
População prepara Procissão da Burrinha
Um cortejo único na sua forma de organização, ultrapassando os 800 figurantes, a Procissão da Burrinha já mexe pelas ruas da freguesia de S. Victor. Todos cumprem religiosamente a sua função. E, pela primeira vez, em apenas 15 dias o número de inscrições atingiu o limite.
Cada um sabe exactamente o que tem que fazer, por isso, “os preparativos estão na recta final”, garantiu o padre José Carlos Azevedo, admitindo, no entanto, que “há sempre coisas que surgem nas últimas horas para se fazer”.
Sobre a adesão dos figurantes à procissão, o padre confirmou que “em 15 dias as inscrições esgotaram”. E os participantes vão chegar de todo o lado, até de Lisboa há inscrições.
Como todos os anos há novidades, este ano não é excepção. “O quadro da responsabilidade do Colégio de Montariol vai ser diferente”, adiantou aquele responsável, lembrando que o da catequese, como sempre, também é diferente. “Vai ser dedicado à família pelo terceiro ano consecutivo, fazendo um resumo do que viveram nestes três anos”.
A procissão é a que tem o percurso mais longo. Além disso, “chama muitas pessoas por ser diferente. Tem mais movimento, as outras são mais estáticas e solenes. Aqui há mais interacção e novidade”, justificou o padre da paróquia.
A Procissão da Burrinha, nome que o povo adoptou para a história que retrata, em cortejo bíblico, o momento de reflexão, designado simbolicamente como ‘Vós Sereis o Meu Povo’ sai à rua no próximo dia 19, a partir das 21h30.
Os figurantes apresentarão um sempre renovado guarda-roupa de grande qualidade, confeccionado com muita ‘paixão’ por dezenas de costureiras, reconvertidas nesta altura para esta função, e que aumentam o guarda-roupa exclusivo da comissão organizadora.
A procissão segue o percurso habitual. Sai da Rua de S. Victor, seguindo o Largo de Senhora-a-Branca, Avenida Central, Rua do Souto, Avenida Central e regressa à Rua de S. Victor.
E José Carlos Azevedo aproveita, ainda, para deixar uma mensagem: “venham à procissão, porque é, sem dúvida, uma história bíblica, o resumo do antigo testamento até à Páscoa”. Por isso, o pároco salienta a importância do “espectáculo”, porque vai permitir aos presentes “viverem o que está na bíblia e que passa despercebido no dia-a-dia”.
Na noite, antes da procissão, são distribuídos panfletos com a história de cada quadro e no início de cada um também há um resumo explicativo. “Espero que as pessoas ganhem curiosidade e deixo aqui o desafio para virem, verem e depois pegarem na bíblia e, quem sabe, no próximo ano participarem na procissão”.
Histórias para contar
Tudo aquilo que é necessário para pôr a procissão na rua dá muito trabalho. “Dou cabo de uns dias de férias por causa da procissão da burrinha e este trabalho implica sempre 30 a 40 pessoas durante muito tempo”, salientou Manuel Gonçalves, que há muitos anos está na organização.
Para além da equipa que confecciona a roupa, há ainda trabalho para o homem das lanternas, o responsável dos adereços e, claro, arranjar a burrinha.
“A procissão passa muito rápido, mas no final sentimo-nos realizados com o trabalho realizado”, confessou.
E há muitas histórias para contar. “Uma vez íamos buscar à ponte do Porto o burro. Chovia muito e ao entrar na carrinha, caiu e não se segurava de pé. Tivemos que chamar mais gente para o ajudar a levantar-se. Faltava meia hora para começar a procissão e ainda estávamos por lá. Lembrei-me de pegar numa vergasta e dei-lhe... Colocou-se logo a pé”, recordou.
Outro ano, foram a Aguçadoura, na Póvoa de Varzim, buscar a burrinha. “Nessa noite choveu tanto que a procissão não passou da Senhora-a-Branca. A carrinha estava escorregadia e ninguém conseguia lá colocar a burrinha. Passadas três horas lá conseguimos. Eram três da manhã quando a fomos levar a casa”.
Voluntárias entre linhas e agulhas
As máquinas de costura são antigas, mas continuam a dar ‘conta do recado’. As linhas, agulhas e tecidos estão espalhados pela mesa, colocada ao centro da pequena sala, e as voluntárias do costume trabalham com “muita boa vontade e alegria” para que na noite da Procissão da Burrinha tudo esteja “impecável”.
Assim confeccionam centenas de roupas para a procissão. Todos os dias à noite a ‘novela’ de algumas mulheres passa a ser o ‘atelier’ de costura em S. Victor. Umas cortam, outras alinhavam e há ainda outras que cozem nas máquinas “já a pedir reforma”, desabafam. Mas é “proibido reclamar”, pode ler-se numa folha por lá exposta.
Vera Lúcia Barros é a responsável pela confecção da roupa para a procissão. “Já somos uma família, estamos sempre à espera para começar a trabalhar”, atirou com o seu sotaque brasileiro.
Desde o dia 11 de Fevereiro, todos os dias da semana, lá estão elas a ‘picar’ o ponto. Não vale faltar.
Orquídea, a modelista da casa “com nome de flor e tudo”, continua atenta aos seus afazeres. Mas das 21h00 até às 23h30 há tempo para tudo. “Rezamos todos os dias quando começamos a trabalhar, depois cantamos, resmungamos com as máquinas. Vale tudo”, contam, enquanto costuram.
Deolinda, mais conhecida por ‘Lindinha’, também nunca se esquece dos docinhos e do chá. E atirou: “Andamos aqui por pura carolice e quando chega a hora da procissão vamos todas vaidosas”.
José Borges, o único homem no meio das mulheres é o que ‘corta’. Técnico Oficial de Contas, inicialmente só aparecia porque andava a estudar os trajes. Hoje é o homem da tesoura, confessando que “o mais difícil” de fazer foram as fardas dos soldados romanos. “Deu muito trabalho e fizemos muitas experiências com farrapos”, confessou. Os fatos têm que ser genuínos e verdadeiros, daí há “muito trabalho de casa”, garante. E até os chinelos dos egípcios vieram do Egipto.
A meio da noite, aparece o presidente da Junta de Freguesia com o tradicional ‘chá gelado’. As ‘jovens’ param um pouco para se deliciarem com as empadinhas e, claro, um copinho de branco. “O trabalho que se vê lá fora resulta de tudo que se faz por aqui e isto é apenas um ‘miminho’ que sabe sempre bem. É o mínimo que se pode fazer por pessoas tão bairristas, abnegadas e altruístas”, justificou o presidente, Firmino Marques. Depois da meia hora ‘saborosa’, as costureiras voltam a arregaçar as mangas. Voltam a rir, falar e, claro, trabalhar. “Chego a casa tão cansada que aterro na cama como uma avioneta”, atira Adelina Vieira.
Veja a reportagem da Procissão de 2007
Patrícia Sousa
10.03.2008
Topo | Voltar | Enviar | Imprimir
![]()
