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Ano da Fé: entre a narrativa do extraordinário e a poesia do mistério

(...) É (...) um mistério a razão pela qual «muitos dos nossos contemporâneos não percecionam esta íntima e vital ligação a Deus, ou até a rejeitam explicitamente» (Gaudium et spes 19). Estes contemporâneos têm vários nomes. São os ateus, os agnósticos, os que procuram Deus. Mas também aqueles que vivem um cristianismo formal. Aqueles que recitam sem meditar, que consolam sem chorar. Por diversas vezes, o Santo Padre alertou para o facto de darmos a fé por garantida, quando na verdade isso pode não ser uma realidade.

O que é (...) central neste Ano da Fé? Formulando assim a pergunta, podemos até alinhavar algumas respostas. Mas serão incompletas. A pergunta é: quem é central neste Ano da Fé? E a resposta é Jesus Cristo. Diz Bento XVI que «ao início do ser cristão, não há uma decisão ética ou uma grande ideia, mas o encontro com um acontecimento, com uma Pessoa que dá à vida um novo horizonte e, desta forma, o rumo decisivo» (DCE 1).

Uma nova pergunta. E que modalidade ou gramática escolher para encontrar Cristo ou então introduzir um outro no Seu mistério? Atendendo à sensibilidade do mundo atual, diria que é algo entre a narrativa e a poesia.

Analisando com atenção o discurso dos cristãos, incluindo sacerdotes, daremos conta que uma parte significativa tende à exortação moralista ou à afirmação pela negativa. «Temos de… Não devemos…». «Nós não somos…». Mas, aquilo que um cristão possui de mais precioso é o facto de ter sido gerado para a narrativa do dom. O nosso ser é por natureza testemunhal (Antonio Rosmini). O rosto testemunha o estado de espírito, as ações testemunham as opções fundamentais e o «eu» testemunha a história e aqueles que o precederam. É uma linguagem completamente diferente. (...)

Para os curiosos de Deus, a narrativa expressa-se no acolhimento, no espaço que se gera entre o «eu» e o «tu» para que possa existir um «nós». A narrativa colhe a arte de transportar o ouvinte e o narrador para o «narrado». Na narrativa desaparece o narrador. Fica o narrado. Cristo.

Para as comunidades cristãs, a narrativa manifesta-se na disponibilidade de estar na estrada, de ser significativo para a vida de alguém nos ambientes que lhe são próprios (Evangelii nuntiandi 17-19). Manifesta-se na sensibilidade e respeito à palavra escutada e credo professado. Manifesta-se na memória, na celebração e no mistério daquilo que não é contado.

A gramática para encontrar Cristo é também a poesia. A poesia é a imagem do esforço humano necessário para encontrar Cristo e do trabalho que é exigido às comunidades cristãs para promoverem ambientes e tempos onde nasça a disponibilidade para o imprevisível. A poesia é a coragem de inventar palavras para narrar o inesperado.

É curioso o quanto a cultura contemporânea está desperta para a imagem. Hoje, um bloco de texto pode até mesmo ser insuportável se não for cruzado com algumas imagens. Basta comprar uma qualquer revista para o comprovar. Naturalmente existe o perigo da idolatria da imagem. Mas daí o contributo da poesia. Por um lado, é uma das linguagens mais eficazes para ver «para lá de», e, por outro lado, combate a idolatria. Ela fala daquilo que os olhos não veem, preserva o mistério, mas sabe que se trata de algo real.

O Ano da Fé tem, portanto, o potencial necessário de proporcionar a todos os cristãos e pessoas de boa vontade um belo e significativo encontro com Cristo. Entre a narrativa e a poesia.

 

Título original deste texto: «O Ano da Fé. Entre a narrativa e a poesia.»

 

P. Tiago Freitas
In Agência Ecclesia | SNPC
25.09.12

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