
As origens do culto do Divino Espírito Santo na ilha Terceira
O culto ao Divino remonta praticamente ao início do povoamento da Terceira, afirma Maduro-Dias. "As evidências de tal estão patentes no hospital, junto ao cais e à Porta do Mar em Angra do Heroísmo, fundado em Março de 1492 pelos Irmãos do Santo Espírito, após chamamento 'à campa tangida'. Entre eles estava o descobridor da Terra Nova e Capitão Donatário de Angra, João Vaz Corte-Real. Dessa reunião de irmãos, acontecida antes de haver misericórdias no País e em Angra, resultou o mais antigo hospital das ilhas e aquele que podemos apelidar de 'mais antigo hospital da era dos descobrimentos', anterior mesmo ao que haveria de se estabelecer em Lisboa alguns meses depois", explica.
O historiador terceirense lembra que ao longo da costa da ilha, quase esborralhadas na memória ou na verdade das pedras, há situações em que o Espírito Santo é chamado a proteger, com o seu nome, muralhas terceirenses. "O forte extremo a nascente da baía da Praia da Vitória, junto à base da Serra hoje conhecida como do Facho, chama-se 'do Espírito Santo' e é um dos baluartes que enquadra os panos de muralha da fortaleza de S. João Baptista. Sobretudo no que toca ao pequeno forte da Praia é pena o estado de ruína em que se encontra. Foi ali que se deu boa parte do combate da memorial Batalha da Praia em 1829 e as suas muralhas, apesar de arruinadas, aguentaram a fúria do mar até ao terceiro quartel do Século XX. Desmontadas por razão de obras no cais militar e apanhadas na voragem da falência da empresa encarregada da obra por causa dos acontecimentos seguintes ao 25 de Abril de 74, 'ficou assim mesmo' e dele resta apenas uma porção redonda, que nem precisa esforçar-se muito para tocar o oceano em cada maré cheia."
Durante décadas, as ilhas do grupo Central foram ligadas, também, pelo nome da Terceira Pessoa da Santíssima Trindade. "Era um pequeno navio de cabotagem, de casco de madeira e carpintaria insular, arrostando as ondas e as tempestades durante décadas para assim conseguir fazer o que lhe exigiam: ligar comunidades, pôr em comum gentes e coisas, entre o Topo e Angra, entre o Cais do Pico e Santa Cruz da Graciosa, juntando mais um pouco Horta e Angra do Heroísmo, Calheta e Velas. E fê-lo, com o arrojo e valentia que lhe davam quem segurava o leme e mandava nas máquinas", refere o historiador.
Simbiose do sagrado e do profano
À semelhança das restantes ilhas dos Açores, desde tempos antigos que se realizam na Graciosa as festas em louvor do Divino Espírito Santo. Segundo uma pesquisa do historiador Jorge Cunha, os dados disponíveis sobre estes festejos, revelam uma indubitável importância das mesmas. São testemunho disso, a Capela do Espírito Santo, construída no século XVI, e um painel quinhentista, ambos pertencentes à Igreja Matriz de Santa Cruz da Graciosa. "Com o tempo - conta Jorge Cunha - começaram surgir as Irmandades por toda a ilha. Actualmente, em todas as freguesias e lugares existem os Impérios, os quais são mais um dos elementos que integram e identificam estas festas, que obedecem a um ritual muito próprio e se desenrolam à volta de alguns espaços e cerimónias, algumas delas com início no ano anterior, caso do sorteio dos irmãos que no ano seguinte serão mordomos".
Os espaços onde decorrem os festejos, no essencial, são o Império ou a casa do "Imperador " e a igreja. Além destes, no Domingo de Pentecostes, na Segunda-Feira do Espírito Santo e no Domingo da Trindade, o largo e algumas colectividades (sedes de Filarmónicas e Casas do Povo) servem de estrutura de apoio, local onde é oferecido
o almoço.
Tibério Cabral
14.05.2008
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