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Em Portugal não se come mal

Repetir Deus

Quando se pensa nas coisas boas da vida não é só o pensamento, como quem reflecte ou considera é com vontade delas que se pensa. Sejam as pessoas que amamos ou um bacalhau à Gomes de Sá ou um inédito de Samuel Beckett, pensa-se nelas porque a ausência naquele momento delas é o que força o pensamento.

Neste mundo a repetição é o maior e mais constante terror, um ritmo assassino que apaga as melodias mais simples da vida. O ter de levantar, o ter de lavar os dentes, o ter de ir comprar papel higiénico, o ter de aparecer e envelhecer, o ter de aturar e trabalhar em geral é sempre igual e repetido. E é a repetição que torna estas coisas tristes. Mas injustamente.

Porque lavar os dentes, em si, até é muito bom. O sair de casa e ser confrontado com uma variedade imensa de papéis higiénicos, com tudo o que nos dizem acerca do engenho humano e da persistência do espírito da inovação e do comércio; o acto de escolher e a acção de pagar - até isto seria em si um pequeno prazer, caso não fosse repetido.

Mas nas coisas boas é precisamente a repetição que mais se deseja. O que se quer - e tantas vezes se consegue, por isso mesmo, sei lá - é aquela série de beijinhos às duas da tarde; aqueles lagostins tal e qual, aqueles versos exactamente, lidos pela milésima vez.

Não pode haver, nesta vida em que a repetição mata, maior louvor a uma coisa amada do que querer unicamente, muitas vezes, repeti-la. Não sei mesmo - e até escrevi a minha tese de doutoramento sobre ela - se a própria saudade não é mais do que a simples vontade de repetir o que já se conheceu com tanto agrado.

No resto da vida procuramos o novo, o desconhecido, o imprevisto, o que não sabíamos existir. O filme novo, a sensação nova, o diabo a sete. Mas nas coisas que amamos, que nos dão o verdadeiro prazer de existir como seres sensíveis e selectivos, um prazer tão profundo e complicado que até parece, às vezes -  e com razão linda -  monotonia, aquilo que queremos é somente repetir, voltar a sentir o mesmo, confirmar.

E assim como não se pode fazer elogio mais romântico a uma mulher do que esperar que nada nela tenha mudado desde ontem -  ou o minuto anterior -  também não há maior prova de desamor do que sugerir pequenas alterações, propor minúsculas reformas e tudo o mais que implica, de uma forma ou de outra, insatisfação.

A morte do meu pai ensinou-me isto. Se Deus me desse o que nem ele pode dar -  o regresso dele - eu tenho a certeza que preferiria continuar órfão a acolher um mesmo homem, mas dalguma forma melhor, no sentido de não ter os defeitos que reconhecia nele. No amor mais horroriza a diferença do que qualquer outra coisa.

O meu pai, por exemplo, só amava loucamente duas coisas: a minha mãe e estudar. Quando estava com ele, muitas vezes, a ideia paradisíaca dele é estarmos os dois a ler, interrompendo de vez em quando para discutir longamente os erros ou os acertos dos livros que estávamos a ler. Ele ensinou-me a escrever nas “margens” dos livros sem ser apressadamente, com o mesmo respeito que os autores o tinham escrito.

Depois, trocávamos de livros, um à frente do outro, e líamo-los, mais os humildes comentários que tínhamos feito nas “margens” -  ou, mais geralmente, em folhas separadas, já que os livros, graças à ignorância geral das pessoas, nunca têm espaço suficiente para nos deixar responder, ou falar com eles.

Se me perguntassem hoje se eu queria que ele voltasse para falar directamente comigo, naqueles anos todos dos dois um à frente do outro, de livros nas mãos, eu diria com o coração todo que não. Eu queria-o e agradecia-o só como ele era, e da maneira com que existia. E digo o mesmo quando penso nas minhas filhas e na minha mulher. Qualquer mudança, mesmo ou então no sentido do que abstractamente consideraria melhor, partiria o meu rico coração.

A maior lição de vida que recebi foi-me dada pelo Rabi Assor, o professor judeu que morreu em Lisboa e que eu tive a felicidade de conhecer bastante bem. (Isto dito como se o bem não bastasse sempre.)

Quando da primeira vez que fui à Sinagoga, para lhe dizer que me queria tornar judeu, a primeira pergunta que me fez - depois de tentar dissuadir-me, como manda a tradição - foi esta: “Quais são os feriados que vêm na Tora?”. Eu, apesar de ter estudado muito, enganei-me indecentemente. E ele então recitou-os.

Perante um homem tão sábio e tão bom a minha curiosidade académica, de filósofo enfastiado, foi logo perguntar: “Ó Rabi, não se cansa de estar sempre a repetir as mesmas coisas?” E ele zangou-se! Perdeu a paciência infinita que tinha. Disse-me assim:

“Repetir é divino. Mesmo com a professora da primeira classe, passar a vida a repetir que “2 vezes 2 são 4” é o sinal de amar a Deus. Uma pessoa aborrecer-se a dizer sempre a mesma coisa, para ensinar aos meninos a verdade, é uma prova de humildade. Os Mandamentos são os Mandamentos. Não pode haver um novo mandamento todos os anos. Repeti-los - e não aprender nada com isso, senão o prazer de ensinar e a consciência de estar a servir Deus, é que mostra que fomos criados à imagem dele.”

Fiquei muito condoído e o Rabi Assor reparou. Então disse-me:

“Eu também sou uma criança para as coisas que você sabe. Se você repetir o que já sabe – em vez de provocar entretenimento, que é o que nos diverte a todos – então é sinal que quer o meu bem.”

E podia ter acrescentado: “Porque se sacrificou. Enunciou o que sabe e conhece; perdeu este tempo por mim, abdicou do prazer da novidade. Numa única palavra, igualmente divina: contemplou-me.”

Miguel Esteves Cardoso

in Em Portugal não se come mal

28.10.2008

 

 

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Capa

Em Portugal
não se come mal

Autor
Miguel Esteves Cardoso

Editora
Assírio & Alvim

Páginas
442

Ano
2008

Preço
€ 21,60

ISBN
978-972-37-1225-4
















































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