Leitura
Domingo, Dia da Ressurreição
O livro “Domingo Dia da Ressurreição – Uma abordagem a partir da literatura cristã anterior a Constantino”, de Isabel Maria Alçada Cardoso, é apresentado este domingo na Sé Patriarcal de Lisboa.
A autora, baseada em textos dos cristãos dos primeiros séculos, sintetiza alguns dos «aspetos fundamentais sobre o Domingo na Igreja primitiva», a começar pelo facto de ser o dia «em que a assembleia cristã se reúne», o que exige de cada fiel «um pouco de tempo livre».
O domingo «é um dia para comemorar o originário primeiro dia da criação» e «o primeiro dia da nova criação, ou seja, o dia da ressurreição».
«É um dia para escutar a Palavra» e «para a Eucaristia», dia «para a ordenação episcopal» e «para a reconciliação»; «em suma, é um dia de alegria para o fiel cristão».
A obra editada pela Paulus é prefaciada pelo bispo do Porto.
Prefácio: Para dominicalmente nos recuperarmos
D. Manuel Clemente
O tempo que protagonizamos hoje, como cristãos e Igreja de Cristo no mundo, tem a dupla característica de ser socialmente disperso e religiosamente crítico.
Socialmente disperso, não só pela mobilidade humana que leva tanta gente a já não saber propriamente «de que terra é», mas também e sobretudo pelo esbatimento das pertenças tradicionais e das rotinas espacio-temporais de encontro.
Religiosamente crítico, como reflexo espiritual de tudo isso, retraindo para a subjetividade e as circunstâncias o que antes se predeterminava quase por si, pois que assim indiscutivelmente “pertencia”.
Quem tenha nascido na Europa Ocidental na primeira metade do século passado, sabe e “sofre” tais mudanças, especialmente se nasceu numa família de tradição certa e prática habitual. Hoje, bem pelo contrário, semana e “fim de semana” não se definem já em termos de espaço contínuo, descanso geral ou celebração marcada.
Lembro-me de há anos encontrar um jovem português, trabalhador em Israel, que rapidamente lamentou: «O que mais saudades me dá aqui é lembrar que lá na terra, ao Domingo, ia com a minha mulher e a minha filha à Missa, depois almoçávamos em casa dos meus sogros e à tarde íamos ao futebol. Aqui não tenho nada disso e nem sequer o Domingo é feriado...» Porventura sem grande consciência disso, assinalava uma profunda quebra cultual e cultural. De facto, na sua terra o Domingo ainda integrava, em torno da memória cristã, os vários elementos – em si mesmos distintos, mas conjugados – do culto, da família e do descanso festivo. Hoje, aquele jovem não precisaria de estar tão longe para “sofrer” tal desagregação...
O ponto é por demais crítico para quem não se resigne à atomização social pura e simples, numa sociedade pensada e contada a partir de somas e diminuições de meros indivíduos, com somas e diminuições de rentabilidades quantitativas sem mais. Temos de nos reencontrar como “sociedade” propriamente dita, com o que tal requer de companhia efetiva.
Ora, o que o presente estudo de Isabel Maria Alçada Cardoso nos oferece é a demonstração sólida de como o “facto” cristão – essencialmente a Páscoa de Jesus Cristo – se tornou básico e axial para um tempo novo. Precisamente o tempo que – de Jerusalém a Roma e depois ao mundo – determinou para tantos a convivência geral de uma humanidade mais próxima.
Celebrado no “dia a seguir ao sábado”, o Domingo concentra e difunde a vida que agora nos toca e define como “cristãos”, com tudo o que daí resulta de civilização e cultura. Nas palavras da autora, «celebrar o Domingo é celebrar a ressurreição do Senhor Jesus, o Seu Mistério Pascal, é desejar ser salvo. A vida pessoal e comunitária dos primeiros cristãos está determinada por este facto que transformou as suas vidas. O Domingo é a sua expressão máxima, a marca distintiva que lhes dá e lhes faz irradiar uma identidade.»
Assim o creio também, e o tempo urge. Não para voltar à antiga sociedade rural, certamente irrecuperável, com a sua cadência de sino de aldeia. Mas para que os cristãos ganhem maior consciência e definição conjunta em torno de Cristo vivo e da celebração sacramental da sua presença. E para que, onde os discípulos estiverem «reunidos em Seu nome» e no «Seu dia», se ofereça à sociedade futura um ritmo essencial de encontro e a sinalização festiva do seu destino comum.
Felicitando a autora pelo excelente trabalho feito, tão preenchido de fontes sólidas e preciosas sugestões, também felicito desde já os leitores que muito aproveitarão com ele.


In Domingo, dia da Ressurreição, ed. Paulus
21.04.12

Autora
Isabel Maria Alçada Cardoso
Editora
Paulus
Ano
2012
Páginas
168
Preço
12,00 €
ISBN
978-972-301-6001








