
Primeiro volume da "Obra Selecta", de João Francisco Marques
Há anos que acalentava o desejo de ver estes textos publicados. João Francisco Marques, 79 anos, historiador, professor universitário jubilado e padre, acaba de dar à estampa o primeiro tomo da sua “Obra Selecta”, num volume dedicado à Religião e à Política no Antigo Regime. “O problema da Palestina e a Tutela dos Lugares Santos”, a “Primeira Jornada de D. Sebastião a Marrocos” ou “D. Duarte e a complexidade de um breve reinado” são alguns dos temas que aborda neste volume, o primeiro de uma colecção de cinco.
Nascido na Póvoa de Varzim, em 1929, João Francisco Marques licenciou-se em História, na Universidade de Coimbra, foi docente (e director) da Faculdade de Letras do Porto, da Universidade Católica, nos núcleos de Braga e Porto. Em Paris, seguiu o curso de Jacques Le Braun, na École Pratique des Hautes Études e o seminário especializado de Jean Delumeau, titular da catedra de Sociologia Religiosa, no Collège de France. Entre outras obras publicou “A Parenética Portuguesa e a Dominação Filipina”, “O Clero Nortenho e as Invasões Francesas” e “Poder Eclesiático e Implantação Regional”. Grande amigo de Manoel de Oliveira, foi seu consultor e colaborador no argumento de filmes como “Quinto Império” e “Non ou a vã glória de mandar”, participando ainda, como actor, em vários dos seus filmes. Actualmente, é académico de mérito da Academia Portuguesa de História, Presidente da Direcção do Centro de Estudos Regianos e da Unidade de Investigação da Fundação Ciência e Tecnologia, membro do Centro Inter-Universitário de História da Espiritualidade, do Centro de Estudos Africanos (FLUP) e do Centro de Estudos de História Religiosa da Universidade Católica Portuguesa.
Quais são as grandes linhas de pensamento desta “Obra Selecta”?
Tudo o que tenho escrito tem sempre uma grande matriz histórica. Mas a sociologia, a antropologia e também a literatura doseiam muitos destes textos. Como trabalho fundamentalmente em textos impressos, recolho todos os elementos que vou encontrando através de uma linha cronológica e procuro alargá-la de uma forma contextualizante. Mas todos esses textos não deixam de acusar uma preocupação nítida na direcção da História das Mentalidades, dado que a minha passagem por Paris, como discípulo do grande mestre Jean Delumeau, me marcou profundamente.
Porque decidiu compilar agora todos estes textos?
Desejava há muito reunir muitos dos meus textos impressos ao longo de vários anos, até que finalmente surgiu um amigo de Lisboa [José Eduardo Franco] que encaminhou tudo no sentido de que houvesse uma editora capaz de reunir o volume e alguém a apoiá-lo. Ora a Câmara Municipal da Póvoa de Varzim, através do seu pelouro da Cultura, resoleu subsidiar o projecto e a Roma Editora encarregou-se da publicação.
E como se vai organizar a colecção?
Em princípio serão cinco volumes. Este primeiro, em dois tomos, é dedicado à política e à religião. O próximo é voltado para a religião e a política na oratória sagrada, nos séculos XVII e XVIII. Os seguintes poderão focar-se em Régio ou no Padre António Vieira. Talvez publique alguns textos referentes ao ensino de Teoria da História que, durante mais de vinte anos, leccionei na Faculdade de Letras do Porto.
Como estruturou esta “Obra Selecta”?
Estes textos são dominados por três pontos. O primeiro está voltado para a história religiosa de natureza política, com um texto antigo, de 1950, que não deixa de ter uma certa actualidade, até por ser pioneiro no tratamento do tema: o problema da Palestina e a tutela dos lugares santos. Essa matriz alarga-se com mais dois textos ligados ao Sebastianismo em Portugal, um dos grandes pontos do livro. A primeira jornada de D. Sebastião em África e um texto, que considero revelador em muitas facetas, centrado sobre um pregador régio, que não deixou obra impressa, mas que teve uma grande influência no seu tempo: Frei Miguel dos Santos. Era um Agostinho que acabou por ser enforcado em Madrid, porque viveu uma conspiração denominada na História por “conjura do pasteleiro de madrigal”. o tratamento desse tema teve para mim um interesse muito grande, porque tentei descobrir o que levou à sua organização, como foi conduzida e quais as suas ramificações. Há também uma série de textos ligados ao confessor régio em Portugal, uma figura que me interessa muitíssimo.
Centra-se na religião e política ao longo do Antigo Regime. Que paralelos se podem encontrar no século XXI?
Compreende-se que naquele tempo a religião e a política estivessem intimamente unidas, porque se vivia numa sociedade de Antigo Regime, entre o trono e o altar. É natural que a simbiose entre as duas grandes instituições, vivendo em harmonia e coincidindo nos seus objectivos, fosse muito estreita. Hoje, num país maioritariamente crente, a religião é um suporte fundamental da nação. Por isso, não só o Estado deve ter uma intenção colaboradora, como também a Igreja não pode entrar em colisões. Nos nossos dias as condições são completamente diferentes, no entanto vemos que os contactos entre religião e política continuam a ser, por vezes, estreitos. Há zonas de intervenção em que é preciso uma certa sensibilidade para mutuamente se poderem escutar. Isso parece-me que de alguma maneira se pode tirar através de vicissitudes que os vários tempos e os vários incidentes que motivaram alguns desses casos podem de alguma maneira mostrar-nos. São sugestões que se vislumbram.
E como homem da Igreja, como vislumbra essas sugestões?
O problema torna-se difícil por causa das ditas sensibilidades ou partidarizações da política. Uma política baseada democraticamente em partidos que actuam livremente e que têm uma ideologia própria – mas também uma estratégia pragmática em função do seu eleitorado – torna bastante difícil este diálogo. O interlocutor primeiro é o partido do poder, o responsável pela governação. A Igreja é mais monolítica, porque hierarquicamente constituída, e ao mesmo tempo com uma ortodoxia que procura que seja aceite e seguida. A Igreja está talvez na melhor posição de emitir um ponto de vista que quer ver assegurado. O Estado olha não apenas para a sua própria ideologia, mas também para as sensibilidades políticas que estão em campo, podendo, através da imprensa, emitir as suas opiniões, para além de as emitirem nos lugares próprios, como o parlamento. Eis porque hoje este diálogo é algo muito delicado e que precisa de ser conduzido com grande sentido de que por detrás de tudo está um povo maioritariamente crente. E por detrás tudo ainda, há uma Igreja actuante que tem aquilo que eu, que sou um historiador da parenética, procuro chamar à atenção em todos os meus estudos que é como o púlpito acaba por ser um grande meio de comunicação social. Todos os Domingos em centenas, se não milhares, de templos há uma voz autorizada que fala e que, em princípio, é escutada em silêncio.
Entrevista de Francisca Cunha Rêgo
in Jornal de Letras, 27.08.2008
11.09.2008
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Obra Selecta
Religião e Política
Tomo I - Vol. I
Autor
João Francisco Marques
Editora
Roma Editora
Páginas
352
Ano
2008
Preço
€ 29,90
ISBN
978 972 849 09 80
