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Poesia

Ruy Belo faz hoje 75 anos

Vestigia Dei

És tu quem perseguimos pelos lábios
e tens em equilíbrio os seres e o tempo
És tu quem está nos começos do mar
e as nossas palavras vão molhar-te os pés
Tu tens na tua mão as rédeas dos caminhos
descem do teu olhar as mais nobres cidades
onde nasceram os primeiros homens
e onde os últimos desejarão talvez morrer

Tu és maior que esta alegria de haver rios
e árvores ou ruas donde serem vistos
Por ti é que aceitamos a manhã
sacrificada aos vidros das janelas
aceitamos por ti o sol ou a neblina
que faz dos candeeiros sentinelas
É para ti que os pensamentos se orientam
e se dirigem os passos transviados
e o vento que nos veste nas esquinas

És sempre como aquele que encontramos
diariamente pela rua fora
e a pouco e pouco vemos onde mora
Só tu é que nos faltas quando reparamos
que os papéis nos vão envelhecendo
e os dias um por um morrendo em nossas mãos
És tu que vens com todos os versos
És tu quem pressentimos na chuva adivinhada
quando os olhos ainda se nos fecham
embora o sono nunca mais seja possível

É tua a face oposta a todas as manhãs
onde o tempo levanta ombros de espuma
que deixam fundas rugas pelas faces

Os céus contam contigo é para teu repouso
a terra combalida e sem caminhos
Ser indecomponível teu corpo foi maior
que vítimas e oblações. Quando tu vens
a solidão cai leve como a flor do lírio
e as avaes nos pauis levantam voo
e há orvalho em teus primeiros pés

Não assistisses tu a esta nossa vida
caíssem-nos os gestos ou quebrados ou dispersos
e nenhum rosto decisivo um dia fecharia
todas as palavras com que dissemos os versos (RB)

 

Evocação e criação de prémio nacional

Os 75 anos do nascimento do poeta Ruy Belo são assinalados hoje, 27 de Fevereiro, na sua terra natal, S. João da Ribeira, lançando a Câmara Municipal de Rio Maior nesse dia o Prémio Nacional Poeta Ruy Belo.

Ana Cristina Silva, vereadora com o pelouro da Cultura, disse à agência Lusa que o prémio, de âmbito nacional, visa distinguir obras poéticas em língua portuguesa e, simultaneamente, homenagear Ruy Belo.

Ruy Belo

O prémio, que deverá ter periodicidade anual, não tem ainda regulamento aprovado, dando a autarquia início ao processo na quarta-feira com uma primeira deliberação camarária, esperando Ana Silva que seja aberto concurso em meados do ano.

Quarta-feira, além de uma romagem ao cemitério de S. João da Ribeira, com deposição de uma coroa de flores na campa do poeta, a autarquia inaugura, à tarde, uma exposição bibliográfica, ao som de um CD com poemas de Ruy Belo lidos por Luís Miguel Cintra, seguindo-se uma palestra por Henrique Fialho sobre a vida e a obra do poeta.

Ruy Belo, filho de professores, nasceu e viveu a infância em S. João da Ribeira, terra que guarda uma imagem "querida" do poeta, mas também uma mágoa, a de não ter nada que assinale a sua pertença à terra, o presidente da junta de freguesia.

José Luís Cruz, presidente da Junta de Freguesia de S. João da Ribeira, afirmou que gostaria de ter na aldeia uma estátua ou um busto de Ruy Belo e concretizar uma ideia antiga, a de dar uso à casa onde o poeta nasceu e viveu e que é propriedade da autarquia.

No seu entender, no edifício poderia ser instalada uma biblioteca/centro de leitura ou, de preferência, "mobilar a casa e torná-la residência de escritores que quisessem vir para aqui um período escrever, como já se faz em toda a Europa".

Ana Silva disse que estão em curso conversações com a família no sentido de ser dado um destino à casa, como museu e "casa onde possam ficar escritores", além de estar em análise a colocação de uma estátua de Ruy Belo numa das rotundas da cidade.

Segundo disse, o poeta não tem sido esquecido, existindo uma sala com o seu nome e o seu busto na Biblioteca Municipal Laureano Santos, além de, há uns anos, ter sido atribuído o seu nome à casa onde nasceu em S. João da Ribeira.

Para José Cruz, a prova de que Ruy Belo nunca perdeu a ligação à sua terra natal está não só nos seus escritos - "a referência à infância feliz, ao quintal da casa, ao mundo rural" -, mas também no facto de ter escolhido a aldeia para ser sepultado.

Ruy Belo nasceu em S. João da Ribeira, em 1933. Licenciou-se em Direito (1956) e em Filologia Românica (1967) pela Universidade de Lisboa. Doutorou-se em Direito Canónico (1958), pela Universidade de S. Tomás de Aquino, em Roma. Foi crítico, jornalista, fez numerosas traduções (por exemplo de Cendrars, Saint-Exupéry, Lorca e Borges) e ocupou durante os anos setenta o lugar de leitor de Português na Universidade de Madrid.

Casa-se em 1966 com Maria Teresa Carriço Marques, nascendo deste casamento três filhos. Em 1969 é candidato a deputado pela lista da CEUD que agrupa um dos sectores da oposição ao regime ditatorial.

É chefe de redacção da revista "Rumo" e colabora com publicações periódicas, como "O Tempo e o Modo" e "Ocidente".

Regressa a Portugal em 1977, para dar aulas no ensino secundário. Morre na sua residência, em Queluz, em Agosto de 1978.

 

Promoção

No «site» da editora Assírio & Alvim, a data dos 75 anos de Ruy Belo é relembrada: os seus livros são vendidos com 30% de desconto.

 

A rua é das crianças

Ninguém sabe andar na rua como as crianças. Para elas é sempre uma novidade, é uma constante festa transpor umbrais. Siar à rua é para elas muito mais do que sair à rua. Vão com o vento. Não vão a nenhum sítio determinado, não se defendem dos olhares das outras pessoas e nem sequer, em dias escuros, a tempestade se reduz, como para a gente crescida, a um obstáculo que se opõe ao guarda-chuva. Abrem-se à aragem. Não projectam sobre as pedras, sobre as árvores, sobre as outras pessoas que passam, cuidados que não têm. Vão com a mãe à loja, mas apesar disso vão sempre muito mais longe. E nem sequer sabem que são a alegria de quem as vê passar e desaparecer. (RB)

 

Artigo relacionado:
Em redor de um livro: "A solidão dos filhos de Deus"

 

in O Mirante | Assírio & Alvim | SNPC

27.02.2008

 

 

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