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Aliança fé-cultura tem de ser educação mútua para aprender a habitar o espaço comum da pluralidade

Proliferam os discursos sobre a importância de uma recíproca aproximação entre a fé e a cultura. Mas não deveria a fé cristã, em correspondência à sua natureza, ser em e de si culturalmente pertinente? Na generalidade afirma-se o risco da sociedade perder as suas raízes cristãs por diversos motivos, entre os quais, que está na ordem do dia dos pronunciamentos, o secularismo (termo nem sempre bem aplicado). Qual é o sentido desta preocupação? M. Neri, de modo acutilante, vê nisto mais uma «recuperação ideológica e de representação pública do que propriamente de ideias e paixões estéticas» ou culturais. O cristianismo se é sequela de Cristo assume na sua natureza uma dimensão cultural, interna ao processo crente, porque não é possível ser cristão senão no modo de habitação na polis.

Esta disfuncionalidade conceptualmente inflacionada reduz a cultura a um ativismo cultural estetizante, onde a dimensão do Mistério é subvertida a um certo voluntarismo que visa eclesializar o espaço da pluralidade cultural como se essa multiculturalidade não existisse. As respostas permanecem as mesmas de sempre porque ainda não demos conta que face à mudança de paradigma os modelos devem também mudar significativamente. Contém riscos? Toda a mudança comporta opções e decisões. Não obstante o esforço singular de alguns, o imaginário reducionista é este: será irrelevante toda a abertura humana ao transcendente (arte, cinema, pintura, experiência de vida singulares) sem uma adesão explícita confessional! Ainda que o politicamente (religiosamente) correto não permita afirmar abertamente esta premissa, não deixa de ser preocupante um certo pedantismo linguístico inconsequente e uma afirmação estetizante de tendência retro (os chamados retornos).

Alguém escrevia que é preciso «paciência com Deus» (T. Halik)! Falta paciência porque andamos à procura dos demarcadores explicitamente cristãos presentes na produção artística que possibilitem confirmar os discursos sobre a importância do cristianismo na “produção” e “consumo” cultural (este poderá ser o perigo da Nova Evangelização). Contudo, isto é muito pouco e não respeita a própria criação artística que na sua seriedade procura encontrar vias de aproximação do humano a Deus. O imaginário da parábola do semeador (Mt 13, 1-23) poderá ser aqui muito útil. O voluntarismo pastoral queima etapas.

Deixo aqui quatro exemplos da cultura art pop contemporânea (Bruce Springsteen: ‘Everybody’s got a hungry heart’: Hungry Heart; U2: Mofo + If God will send his angels; Drexler: ‘Creo que he visto una luz al otro lado del río; Vasco Rossi: ‘Voglio trovare un senso a questa vita…”), que nos podem surpreendentemente aventurar pela musicalidade da palavra na procura do sentido último . Mais do que uma nostalgia da “Belle Époque”, é necessário olharmos para a «dignidade da diferença» (J. Sacks) como uma mais-valia a acolher e a promover. Uma aliança imprescindível fé-cultura (sem a partícula copulativa) terá de ser sempre uma educação mútua para aprendermos a habitar o espaço comum da pluralidade social face ao regresso de uma praxis política tendencialmente exclusivista e identitária. 

 

 

 

 

 

P. João Paulo Costa
In Pátio dos Gentios
© SNPC | 18.03.12

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© George Hammerstein/Corbis

 

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