
O meu bem é o bem do todo
Os tempos de crise – e o nosso é-o seguramente – são propícios à revisão de modos de ser e estar na vida. É esse, aliás, um dos méritos das crises. Obrigam a parar e a questionar e, na melhor das hipóteses, a procurar patamares superiores da existência humana, no plano pessoal e colectivo, como caminhos de superação da própria crise.
É nesta perspectiva que ouso propor à nossa reflexão para os meses de férias o critério do bem comum como princípio básico de conduta pessoal e norma aferidora da economia, da política e da organização da sociedade.
Tema central do cristianismo, a noção de bem comum está intimamente ligada ao valor conferido à pessoa humana, na dupla vertente de individualidade e de dimensão relacional. Nenhum ser humano subsiste sem o reconhecimento da sua singularidade, mas também sem a consciência e sem a experiência da sua relação com o outro, sejam os outros seres humanos mais ou menos próximos, a natureza, a cultura, a sociedade. A tal ponto assim é, que o bem individual de cada ser humano está indissociavelmente ligado ao bem do todo. O comprovativo mais eloquente desta afirmação é a paz que, sendo desejo universal que habita o coração humano, só é realizável como um bem comum.
O individualismo em que a cultura contemporânea ocidental caiu e leva cada um a procurar o melhor lugar nos rankings da competitividade, nos negócios como nos afectos, na empresa como na escola, na política como nas múltiplas organizações, só pode conduzir à frustração, ao desperdício de energias, à predação de recursos, ao empobrecimento recíproco, ao avolumar de tensões e, no limite, ao conflito e à guerra. A tomada de consciência deste foco de infecção da vida em sociedade deixa pressentir um desejável ponto de viragem que importa acolher como nova realidade emergente portadora de futuro.
Temos, hoje, a sensação que as pessoas andam descontentes, inseguras e que há uma zanga larvar que se instalou nos nossos quotidianos. O azedume traduz-se em falta de gentileza nas relações interpessoais ou nos transportes públicos, em agressividade diante de pequenas contrariedades e, muito especialmente, numa fraca disponibilidade para a cooperação na resolução dos problemas de trabalho ou mesmo de âmbito familiar. Como alguém dizia, temos a sensação de viver em sociedades que não são compostas de indivíduos que querem viver em conjunto (Ricardo Petrella).
Neste tempo de crise, há que fugir da tentação da “conquista” e do reforço das lógicas do “salve-se quem puder” que só podem levar à exclusão e ao conflito social ou seja ao aprofundamento da própria crise.
Ao invés, eu diria que precisamos de reaprender a gostar de viver em conjunto e a re-centrar as nossas decisões pessoais e colectivas no bem comum. É uma tarefa de todos e, com maior fundamento e exigência, para quem recebeu o dom da fé num Deus que é convite perene ao Amor.
A aplicação sincera deste olhar de bem do todo fará mudar radicalmente os nossos referentes existenciais e as nossas opções em matéria de organização de vida pessoal e colectiva e abrirá rotas de futuros portadores de vida mais harmoniosa e feliz.
Façamos destas férias um tempo de desaprender modos de ser hedonista, e de prática de um outro olhar – aquilo que mais aproveita ao todo de que sou parte.
Manuela Silva
28.07.2008
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