II e uma ação de graças pelo Concílio e os seus frutos na Igreja em forma de oração ao Espírito Santo, inspirador e guia dos padres conciliares, escrito pelo beato João Paulo II.
Experiência conciliar
D. Eurico Dias Nogueira
1. Como tomei conhecimento do Concílio
Foi no dia 25 de janeiro de 1959 que o Papa João XXIII anunciou, de surpresa, a sua intenção de convocar um concílio ecuménico. Era o final do Oitavário da unidade dos cristãos e o 19.º centenário da Carta de São Paulo aos Romanos.
O acontecimento ocorreu na Basílica de São Paulo, o Apóstolo da unidade e do Corpo místico.
A notícia caiu como bomba no Mundo inteiro, a começar pela Cúria Romana, onde poucos elementos estavam ao par das intenções do Santo Padre. Foi acolhida «com alvoroço e esperança» pelos católicos e com simpatia e interesse pelos cristãos separados, embora com algumas reservas, aliás compreensíveis.
A 17 de maio seguinte constituiu-se a Comissão Preparatória, com dez altos prelados das congregações da Cúria, presidida pelo cardeal decano Tardini, secretário de Estado do Vaticano, apontando-se quatro grandes objetivos do futuro concílio.
Entretanto, declarou-se encerrado o Vaticano I, que apenas havia sido suspenso em 1871, por motivo das convulsões políticas e militares na Europa que envolveram a Itália, com profundo reflexo na vida da Igreja, sobretudo nos Estados Pontifícios.
Os bispos do Mundo inteiro sentiram que eram os protagonistas do grande acontecimento, porquanto a Igreja é um Colégio, sendo este o direto sucessor e legítimo continuador do Apostólico. Os concílios, nos seus diversos graus e modalidades, constituem um órgão de expressão do pensamento e decisão da Igreja. Os bispos, nas suas decisões, podem dizer: «Aprouve ao Espírito Santo e a Nós» («Placuit Spiritui Sancto et Nobis»), segundo a expressão provinda do Concílio de Jerusalém, em meados do século I.
Conhecem-se concílios ou sínodos desde o século ii: locais ou provinciais. Mas só com a Paz de Constantino, no início do século iv, houve possibilidade de reunir um concílio com representantes de toda a Igreja do Oriente e Ocidente.
Foi o Concílio de Niceia, em 325, considerado o primeiro verdadeiramente ecuménico, com participação de bispos provenientes das duas partes do Império: romana e constantinopolitana. Só os bispos e superiores máximos das congregações religiosas têm voto deliberativo. Os demais intervenientes – teólogos, canonistas e sociólogos convocados – tem-no apenas consultivo. Os cristãos separados – ortodoxos, protestantes e anglicanos – podem ser convidados e dar a sua opinião, mas não votam.
Houve somente oito concílios com as duas Igrejas unidas. A separação entre Roma e Constantinopla, no século XI, dividiu-as, com uniões efémeras nos Concílios de Leão (1274) e de Ferrara-Florença (1438). A partir do século xvi, verificou-se nova rutura com revolta protestante e anglicana.
Deste modo, os concílios ficaram reduzidos a metade da Cristandade, que abrange, neste momento, algo mais de um bilião de católicos. Mesmo assim, consideram-se ecuménicos estes concílios, ficando os eventuais representantes ou delegados das outras Igrejas cristãs irmãos convidados. Estiveram presentes, em grande número, no 21.º Concílio Ecuménico, o Vaticano II, o que não sucedeu em Trento e no Vaticano I.
O Vaticano II iniciou-se em 11 de outubro de 1962, após três anos e meio de preparação. Os padres conciliares foram cerca de 3000. Os bispos portugueses publicaram uma carta pastoral coletiva sobre o tema. O CADC de Coimbra, juntamente com a JUCF, efetuou uma preparação acurada em que participei, juntamente com o cónego Dr. Urbano Duarte, pois fazíamos parte desses dois órgãos ativos dos estudantes católicos, como assistentes eclesiásticos. A revista Estudos dedicou um bom relato ao auspicioso acontecimento.
2. Como participei no Concílio
Em 10 de julho de 1964 fui nomeado bispo de Vila Cabral (hoje Lichinga), em Moçambique; e logo convidado, no final do mês, para tomar parte no Concílio, como padre conciliar. Ainda ia a meio, precisamente entre a segunda e a terceira sessão.
A carta convocatória pedia uma fotografia em vestes episcopais. Por não as ter ainda, pedi ao bispo auxiliar de Coimbra, D. Manuel de Jesus Pereira (mais tarde prelado de Braganca-Miranda), que me emprestasse as suas. Deste modo, foi com vestes alheias que fiquei em documentos conciliares.
Para lá me dirigi, em setembro, antes da ordenação episcopal (que só teve lugar em 6 de dezembro, após o regresso da terceira sessão conciliar, mas já prelado efetivo da diocese, pois dela tomara posse por procuração em 6 daquele mês).
Tudo para mim era surpresa agradável no Concílio:
- ver-me sentado na ampla sala conciliar, em que se transformara a nave central da Basílica de São Pedro, entre milhares de venerandos colegas;
– ouvir intervenções brilhantes e oportunas, por bispos distintos de todo o Mundo;
– assistir à presença e intervenção do Papa, de quando em quando;
– efetuar idas fugidias aos dois bares situados nas traseiras de cada lado da aula conciliar (para beber um café ou coca-cola), designados por Bar Jonas e Bar Abas;
– as solenidades que ocorriam ocasionalmente dentro e fora da aula conciliar;
– as votações maciças dos documentos definitivos, praticamente sem abstenções e aprovados pela quase totalidade dos votantes;
– consciência de estar a contribuir para um passo decisivo e atualizante da Igreja.
Sentia-me superior à minha insignificante pessoa, sabendo que ali, mais que representante de uma apagada diocese que mal conhecia e por organizar (com poucos cristãos entre muitos muçulmanos), no interior da África, era um elemento ativo e responsável da Igreja universal.
O Papa João XXIII, que convocara e iniciara o Concílio, falecera entretanto, sucedendo-lhe Paulo VI, que o confirmou e acompanhou, como o antecessor. Tomara parte ativa nele, nas primeiras sessões, como cardeal-arcebispo de Milão.
Já se havia realizado uma sessão, com cerca de 40 congregações gerais. A terceira iniciara-se com uma concelebração, depois de aprovada esta modalidade, na anterior.
Na primeira – de 11 de outubro a 8 de dezembro de 1962 – elegeram-se as comissões conciliares, enviaram-se mensagens ao Mundo e iniciou-se a discussão sobre os esquemas da Liturgia, Fontes da Revelação, Meios de Comunicação e Unidade.
A segunda decorreu de 29 de setembro a 4 de dezembro de 1963, com mudança de Papa no intervalo entre ambas, por entretanto haver falecido João XXIII. Debruçou-se sobre a Igreja – dioceses e ecumenismo – e tomaram-se as decisões sobre Liturgia e meios de comunicação social.
Na votação sobre a Igreja destacou-se a constituição hierárquica desta e a colegialidade do episcopado, que recebeu 85% dos votantes. Restaurou-se o diaconado permanente, extensivo a homens casados; foi pena que não se tivessem incluído expressamente as mulheres, pois houve diaconisas durante séculos.
A 18 de outubro, ocorreu a canonização de 22 mártires ugandeses, novos na idade e na fé, pois apenas cinco tinham mais de 30 anos.
No início da última sessão conciliar, em 14 de setembro de 1965, houve uma concelebração presidida pelo Papa, com mais 26 concelebrantes. Foi anunciada a instituição do Sínodo dos Bispos e realizou-se uma procissão penitencial entre Santa Cruz e Latrão, presidida pelo Papa. Este deslocou-se à ONU, com oito cardeais. Verificou-se um ataque cerrado aos católicos holandeses, defendidos pelo cardeal Alfrink, e uma acurada discussão sobre a liberdade religiosa.
3. Presença de Portugal no Concílio
O nosso país marcou presença no Vaticano II, mas de forma bastante modesta.
Os bispos de Portugal eram 42, no início, e 49, no final. Abrangiam a metrópole e as então designadas províncias ultramarinas, de Cabo Verde a Timor, com destaque para os extensos territórios portugueses em África. Dois bispos fizeram parte de comissões preparatórias e quatro de pos-conciliares, com um e dois sacerdotes, respetivamente.
Fizeram 35 intervenções orais 17 bispos, destacando-se o da Beira (Moçambique), D. Sebastião Soares de Rezende, que interveio dez vezes. Outros pretenderam falar e apresentaram o teor dos temas, mas foram impedidos, por entretanto se suspenderem as intervenções, considerado o assunto já suficientemente esclarecido. Assim sucedeu comigo, que desejei falar duas vezes, entregando os textos no secretariado. Mas fui impedido por aqueles motivos, constando das Atas do Concílio como scripto tradita.
Assinava a votação dos textos: «Ego, Euricus, episcopus cabralopolitanus, subscripsi.»
Estiveram na abertura do Concílio representantes de 85 países e havia mil jornalistas credenciados. Enviei de lá 15 «Cartas para Vila Cabral», publicadas quinzenalmente no Diário de Moçambique (Beira) e Novidades (Lisboa) e acolhidos posteriormente no volume Missão em Moçambique (1970, pp. 357-408).
Pouco antes da quarta e última sessão, faleceu em Portugal o arcebispo de Évora, D. Manuel Trindade Salgueiro, que fora padre conciliar desde a sua preparação. O triste acontecimento foi evocado na primeira reunião daquela, pelo cardeal decano Tisserant, que rezou um De profundis, com toda a assembleia.
Afirmei e mantenho que as intervenções portuguesas, excluídas as do bispo da Beira, não foram brilhantes, passando quase despercebidas. A razão é simples: elas representam um esforço grande, mas inglório, pois eram obra de um bispo que tomava a iniciativa e, sozinho, redigia o texto, sem colaboração visível.
Geralmente as dos demais bispos – sobretudo da Europa e Estados Unidos, muito numerosos – eram obra de uma equipa: em geral de padres conciliares, mas sobretudo de teólogos, canonistas e sociólogos. Estes eram escolhidos nas melhores universidades e faculdades católicas do mundo e acompanhavam as sessões com toda a atenção. Comissionados pelos bispos, estudavam e redigiam os textos que eram entregues àqueles agrupados. Se aprovados, encarregava-se um deles de o apresentar no plenário.
Portugal não tinha nada disso. Apenas me apercebi da lacuna, referi-a a um dos nossos prelados, que respondeu: «Na nossa modéstia, não dispomos de homens destes.» Em parte é verdade; mas não seria difícil encontrar uma dezena de sacerdotes ou mesmo leigos, embora, ao tempo, se sentisse a falta de uma universidade católica entre nós; ou, ao menos, uma faculdade de Teologia. Perguntando-me aquele bispo: «Quem?», citei-lhe mais de meia dúzia de nomes bem conhecidos: de Braga, Coimbra, Évora, Lisboa e Porto. Aceitou, mas acrescentou que faziam falta nos seminários de Portugal. Respondi que isso não era de ter em conta, perante o serviço que prestariam no Concílio. E traziam uma preparação, bagagem e experiência que seriam muito úteis. Concordou, mas... já era tarde.
Apesar de bastante modesta e apagada, a intervenção dos bispos portugueses representou um apreciável esforço, que marcou a nossa presença no Vaticano II.
Esperamos que, no Vaticano III, ela seja diferente... para melhor.
In Vaticano II, 50 anos, 50 olhares, ed. Paulus
22.06.12

Vaticano II,
50 anos, 50 olhares
Autores
AA.VV
Editora
Paulus
Ano
2012
Páginas
240
Preço
12,50 €
ISBN
978-972-301-599-7







