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Ano Paulino

Viagens pelos caminhos de S. Paulo

Paulo de Tarso pode representar, dois milénios depois do seu nascimento, um bom mercado turístico, especialmente neste Ano Paulino, que assinala os dois mil anos do nascimento do “apóstolo dos gentios”.

"Provavelmente, o país que mais tem ganho com São Paulo é a Turquia. “É um país único para o mundo cristão”, diz ao “Público” Francisco Moura, director do turismo religioso e cultural da Geotur, que trabalha neste sector há já 30 anos.

“O livro do Apocalipse, as viagens de São Paulo, algumas das mais importantes das primeiras comunidades cristãs” – muitos dos lugares da actual Turquia têm a er com esses actos fundadores do cristianismo.

Claro que, nos últimos anos, a Turquia tem beneficiado também do facto de Israel e a Palestina estarem em situação de guerra. “A Terra Santa só não é o primeiro destino religioso quando há problemas de segurança”, confirma Francisco Moura. A Turquia surge assim como grande beneficiário da quebra do turismo para a Terra Santa. Istambul (antiga Constantinopla), as igrejas da Capadócia, Antioquia da Síria (onde pela primeira vez os seguidores de Jesus foram chamados de “cristãos”), Tarso, Esmirna ou Éfeso (onde a tradição diz que morreu a mãe de Jesus e se realizou um importante concílio em 431) são lugares demasiado importantes dos primeiros séculos para ficarem apenas para vagas referências bíblicas ou históricas.

 

Da Turquia a Malta

O responsável da Geotur diz que há alguns anos a Turquia “não pegava”. As circunstâncias e a insistência acabaram por conseguir impor o destino. Rui Sousa, da Paxtur, outra agência com programação importante no sector do turismo religioso, acrescenta que os voos directos de Lisboa para Istambul e a promoção daquele destino em Portugal também contribuíram para o crescimento do mercado em Portugal.

Entre os 150 grupos que a Geotur movimenta anualmente apenas no sector do turismo religioso, cerca de vinte têm a Turquia como destino principal (números deste ano). Na Paxtur, o total de grupos oscila entre os 100 e os 110, uma dezena dos quais, em média, destinados à Turquia. Mas Francisco Moura acredita que o Ano Paulino impulsionará ainda mais a procura deste destino.

Para seguir as pegadas de São Paulo no actual território turco, Francisco Moura propõe um itinerário ideal: Antioquia da Síria (com a gruta de São Pedro, onde a “cátedra” do apóstolo começou, antes de chegar a Roma), tarso, Capadócia, Éfeso, Esmirna, istambuç, Niceia. Já em território grego, esse programa ideal ficaria completo com Atenas (onde Paulo pregou no Areópago), Tessalónica, Filipo e Delfos.

Seriam doze dias, para ver todos estes lugares relacionados com São Paulo. Mas as agências que têm estes itinerários (além das duas já referidas, também a Verde Pinho e várias outras presentes no mercado) propõem geralmente programas um pouco mais curtos.

Para já, a Geotur tem apenas uma proposta de mais tempo: quinze dias para ver os lugares paulinos mais importantes em Israel, Jordânia, Síria, Turquia e Roma. De resto, os restantes programas andam quase todos pelos oito dias: um cruzeiro da Grécia à Terra Santa; uma rota entre Jerusalém e Damasco, seguindo a passagem de Paulo do judaísmo a apóstolo de Jesus; uma viagem entre Malta e Roma, últimas etapas da vida do apóstolo; os itinerários de Paulo na Ásia Menor ou na Grécia, por onde ele circulou em grande parte das suas viagens; e ainda um itinerário pelas cidades do livro do Apocalipse.

Na Paxtur, há dois programas, com vários anos de existência, para percorrer os caminhos paulinos na Grécia e na Turquia. Em Junho e Julho, a agência inicia outros quatro: Turquia e Chipre; Turquia e Síria; Turquia, Grécia e Síria; e Malta.

Nestes lugares carregados de história, mesmo para além do cristianismo, muitas pessoas procuram também uma dimensão cultural, para lá do factor religioso, confirmam ambos os responsáveis. Mesmo se a quase totalidade das viagens são acompanhadas por padres que assumem o papel de assistente espiritual. “As pessoas deslocam-se a estes lugares para rezar e celebrar a sua fé, vendo também o que está à volta”, diz Francisco Moura.

 

O arco paulino pelas terras do Mediterrâneo

Um bom conhecedor de geografia, homem polémico entre o herói e o vilão, que decidiu viajar incansavelmente – a pé, de barco ou de jumento – em nome da sua fé em Jesus, descrevendo um arco em redor do Mediterrâneo norte. As quatro “viagens missionárias” de Saulo de Tarso, ou São Paulo, acabam por proporcionar, a quem lhe segue as pisadas, o embarque “numa viagem abrangente pelas terras do Mediterrâneo”.

Foi, pelo menos, esse o projecto que Peter Walker, professor da Universidade de Oxford e especialista em Novo Testamento, meteu na cabeça e concretizou no livro “Nas Pegadas de São Paulo”, que será brevemente publicado pela Editora Paulinas.

“Contrariamente a Jesus, cujo ministério se confinou a uma área que não excedeu os 240 quilómetros de extensão, quando falamos de Paulo temos de considerar uma área (que, no máximo, vai de Jerusalém a Roma) de aproximadamente 2250 quilómetros, com uma panóplia de lugares pelo meio”, escreve o autor. Isto falando de uma altura em que viajar implicava muito tempo, um conjunto de perigos e um permanente confronto com o desconhecido.

Peter Walker propõe um itinerário original: pega no livro bíblico dos Actos dos Apóstolos, lê as quatro viagens encetadas por São Paulo e segue-lhe as pegadas. Descreve os lugares, recorda a história da presença de Paulo em cada sítio, apresenta a configuração actual de cada local e faz ainda uma sinopse dos acontecimentos importantes a ele ligados, antes e depois de Paulo.

Lugares de São Paulo? Walker atravessou as Portas da Cilícia, no Sul da actual Turquia, contemplou as planícies despojadas da antiga Galácia, visitou os mercados de Corinto, Atenas ou Éfeso e as praias geladas e ventosas de Malta.

Esta obra – ou melhor, a ideia de viajar pelo Mediterrâneo – começou em 1977, conta o próprio Walker. “Cinco anos depois, apenas com vinte anos, dei por mim a vaguear pelos campos de algodão da Turquia, em busca das ruínas da antiga cidade de Colossos, na época difíceis de encontrar. (...) Recentemente, foi construída uma estrada alcatroada que torna o seu acesso muito mais fácil. Desde então, a viagem prosseguiu” por lugares da Grécia, Turquia, Jordânia, Síria, Roma, Jerusalém, Chipre e Malta.

Lugares que Paulo visitou, lugares onde por vezes se demorou. Walker descreve as sucessivas viagens de São Paulo como “a história de como um homem acabou por chegar a Roma”. Nos Actos dos Apóstolos, esse é um “importante enredo secundário”. Paulo parte de Jerusalém no ano 46 para a sua primeira viagem, que o leva a Antioquia da Síria, Chipre, Antioquia da Pisídia e Listra, entre outros lugares. Regressa a Antioquia, a sua “Igreja de partida”, como lhe chama Walker, bem como “à Igreja matriz de Jerusalém”.

Os rumos das suas viagens vão-se alargando sucessivamente. Até chegar à capital do Império, Roma. Quase no final dos Actos dos Apóstolos, lê-se: “Volvidos três meses, tomámos um barco de Alexandria com o emblema dos Dióscoros, que tinha passado o Inverno na ilha. Aportámos a Siracusa, onde ficámos três dias e, de lá, contornando a costa, chegámos a Régio. No dia imediato, levantou-se o vento sul e, em dois dias, alcançámos Putéolos, onde encontrámos irmãos, que nos convidaram a passar sete dias com eles. E assim é que fomos para Roma.”

“A aparente simplicidade da afirmação [final] é um poderoso clímax para o relato” dos Actos dos Apóstolos, diz Peter Walker. Paulo foi decapitado em Roma, pelo ano 67, vinte anos depois de ter começado uma aventura única.

 

Aventuras, tumultos, prisões e discursos

De pé, no meio do areópago ateniense, Paulo de Tarso tentou convencer os cidadãos gregos de que o “deus desconhecido” ao qual eles tinham erigido um altar era o Deus dos judeus e de Jesus Cristo. Mas o discurso de Paulo no areópago – um dos episódios e um dos excertos mais notáveis dos Actos dos Apóstolos – foi o culminar de anteriores debates e alguma exasperação de Paulo: “O espírito fremia-lhe de indignação, ao ver a cidade repleta de ídolos”, conta o texto, da autoria do evangelista Lucas, companheiro de Paulo.

O apóstolo “discutia na sinagoga com os judeus e prosélitos e, na praça pública, todos os dias, com os que lá apareciam”, incluindo epicuristas e estóicos. “Uns diziam: ‘Que quererá dizer este papagaio?’ Outros: ‘Parece que é um pregoeiro de deuses estrangeiros.” Isto porque Paulo anunciava a Boa-Nova de Jesus e a ressurreição”, conta ainda Lucas.

Um dia Paulo é então levado ao areópago e começa o seu discurso: “Atenienses, vejo que sois, em tudo, os mais religiosos dos homens. Percorrendo a vossa cidade e examinando os vossos monumentos sagrados, até encontrei um altar com esta inscrição: ‘Ao Deus desconhecido.’ Pois bem! Aquele que venerais sem o conhecer é esse que eu vos anuncio.”

A passagem por Atenas é um dos episódios marcantes da segunda viagem missionária, antes da fundação da comunidade cristã de Corinto, que viria a ser uma das mais importantes “igrejas paulinas” – assim chamadas por terem sido fundadas pelo apóstolo.

É no livro dos Actos dos Apóstolos que as quatro viagens de São Paulo são contadas em pormenor. Depois de deixar Jerusalém e fundar uma comunidade cristã em Antioquia da Síria, Paulo parte com Barnabé para Chipre, naquela que será a sua primeira viagem missionária. Em Antioquia da Pisídia o apóstolo fez um discurso na sinagoga judaica, em Icónio permaneceu algum tempo, acabando ameaçado de apedrejamento. Listra é a última etapa da primeira viagem, antes do regresso a Antioquia da Síria.

A segunda viagem começa por um desacordo e a separação entre Paulo e Barnabé. Aquele dirigiu-se à Macedónia, onde acabaria preso, juntamente com o seu novo companheiro, Silas. A conversão do carcereiro antecede a libertação dos evangelizadores cristãos. Tessalónica e Bereia, antes de Atenas e Corinto, completam esta segunda viagem.

Galácia e Frígia são as etapas iniciais da terceira viagem, a que se segue Éfeso. Paulo tinha sempre a preocupação de começar por falar aos judeus, nas sinagogas. O seu entusiasmo levava, várias vezes, a reacções violentas da parte de muitas pessoas que o escutavam. A cena repete-se em Éfeso, onde os ourives que viviam de reproduzir santuários dedicados á deusa Ártemis sentiram que a pregação de Paulo ameaçava o seu negócio. Paulo regressou depois à Macedónia, passou à Grécia e a Milero, despediu-se dos anciãos de Éfeso e regressou a Jerusalém.

Na cidade, Paulo é de novo preso. Depois de dois anos de cativeiro em Cesareia, faz valer-se da sua condição de cidadão romano e apela para César, o que implicava o seu julgamento em Roma. Depois de várias vicissitudes e de mais alguns lugares, o apóstolo chega finalmente à capital do Império. No ano 67 é decapitado, após duas décadas de aventuras e viagens.

 

Veja os mapas das quatro grandes viagens de São Paulo

António Marujo

in Público (Fugas), 28.06.2008

09.07.2008

 

 

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Éfeso

























Foto Tarso
































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Antioquia (Síria). Igreja de S. Pedro





























Foto Selêucia






























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Antioquia (Pisídia)























Foto Mileto





























Foto Atenas
























Foto Corinto




























Foto Tessalónica (Igreja)



























Foto Asso
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