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Memória e património

Câmara de Caldas da Rainha associa-se aos 500 anos da Capela de Nossa Senhora do Pópulo

Comemoram-se em 2008 os 500 anos da elevação da Capela de Nossa Senhora do Pópulo do Hospital Termal das Caldas da Rainha a Igreja Matriz, adquirindo novas valências espirituais e sociais, das quais resultaram a construção da actual torre sineira e do baptistério. De início construída como capela do primitivo Hospital Termal, a Igreja de Nossa Senhora do Pópulo teve a sua conclusão em 1500, sendo-lhe anexada a torre sineira e o baptistério entre 1500 e 1505. A sua autoria é atribuída a Mateus Fernandes (pai), mestre das obras da Batalha.

Neste edifício conjugam-se elementos do tardo-gótico europeu com outros de características mais locais (mudéjares e manuelinos). Possui o revestimento interior em azulejos seiscentistas produzindo um efeito têxtil, mas mantém da construção primitiva os frontais dos altares laterais revestidos de azulejos hispano-árabes.

Com o objectivo de assinalar essa importante data, a Câmara Municipal aprovou por unanimidade, por proposta dos vereadores do PS, a associação da autarquia às comemorações através da realização de um concerto evocativo, a realizar em local a definir, no dia 15 de Agosto, com o grupo musical de cordas Pedro Caldeira Cabral.

Das referidas comemorações fazem parte outras actividades dinamizadas pelo Museu do Hospital e das Caldas (Centro Hospitalar de Caldas da Rainha e pela Junta de Freguesia de Nossa Senhora do Pópulo).

FotoFoto: Vitor Oliveira (Portuguese_eyes)

 

O hospital, uma obra de misericórdia

Lembrar esta efeméride implica recordar as intenções e os objectivos que estiveram na base do hospital e da respectiva capela.

A decisão de fundar um hospital em território sob jurisdição municipal de Óbidos (distante desta vila cerca de uma légua) e encostado ao limite meridional dos coutos de Alcobaça, coube a D. Leonor, mulher de D. João II, detentora do senhorio das terras de Óbidos desde Agosto de 1482.

A instituição do hospital pela Rainha deve ser vista como um processo e não como um acto súbito e único.

Em primeiro lugar, a preocupação da coroa portuguesa com o acolhimento – manifestamente inapropriado – dos doentes, designadamente dos doentes pobres, que acorriam às nascentes de água mineral de Óbidos.

Admitamos também o eventual recurso, com êxito, por parte da própria D. Leonor à aplicação de água das Caldas, provavelmente em 1484. De facto, duas das três versões postas a correr na época acerca dos motivos do interesse da Rainha pelos banhos caldenses integram esse aspecto (aludindo a terceira a razões puramente humanitárias). A Rainha não demorou a decidir que o local – que não dera ainda origem a qualquer povoação – fosse dotado de meios para recolha e tratamento dos doentes.

FotoFoto: benny_alliot

Em terceiro lugar, a verificação de que o caudal das nascentes era muito elevado, constante no fluxo e na temperatura (próxima da do corpo humano).

Por último, o crescimento da afluência de doentes, na sua grande maioria de origem popular, e pobres, a seguir a 1488, e em consequência das obras já efectuadas sob patrocínio da Rainha.

Estas circunstâncias fizeram possivelmente inflectir o propósito de D. Leonor, inicialmente dirigido para a criação de um hospício ou hospital medieval, agora no sentido de uma fusão entre balneário e clínica, entre termalismo e Medicina, ou seja de um hospital moderno.

Em 1488, concluídas as obras de correcção dos banhos e das casas de aposentos dos doentes, principiam as verdadeiras obras de um Hospital, que seria, tal como a Igreja anexa, consagrado a Nossa Senhora do Pópulo. Dos planos respectivos se encarregou Mateus Fernandes, mestre-de-obras em Santa Maria da Vitória (Batalha). O do Hospital estava seguramente já finalizado em 1508 e, parcialmente concluído em 1502 ou 1503. Quanto ao plano da Igreja, autorizada pelo Papa em 1495, foi dado por terminado em 1500.

FotoMuseu da Rainha e Hospital Termal. Foto: Pedro Oliveira

A fundação do Hospital de Nossa Senhora do Pópulo nas Caldas da Rainha surge igualmente associada a um movimento de reformulação da assistência aos pobres e doentes no país. A responsabilidade desse movimento coube à Coroa, com destaque para os papéis desempenhados pelo Rei D. João II, e pela sua mulher D. Leonor, bem como pelo irmão desta e sucessor daquele, D. Manuel. Mas ao hospital caldense há que reconhecer uma prioridade, pois foi erguido e entrou em funcionamento antes de qualquer dos estabelecimentos congéneres. A reforma enfrentava o problema da falta de meios financeiros e logísticos da rede assistencial existente. Propôs a concentração de unidades, sobretudo nos núcleos urbanos em crescimento. Fez intervir critérios de organização e exigências económicas os técnicas, inspiradas estas pela ciência médica. As criações mais interessantes deste movimento foram as Misericórdias e os Hospitais.

O Hospital das Caldas é também o primeiro grande hospital moderno. O Hospital Geral de Coimbra cuja construção se terá iniciado entre 1504 e 1508, compreendia 2 enfermarias, uma para homens, com 12 camas, e outra para mulheres, com 5. O Hospital de Todos os Santos em Lisboa compunha-se de 5 enfermarias capazes de recolher 150 doentes. O seu contemporâneo caldense era formado por 7 enfermarias, com camas para 100 enfermos. Estes números ilustram a dimensão relativa do Hospital de Nossa Senhora do Pópulo. Aos doentes pobres de todo o país era garantida assistência gratuita. Efectivamente das 100 camas, 60 destinavam-se a doentes pobres, e as restantes a pensionistas, frades e peregrinos.

FotoPavilhões para apoio ao Hospital Termal Rainha D. Leonor. Foto: Warl0rdPT

Outro aspecto singular deste processo: o hospital não foi instituído para uma população delimitada, mas obviamente com a intenção de servir todo o Reino. As medidas de atracção e fixação populacionais, tomadas a partir de 1488, manifestam o propósito de consolidar a implantação de um organismo que, dada a sua dimensão e finalidade, exige uma logística social e económica local.

O século XIX deu um novo conteúdo ao termalismo. Fazer uma temporada nas termas é um dos hábitos cultivadas pelas novas burguesias oitocentistas. A partir de meados do século XVIII, Caldas da Rainha tornou-se não apenas lugar de tratamento mas também de visita. Aliás, para as classes abastadas, o conceito de termalismo - «ir a águas» - passou mesmo a implicar o de vilegiatura - «mudança de ares». «A vida moderna faz doenças novas, que encontram alívio no descanso e na distracção. Distrair-se alguém em Lisboa de Abril a Outubro é difícil – escreve com ironia Júlio César Machado – as caldas conciliam tudo: mudança de ares, exercício ameno, banhos, copinho, peregrinação, entretenimento, vita nuova! (...) As pessoas que para ali vão, ou estão doentes ou fazem como se o estivessem; uns tornam banho; outros de manhã bebem água, e á noite chá: ondas de água quente por diversos modos e sabor diferente». Sob o impulso deste novo conceito, o Hospital das Caldas foi remodelado e reformulado, no sentido de uma separação entre estabelecimento termal – com as suas aplicações dirigidas quer as doenças de foro reumatismal quer às das vias respiratórias – e hospital propriamente dito – com as suas enfermarias de internamento gratuito para os doentes pobres – e a vila sofreu uma profunda revolução urbanística.

in Tinta Fresca | Câmara Municipal das Caldas da Rainha | Centro Hospitalar das Caldas da Rainha

23.07.2008

 

 

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Foto: Carlos Luís Cruz










































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