Vemos, ouvimos e lemos
Paisagens
Pedras angulares A teologia visual da belezaQuem somosPastoral da Cultura em movimentoImpressão digitalVemos, ouvimos e lemosConcílio Vaticano II - 50 anosBrevesAgenda VídeosLigaçõesArquivo

Bíblia

Jesus e o trabalho

A Galileia é menos a terra da erudição (e da escrita), que se situa sobretudo em Jerusalém, e mais a terra do mundo do trabalho, na qual têm a maior importância a agricultura, a pesca e os ofícios manuais, determinando o mundo quotidiano dos homens. Aí vive também Jesus de Nazaré.

A agricultura é considerado o mais importante recurso para os habitantes do Norte da Palestina. Flávio Josefo fala de modo elogioso da Galileia, terra «fértil em toda a sua extensão e rica em pastos, e além disso dotada também de todo o tipo de árvores, de tal modo que mesmo quem não encontre qualquer alegria no trabalho da terra se sente entusiasmado com a sua produtividade. Por isso toda a terra sem exceção foi cultivada pelos seus habitantes, e nenhuma parte ficou inculta».

A pesca é igualmente da maior importância. Também aqui se pode remeter para a descrição de Josefo: «As espécies de peixes que se encontram no mar distinguem-se pelo sabor e pela forma das de outras águas». As povoações urbanas de Cafarnaum, Magdala na Galileia e Betsaida na região de Pereia viviam da pesca, como bem mostra a tradição evangélica (cf. Mc 1,16-20; 6,53; Lc 5,1-11 etc.). No caso de Magdala, a pesca entrou mesmo na formação do nome do local: Magdala/Tarichea = peixe salgado. Em particular no Lago de Genesaré é naturalmente a pesca o recurso essencial. A atividade pesqueira, na sua maioria, estava aí organizada em corporações capazes de manter as grandes embarcações necessárias a uma pesca eficaz. Ao ofício de pescador pertenciam alguns dos discípulos de Jesus; à pesca estão ligados, na tradição de Jesus, os acontecimentos decisivos do chamamento dos discípulos; em Jo 21,1-14 é durante o seu trabalho de pescadores que o Ressuscitado se encontra com os discípulos.

O terceiro pilar do mundo galileu do trabalho é o ofício manual. Este era indispensável no tempo de Jesus, em especial tendo em vista a reconstrução da cidade de Séforis (desde o ano 2 a.C.) e a fundação da nova capital administrativa Tiberíades (anos 17/18 d.C.) por Herodes Antipas, mas também em geral na sequência da urbanização da Galileia. Eram procurados em particular trabalhadores da construção, mas desenvolveu-se igualmente o negócio de transporte. Os cântaros de barro encontrados na região de Betsaida mostram que também o negócio do barro era importante.

 

Jesus e o homem que trabalha

Jesus pertence à camada da população que trabalha (artesanalmente). Na aldeia de Nazaré, cresce como «Filho do “tekton”» (cf. Mt 13,55), exerce segundo Mc 6,3 a profissão de um artífice de construção. Um “tekton”não é equiparado a um «carpinteiro», antes a uma pessoa no essencial com várias facetas. Sob essa designação deve entender-se um artesão que, na construção, executa indiferenciadamente trabalhos de madeira e pedra.

Em consequência das políticas estruturais de Herodes Antipas (4 a.C. até 39 d.C.), tetrarca da Galileia e de Pereia, existe nos arredores de Nazaré um rico campo de atividade para o trabalho manual. Pode permanecer em aberto até que ponto Jesus ultrapassa Nazaré no âmbito do seu trabalho e onde exerce o seu ofício. Se acaso ele se detém na cidade vizinha de Séforis, também não o sabemos; as possibilidades de trabalho na pequena Nazaré são com certeza de tal modo limitadas que se podem presumir estadias de trabalho de Jesus fora da povoação. Mas se seu pai já é um “tekton”, o filho, como de costume, sucede-lhe na profissão. Muito provavelmente pode-se também dizer que a família de Jesus não tem qualquer oficina própria, mas que Jesus, tal como seu pai, viaja como jornaleiro e trabalha no seu ofício em diferentes locais. A itinerância, mais tarde característica da sua aparição pública, faz parte assim, já desde a sua juventude, da vida do Nazareno.

Deste modo, pode supor-se que Jesus conhece o mundo do trabalho por experiência própria, nele toma parte, e a sua vida anterior à sua aparição pública não se passa apenas na obscuridade. As imagens das parábolas e os caminhos percorridos que se conseguem reconstruir bastante bem nos seus traços principais a partir dos Evangelhos, revelam familiaridade com a vida real do quotidiano na Palestina. Com W. Bösen pode dizer-se que a vida de Jesus, antes da sua intervenção pública, se apresentava como um «conjunto paralelo e entrelaçado de inserção no quotidiano e de solidão, de duro trabalho corporal e de oração». Jesus estava no âmago da vida de trabalho e conhecia-a bem. E, não por último, é característico que Jesus antecipe a instrução de envio dos discípulos com a imagem: «A messe é grande, mas os trabalhadores são poucos. Rogai, portanto, ao dono da messe que mande trabalhadores para a sua messe.» (Lc 10,2)

Não é, portanto, por acaso que ele procura homens no seu trabalho diário para os chamar a seguirem-no. Disso obtemos uma ideia concreta, é certo, apenas com o chamamento dos dois irmãos Simão e André assim como de Tiago e João, em Mc 1,16-20, e com o chamamento de Levi (Mc 2,14), sentado no posto de cobrança pois provavelmente exerce a profissão de publicano. É certo que estes processos de chamamento estão esquematizados literariamente, mas aquilo que em todo o caso lhes está subjacente é a intervenção de Jesus no mundo do trabalho daqueles que ele chama a partir do seu contexto social. Que estes mundos do trabalho sejam descritos de forma distinta consoante retrato de pescadores ou de um cobrador de impostos não é assim tão decisivo, importante é o facto deJesus se aproximar dos homens no concreto do seu quotidiano.

 

O mundo das parábolas

As parábolas transmitem uma impressão particularmente instrutiva dos múltiplos mundos de trabalho e dos diferentes contextos de vida dos contemporâneos de Jesus. Na sua diversidade situacional, revelam que o trabalho, aos olhos de Jesus, constitui uma evidente missão; no seu mundo de trabalho, o homem é percebido com todos os seus talentos e riqueza de ideias. A Jesus não interessa o estatuto social de alguém ou o valor da sua atividade, por isso ele pode falar muito naturalmente de um servo ou de um senhor, de um proprietário ou de um criado, de um rei ou do seu exército. O servo que regressa do campo não deve apenas lavrar a terra do seu senhor, mas ajudá-lo ainda no trabalho doméstico (Lc 17,7-9), os servos são enviados a chamar os convidados para o banquete já preparado (Lc 14,16-24), mas também assumem a responsabilidade da casa durante aausência do senhor e devem estar preparados para esperar o seu regresso a qualquer hora (Mc 13,23ss). Também altas funções são representadas no mundo de trabalho do ambiente de vida de Jesus, como o administrador que ajuda o senhor na organização e distribuição do trabalho (Mt 20,1-16); mas pode ser igualmente o proprietário que contrata trabalhadores para a colheita.

São assinaláveis a diversidade e sobretudo as diferenças de estatuto social das atividades profissionais tematizadas nas parábolas: em Mt 13,45 trata-se, no contexto das parábolas do campo e da pérola, de um “emporos”, um «grande negociante», um exportador e importador, que está do lado dos abastados; do mesmo modo, desempenha o seu papel um prestamista (cf. Lc 7,41) que pertence ao número dos que tinham posses; na realidade tem má reputação; na parábola de Jesus, apesar do seu insólito comportamento, é apreciado muito positivamente. Por outro lado, fala-se de “georgoi”que arrendaram uma vinha de um proprietário (Mc 12,1). Trata-se, sem dúvida, de pequenos arrendatários que arrendavam um pedaço de terra de um latifundiário e pertenciam ao mesmo estrato social inferior dos jornaleiros a que provavelmente também pertenciam os membros da família de Jesus. O mundo imaginário das parábolas consiste geralmente em pessoas que, em diversas funções, estão ligados ao mundo laboral. O modo como a tradição de Jesus avalia o trabalho e nos mostra o homem trabalhador pode ser exemplificado com as parábolas que seguem.

A parábola dos trabalhadores da vinha (Mt 20,1-15) introduz-nos no centro do mundo do trabalho, das suas difíceis condições, mas também das preocupações pelo trabalho. O cenário em que surge o dono da vinhaquando, de manhãzinha, recruta para o trabalho jornaleiros que, na escala social, estavam ainda abaixo dos escravos, corresponde ao dia a dia da Palestina. Toda a parábola se apresenta marcada pelo trabalho. É certo que a narrativa está estilizada, quando nos apresenta o dono da terra a sair de três em três horas para ir à procura de novos trabalhadores, mas o que pretende sublinhar é a necessidade do empenho no trabalho e, sobretudo, no contexto do recrutamento ainda uma hora antes do fim do trabalho, a valoração negativa da inatividade. A razão pela qual aqueles que são trazidos no final, ainda não tinham encontrado trabalho é algo que não interessa ao narrador. O que importa é a tentativa do proprietário em motivar para o trabalho os que vagueiam por ali. O facto de ainda serem chamados uma hora antes do fim do trabalho, a eles surpreendeu-os certamente, em todo o caso não podiam contar com isso; mas para o narrador é importante que os jornaleiros acabem por trabalhar, mesmo que pouco tempo antes do fim.

Com o tema do pagamento provocador, o que importa nesta parábola é, afinal, que o homem não pode colocar quaisquer reivindicações perante Deus; não deixa no entanto de ser instrutivo o facto de o seu mundo imaginário se sustentar nas reais relações de trabalho e de o homem ser apreciado como trabalhador ainda que de forma paradoxal. O facto decisivo da parábola, ao narrar que os trabalhadores só brevemente empregados haviam recebido idêntico salário que os outros, só pode, aos olhos do narrador, elevar o valor do trabalho.

A parábola dos talentos (Mt 25,14-30/Lc 19,12-27) dá-nos conta de como a cada um se exige que faça o melhor possível com aquilo que lhe é dado. Trata-se de um homem rico que confia o seu capital a três servidores com a indicação de o investirem com lucro. Com o dinheiro posto à sua disposição os dois primeiros conseguem, cada um, duplicar a sua soma, enquanto que o terceiro guarda cuidadosamente o dinheiro que lhe foi entregue, mas sem se empenhar em qualquer trabalho. Ao passo que o senhor (Kyrios) elogia os dois primeiros servos e o narrador se limita a um seu relativamente curto louvor, abate-se sobre o terceiro o veredicto da preguiça apresentado com toda a minúcia e fundamentação. A imagem deste é a de um administrador receoso e hesitante, embora honesto, dos bens que lhe foram confiados, mas é essa precisamente a sua fatalidade. Do ponto de vista antropológico importa à narrativa mostrar que o homem com os seus dotes tem de fazer o que lhe for possível. O que lhe exige todo o empenhamento e total disponibilidade para o risco. No final da narrativa vai-se mesmo para além do simples veredicto, sendo a quantia que fora confiada ao servo receoso entregue àquele que mais talentos havia recebido e os tinha feito render.

A inatividade, juntamente com a atitude de descuido na fartura, é criticada principalmente na parábola do cultivador de cereais (Lc 12,16-21). Trata-se de um latifundiário, comparável na escala social a um grande nego­ciante, que faz cultivar as suas terras por pequenos agricultores para delas colher o maior lucro possível. Ele é caracterizado como um grande lavrador virado para si mesmo, que perdeu qualquer relacionamento social e, consequentemente, só fala consigo mesmo. Identifica-se apenas a si mesmo com aquilo que outros conseguiram com o seu trabalho e atribui perenidade às suas posses. A narrativa é concebida de tal modo que o leitor espera deveras que a vida do homem abastado se venha a desmascarar como uma grande ilusão. Fazer com que trabalhem para si pessoas dependentes e tirar daí o maior lucro, tendo-se em atenção apenas a si mesmo, contradiz o que Jesus fundamentalmente entende do homem que recebe de Deus os seus próprios dons, e perante Ele se tem de responsabilizar quanto ao modo de os fazer render. O trabalho não encontra o seu sentido no amontoar de riquezas que perecem (cf. Mt 6,19-21), mas corresponde ao encargo recebido na criação de dar forma ao mundo e à vida. O que está muito longe da pragmática mensagem do itinerante filósofo helenista, de que a vida é sempre precária e passageira, não garantindo por isso qualquer segurança; aproxima-se antes da conceção sapiencial da vida segundo a qual o trabalho pertence ao encargo da criação divina, não encontrando o seu sentido na simples satisfação de si de quem o executa.

Está presente na parénese neotestamentária a crítica ao esquecimento do princípio, pregado por Jesus, de que todo o agir e fazer se deve a Deus, quando a carta de Tiago vê sujeita à vontade de Deus toda a existência humana, com a sua capacidade para o trabalho: «Vós [trata-se de negociantes seguros de si] deveis dizer: 'Se o Senhor quiser, viveremos e faremos isto ou aquilo.» (4,15).

 

Palavras acerca das preocupações da vida - uma contradição?

Não estarão em contradição com a importância e valorização do trabalho, na pregação de Jesus, as suas palavras acerca das preocupações da vida (Mt 6,25-34/Lc 12,22-32)? «Não vos preocupeis quanto à vossa vida, com o que haveis de comer...» (Lc 12,22) Continuamente é feita a advertência de que se não devem ter preocupações, pois o Pai providencia por tudo. Exemplo disso são os lírios do campo que não trabalham. Urgente é, antes, o empenhamento pelo Reino de Deus (Mt 6,34/Lc 12,31). Trata-se, nestes ditos de Jesus, do critério decisivo para todo o trabalho e ocupação, e esse reside no Reino de Deus. As palavras acerca das preocupações da vida dirigem-se, em primeira linha, àqueles que se preocupam demasiado com as suas posses, que estão fixados nas precauções a ter na sua vida, os que giram à volta de si mesmos e se afligem apenas com o seu nível de vida. O que importa a Jesus é que as pessoas se não deixem de tal modo possuir pelo que é superficial que já não olhem para o essencial da vida. Estas advertências podem ser, por isso, facilmente ordenadas ao que ensina a parábola do cultivador de cereais (Lc 12,16-21).

 

Síntese

Jesus vem ele próprio do mundo do trabalho e, durante a sua atividade pública, insere-se conscientemente no mundo do homem trabalhador. Dá assim a entender que confirma o mundo com as suas condições de vida e que vê no trabalho o elemento fundamental para a realização do mundo. Por isso não lhe importa aferir o trabalho segundo uma escala de valores. Para ele o jornaleiro é tão importante como o grande comerciante, o servidor tão importante como o senhor que organiza um banquete. Na sua apreciação do trabalho, Jesus deixa-se conduzir pelo seu horizonte sapiencial e de uma teologia da criação que entende o trabalho como a concretização de um dote e de um encargo recebido do Criador.

 

Esta transcrição omite as notas de rodapé.

 

Rudolf Hoppe
In Communio 2011/3
18.03.12

Redes sociais, e-mail, imprimir

Imagem
Heatrher Hryciw / Corbis

















Citação






















Citação























Citação



























Citação
























Citação
























Citação

























Citação





















Citação

























Citação

 

 

 

Página anteriorTopo da página

 


 

Subscreva

 


 

 


 

 

Secções do site


 

Procurar e encontrar


 

 

Página anteriorTopo da página

 

 

 

2011: Eurico Carrapatoso. Conheça os distinguidos das edições anteriores.
Leia a última edição do Observatório da Cultura e os números anteriores.