Pré-publicação
"A Alegria da Palavra" em Santo Agostinho
A obra “Santo Agostinho – A Alegria da Palavra”, de Fr. Isidro Pereira Lamelas, vai ser apresentada esta sexta-feira, 30 de março, pelo Fr. Joaquim Cerqueira Gonçalves, da Academia das Ciências de Lisboa.
A sessão de lançamento do volume das Edições Tenacitas realiza-se às 21h15 no Centro Cultural Franciscano (Largo da Luz, 11, Lisboa).
Fr. Isidro Lamelas, religioso franciscano especialista em Padres da Igreja e professor de Teologia Patrística na Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa, publicou em 2009 a obra “São Paulo – Textos Apócrifos”, na mesma editora.
O lançamento ocorre menos de uma semana depois de o Patriarcado de Lisboa ter organizado uma sessão de leitura de textos do santo africano dos séculos III e IV, dirigida a crentes e não crentes.
O Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura oferece, em pré-publicação, alguns dos textos da obra, começando pelo Sermão 105, sobre «O ovo e a esperança da Páscoa».
O ovo e a esperança da Páscoa
6. Eis aqui outras três coisas: «Qual de vós, a quem um seu filho pede pão, lhe dará porventura uma pedra? Ou qual de vós, a quem um filho pede peixe, lhe dará porventura uma serpente? Ou se lhe pedir um ovo, lhe dará porventura um escorpião? Portanto, se vós, que sois maus, sabeis dar coisas boas aos vossos filhos, quanto mais o vosso Pai que está nos céus dará coisas boas aos que lhas pedirem?» (Lc. 11, 11-13; cf. Mt. 7, 9-11).
Sendo assim, consideremos de novo estas três coisas, para ver se ali estão aquelas três: a fé, a esperança e a caridade, a maior das quais é a caridade. Supõe, portanto, estas três: o pão, o peixe e o ovo, a maior das quais é o pão. Por isso é que facilmente entendemos que entre estas três coisas o pão é a caridade. Por causa disso é que contrapôs a pedra ao pão, porque a dureza é contrária ao amor. Pelo peixe entendemos a fé. Foi um santo que disse isto, e a nós agradanos dizêlo: “Um peixe bom é uma fé piedosa”. Vive no meio das ondas e elas não o despedaçam, nem dissolvem. Também a fé piedosa vive no meio das tentações e tempestades deste mundo. O mundo violentaa, mas ela mantémse íntegra. Repara como aquela serpente é uma coisa tão contrária à fé. Com efeito, na fé foi desposada aquela a quem se diz isto no Cântico dos Cânticos: «Vem do Líbano, esposa minha, tu que desde o início vens e percorres o caminho da fé» (Cant. 4, 8). É por isso que ela foi desposada, pois o início dos esponsais é a fé. De facto, o esposo faz uma promessa e fica preso à fé prometida. Ora o Senhor contrapôs a serpente ao peixe, ou seja, o diabo à fé.
Por causa disso é que o Apóstolo disse a esta desposada: «Desposeivos a um único esposo, a quem devo apresentarvos como virgem casta» (2 Cor. 11, 2); e ainda: «Receio porém, que, tal como a serpente seduziu Eva com a sua astúcia, assim também os vossos pensamentos se corrompam desviandose da castidade que está em Cristo» (2 Cor. 11, 3), isto é, que está na fé de Cristo. Com efeito, diz ele: «Que Cristo habite pela fé em vossos corações (Ef. 3, 17)». Portanto, que o diabo não corrompa a fé, que ele não devore o peixe.
7. Resta a esperança que, tanto quanto me parece, se compara ao ovo. Com efeito, a esperança ainda não atingiu o objetivo e o ovo é alguma coisa, mas ainda não é frango. Os quadrúpedes geram filhos, mas as aves geram a esperança de os vir a ter. Nesse sentido, a esperança exortanos a que desprezemos as coisas presentes e esperemos as futuras, e, esquecendonos das coisas que ficam para trás, nos voltemos para a frente com o Apóstolo, pois ele assim diz: «Uma só coisa eu faço: esquecendome do que fica para trás e avançando para o que está adiante, prossigo de acordo com a minha intenção para o prémio da celeste vocação de Deus que está em Cristo Jesus» (Fil. 3, 13-14).
Portanto, nada é tão inimigo da esperança, como olhar para trás, isto é, colocar a esperança naquelas realidades que desaparecem e passam, em vez de a colocar nestas realidades que ainda não foram dadas, mas que, quando um dia o vierem a ser, nunca passarão. Quando, porém, o mundo está tão cheio de tentações, tal como a chuva sulfúrea de Sodoma, devemos recear seguir o exemplo da mulher de Lot. Com efeito, ela olhou para trás e no mesmo lugar onde olhou, aí ficou. Foi convertida em sal (Cf. Gn. 19, 26), para condimentar os prudentes com o seu exemplo.
O Apóstolo Paulo falou assim acerca desta esperança: «Pois nós fomos salvos na esperança. Porém a esperança que se vê, não é esperança. Na verdade, pode alguém esperar aquilo que vê? Ora, se nós esperamos o que não vemos, é pela paciência que o aguardamos» (Rm 8, 24-25). Sendo assim, o ovo está naquela pergunta: «Pode alguém esperar aquilo que vê?» É ovo, mas ainda não é galinha. Está revestido com uma casca, não se vê porque está tapado. É preciso esperar com paciência. Que ele se aqueça, para que nasça. Avança, voltate para diante, esquece o que já passou. As coisas que se vêm, são temporais. «Não olhamos para as coisas visíveis – diz o Apóstolo – , mas para as invisíveis. Com efeito, as coisas visíveis são temporais, ao passo que as invisíveis são eternas» (2Cor. 4, 18).
Portanto, volta a esperança para aquelas coisas invisíveis e espera, persiste. Não olhes para trás. Teme o escorpião, em razão do teu ovo. Repara que ele agride com a cauda que tem atrás. Sendo assim, que o escorpião não quebre o teu ovo, que este mundo não quebre a tua esperança, por assim dizer, com o veneno tanto mais funesto quanto mais atrás estiver.
Quantas coisas o mundo te diz, quantos ruídos provoca nas tuas costas, para que te voltes para trás, ou seja, para que coloques a tua esperança nas realidades presentes (presentes não, pois as coisas que não podem subsistir sempre, não devem chamarse presentes), para que afastes o teu espírito daquilo que Cristo prometeu e ainda não deu, embora o venha a dar porque é fiel, e para que tenhas vontade de descansar num mundo perecível.
In Santo Agostinho - A alegria da Palavra, ed. Tenacitas
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26.03.12



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