
Novo romance de Inês Pedrosa com palavras do Padre António Vieira
Em 2008 assinalam-se os 400 anos do nascimento do Padre António Vieira. Um «site», ainda em construção, está a ser preparado para acolher as informações sobre as múltiplas actividades culturais a realizar durante o "ano vieirino".
Os escritos desta eminente personalidade iluminam o novo romance de Inês Pedrosa (n. 1962), A Eternidade e o Desejo, e inspiram um segundo livro da autora, a publicar dentro de algumas semanas: "No Coração do Brasil - Seis cartas de viagem ao Padre António Vieira", com ilustrações do pintor João Queirós.
Com a devida vénia, apresentamos um excerto da entrevista concedida pela escritora ao Jornal de Letras de 21.11.2007. As perguntas são de Francisca Cunha Rêgo.
O que a levou a escrever sobre Padre António Vieira?
Guilherme d'Oliveira Martins convidou-me, em 2005, para participar na viagem que o Centro Nacional de Cultura (CNC) organiza todos os anos - "Os portugueses ao encontro da sua história". Essa viagem foi a origem de tudo. Devo confessar que, à partida, este tipo de 'excursão' não me motiva. Não gosto de acordar às cinco da manhã nem de ver imensas coisas no mesmo dia, porque não as consigo absorver. Mas a ideias de ir à Baía e seguir o percurso do Padre António Vieira fascinou-me. Assim que decidi fazê-la procurei ler a sua obra completa, mesmo o que nãop está publicado em Portugal, como o processo da Inquisição. Curiosamente, depois de o ter procurado nos sebos [alfarrabistas] brasileiros, acabei por encontrá-lo numa feira de antiguidades na Ericeira. Foi uma coincidência feliz. entretanto descobri o "Sermão da Nossa Senhora do Ó" sobre o desejo.
Foi desse sermão que retirou o título do livro "A Eternidade e o Desejo"?
Sim. Essa citação e o sermão do qual faz parte surpreenderam-me particularmente. A frase que foca a eternidade e o desejo pareceu-me sintetizar muito bem o tema central do meu romance, que dividi em duas partes, de acordo também com a citação. Uma das facetas para mim mais misteriosas do padre é o facto de ele nunca ter tido, que se saiba, uma paixão terrena. Sempre me questionei como era possível, uma vez que era um homem tão intenso, tão visceral e flamejante. mas de facto canalizou a sua paixão para o império celeste, para o Quinto Império, também para o seu rei e para a diplomacia em que esteve sempre envolvido. Neste sermão diz que a eternidade e o desejo são a mesma coisa.
Mas o que fundamentalmente a fascina na figura de Vieira?
Sempre me interessou a personalidade do escritor que intervém na sociedade. Para mim, um escritor que tem essa dupla faceta é imediatamente interesante. O Padre António Vieira não se limitou a intervir do ponto de vista da exigência da sua missão religiosa, foi um lutador pelos direitos humanos. E de uma forma pouco ortodoxa para a época. Foi perseguido e preso pela Inquisição por defender que não se deviam afastar os judeus, mas antes fazê-los aderir à religião católica de modo a permanecerem em Portugal. Ele tinha a noção de que onde estavam os judeus estava o dinheiro e o progresso. Hoje isso é visível no mapa da História, naquela altura não o era. Também era um defensor da independência e da liberdade dos índios. Nunca chegou a propor a abolição da escravatura, no entanto defendeu, tanto quanto lhe foi possível, os africanos. Tem vários sermões sobre isso e há um muito bonito em que compara o martírio dos escravos ao martírio de Cristo. É completamente revolucionário. A Igreja fechava os olhos a tudo o que se passava e ele nunca o fez. Todo esse lado político, de intervenção social que acompanhou o esplendor da sua escrita e da sua vida inteira me fascina.
À protagonista da sua história também. Foi por isso que intercalou excertos da obra do Padre António Vieira na narrativa?
Quis que a protagonista fosse cega, para se poder concentrar na luz das palavras dele. É evidente que também procurei recuperar esas palavras dado que tantas delas, apesar de tão actuais e actuantes, são hoje desconhecidas. Devo dizer que no início hesitei, porque pensei se teria o direito de me pôr a dialogar tão directamente com este texto, se seria muito ousado fazê-lo. E se calhar é. Evidentemente que o meu texto não procura competir com o do Padre, nenhum texto pode competir com ele, mas eu vejo a literatura como um diálogo através dos séculos. Pretendi por um lado chamar à atenção para o seu texto, e por outro trazê-lo para os dias de hoje mostrando como não envelhece.
© Jornal de Letras - Publicado em 05.12.2007
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