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Religiosidade

Experiência cristã: especificidades e equívocos

A espiritualidade é um tema em voga nas nossas sociedades modernas. Há literatura e outras realizações culturais que o mostram. Pode falar-se até de ‘espiritual’, sem pensar bem no conteúdo que se atribui à palavra. Para isso contribui uma realidade que vem mostrando a sua pujança nos últimos tempos. Poderíamos chamar-lhe nebulosa de fenómenos de aparência religiosa, Convém ter cautela ao designá-la. Com efeito, a palavra ‘nebulosa’ faz penar em contornos esbatidos e conteúdo plural. Nem sempre é fácil delimitar esta nova onda de interesse com ar de religioso. Percebem-se nela duas grandes tendências. Uma é a (...) New Age; a outra consiste nas seitas. Aquela inclui uma multiplicidade de interesses; esta tende ao rigor identitário. A primeira tece-se em relações humanas leves e diferenciadas; a segunda requer acatamento e compromisso. Percebe-se, então, que o carácter difuso da nova realidade aparentada com o religioso se deve essencialmente à New Age. O pensamento que esta veicula encontra-se em domínios variados, como a arte, a comunicação, a ciência ou a medicina. dá origem, por este motivo, a práticas diferenciadas. Poderíamos falar também duma ‘efervescência’ á volta do religioso, para apelidar o conjunto dos fenómenos acima mencionados. É outra imagem inspiradora para a sua caracterização. Sugere agitação ou vitalidade a propósito de qualquer coisa que acontece. Faz pensar igualmente na criação de condições propícias para que uma determinada manifestação se venha a produzir. Finalmente, na mesma linha de prudência na designação de tais fenómenos, referimos o uso das expressões ‘aparência religiosa’ ou ‘à volta do religioso’. Estas sugerem alguma incerteza quanto à caracterização daqueles. Fazem pensar na mistura de parentesco e dissemelhança que mostram relativamente ao dinamismo próprio da religião. Tais fenómenos parecem não ter dificuldade em se apresentarem, muitas vezes, como obedecendo a este último. Mas trata-se duma matéria a examinar com cuidado.

A nova onda de interesse aparentemente religioso elucida-nos sobre a natureza da sociedade em que se desenvolve. O indivíduo vê-se despojado das bases sociais que o ajudariam a construir a própria identidade. Sente-se demasiado entregue a si mesmo, por falta de enquadramento. Tem dificuldade de encontrar respostas para a integração a que aspira. Ora, não se aguenta uma existência fragmentada por muito tempo. Se os enquadramentos tradicionais deixam de funcionar, há que buscar outros que desempenhem idêntico papel. Quando a integração pessoal não é conseguida automaticamente a partir de fora, toma-se a iniciativa de a alcançar por outra via. Tanto a New Age como as seitas aparecem neste panorama a oferecer alternativas de pertença. Aquela surge como uma ampla atmosfera que dá espaço ao indivíduo para encontrar o seu lugar, sem que a realidade exterior pese muito sobre ele. As seitas, sendo núcleos circunscritos, apresentam-se como fortes asilos afectivos dirigidos com uma certa firmeza. Mais uma vez, é preciso ter cuidado com a designação destes fenómenos. Não parece apropriado falar de ‘retorno’ do religioso, visto não se voltar á situação que existia antes da vaga de secularização. O que agora surge não equivale ao estatuto da religião na sociedade tradicional. Estamos diante duma realidade nova, ligada à cultura da independência individual de que fazemos parte. Sendo assim, é de crer que ela veio para durar.

 

Proximidade ao religioso

Reconhecida a pujança social e cultural destes novos fenómenos a que vimos aludindo, importa examinar em que medida se coadunam ou não com o âmbito religioso. Devemos admitir que eles assumem, de certo modo, a função desempenhada pela religião tradicional. Em primeiro lugar, exprimem o desejo de recuperar a unidade da existência humana, que nas sociedades modernas facilmente se perde. Revelam a vontade de descobrir uma nova referência proporcionadora de sentido. O indivíduo vê-se a braços com questões sensíveis que o colocam face ao desconhecido: o futuro, a morte, o além. Procura uma explicação global que as inclua no seu seio. Dessa forma, já não o atormentam tanto. Não admira que alguns recorram às chamadas para-ciências, uma das práticas que se cultivam na atmosfera da New Age. Tenta-se decifrar o que vai acontecer na vida de cada um através do comportamento dos astros. Procura-se detectar uma espécie de vibrações que permitam entrar no movimento secreto do universo. Estudam-se fenómenos psíquicos que dão a impressão de contacto directo com o sobrenatural. Estes são modos pelos quais o indivíduo procura inscrever-se em séries causais, para se livrar do acaso insuportável em que se sente imerso. A impressão de sintonia cósmica é, assim, a via pela qual a New Age se propõe responder a esta necessidade. As seitas também se oferecem para tal, mas por meio da obediência acrítica às ordens dum guru ou às decisões do próprio grupo. Com todos estes expedientes, o indivíduo acha que passa a saber quem é, onde pertence e o que há a esperar de si. Via-se perdido: agora julga ter-se encontrado.

Em segundo lugar, os novos fenómenos de aparência religiosa vêm ao encontro da necessidade de arrancar a existência duma penúria de horizonte e motivação. Propõem-se tirá-la da banalidade que facilmente gera insatisfação. A sua estratégia consiste em introduzir a existência num universo supostamente mais amplo que a pura horizontalidade terrena. Colocam-na sob a dependência e protecção duma realidade tida como sagrada. Nem sempre se consegue delinear esta com clareza, como acontece na New Age. Pode possuir o aspecto de forças não fáceis de identificar. De qualquer forma, presume-se nelas uma orientação que se julga importante decifrar. Acredita-se que é possível tornar o seu poder secreto dócil às necessidades de quem as aborda. Situando, assim, a existência num universo sacralizado, o indivíduo considera-a dotada de nova qualidade. Fica com a impressão de que ela ganhou uma profundidade e uma riqueza antes desconhecidas. Entende saber também a que se agarrar, independentemente do bom ou mau resultado que daí advenha. O coração humano parece ter acesso a novos espaços onde se possa exprimir e realizar. Sai da claustrofobia materialista, em busca de experiências que se afigurem mais adequadas aos seus anseios. Encontra um além que aumenta a espessura do aquém estritamente terreno.

 

Afastamento do religioso

Os novos fenómenos, aqui apresentados, pretendem ocupar o espaço que fica aberto com a diminuição do peso social da religião tradicional. Exibem aquilo que os parece tornar capazes de a substituir. No entanto, há um aspecto que os diferencia do âmbito religioso propriamente dito. Tem a ver com a lógica da relação entre o ser humano e a entidade com estatuto de ‘além’. Nos novos fenómenos, faz-se girar tudo à volta do primeiro. Não se sai da preocupação consigo mesmo. Pensa-se sobretudo no bem-estar e no futuro de si próprio. Em contrapartida, no religioso autêntico existe a abertura a uma entidade tida como absoluta. O indivíduo é convidado a sair de si, para acolher a interpelação que esta lhe lança. Um adepto dos novos fenómenos pode eventualmente afirmar que também ele se abre à entidade com estatuto de ‘além’. Mas essa será uma atitude que procura à partida ganhos de retorno. Veja-se a busca da harmonia cósmica típica da New Age, com reflexos automáticos de paz interior e segurança. Note-se também a obsessão que as seitas têm pela faceta terapêutica de Cristo. Digamos, então, que nos novos fenómenos o indivíduo é o centro das atenções. No religioso autêntico, a primazia pertence à entidade para a qual ele se direcciona.

No caso da New Age, percebe-se uma segunda diferença face ao dinamismo próprio da religião. O sagrado para que aponta mostra-se indeterminado. Consiste nas tais forças ocultas já aludidas. A atitude do indivíduo em relação a ele tende, por isso, a ser difusa. Por outro lado, o acto religioso tem a sua objectividade. Surge claramente direccionado para uma entidade de contornos precisos. É evidente que esta há-de permanecer sempre transcendente. Nunca se deixará compreender nos conceitos que lhe são aplicados. Mas tal não inibe o esforço de a designar e clarificar. Vê-se nessa entidade um desígnio que pode ser mais ou menos representável. O objecto do acto religioso é, de facto, uma pessoa divina, considerada absoluta e perfeita, com quem se estabelece uma relação de oração e de amor. Note-se que as duas diferenças da New Age face à religião autêntica estão relacionadas entre si. O facto de o sagrado, nela visado, ser indeterminado, faz com que ele tenha menor peso sobre o indivíduo. Convém a este que assim seja, para poder realizar à vontade o seu próprio jogo. O indeterminado torna-se fácil de manipular. Afigura-se dócil a quem lida com ele. Porém, no acto religioso não se passa assim. O carácter objectivo da entidade nele visada vai conferir mais força face ao indivíduo. É certo que este não deixa de ter expectativas em relação a ela. Mas tal entidade lança-lhe também obrigações quanto à forma de conduzir a existência. A partir do momento em que o divino é pessoal, já não há apenas uma entidade a exprimir necessidades e desejos. Existe outra a interpelar também com ideais e projectos.

Domingos Terra, SJ

in Didaskalia, 2008 (I)

08.07-2008

 

 

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