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Espanha

"Evangelizador de madrugadas" vence concurso de poesia sobre S. João de Ávila

O poema “Evangelizador de Madrugadas” venceu o concurso de poesia organizado pela Conferência Episcopal Espanhola sobre S. João de Ávila (c. 1499-1569), que no domingo o papa Bento XVI declarou Doutor da Igreja, juntamente com Santa Hildegarda de Bingen.

O autor, Manuel Laespada Vizcaíno (n. 1958), foi escolhido entre 178 trabalhos apresentados a concurso, dos quais foram selecionados 14 finalistas, refere a Conferência Episcopal Espanhola.

Nascido de uma família nobre, o “Apóstolo da Andaluzia” começou por estudar Direito em Salamanca mas rapidamente se transferiu para a universidade de Alcalá de Henares, onde se doutorou em teologia e filosofia.

Após a ordenação sacerdotal, em 1526, o bispo de Sevilha encarregou-o de organizar missões de evangelização em toda a Andaluzia, e a partir de então a sua fama de orador depressa se espalhou a todos os estratos sociais da população.

Amigo de Inácio de Loyola, fundador dos Jesuítas, favoreceu o desenvolvimento e a difusão da Companhia de Jesus em Espanha.

Apoiou Teresa de Ávila na reforma da Ordem Carmelita e o português João de Deus na fundação de casas de apoio aos desfavorecidos.

«Profundo conhecedor das Sagradas Escrituras, era dotado de um ardente espírito missionário», lembrou Bento XVI este domingo.

«Homem de Deus, unia a oração constante à atividade apostólica. Dedicou-se à pregação e ao aumento da prática dos sacramentos, concentrando seus esforços para melhorar a formação dos futuros candidatos ao sacerdócio, dos religiosos, religiosas e dos leigos, em vista de uma fecunda reforma da Igreja», acrescentou.

Apresentamos o poema no original espanhol e na tradução portuguesa, assinada pelo poeta frei Lopes Morgado, Franciscano Capuchinho.

 

Evangelizador de madrugadas
(O, cómo desde la infancia se forja un alma)

Todavía la piedra centenaria
de las calles históricas
de Almodóvar del Campo memoriza
la pisada infantil del que un día fuera
Evangelizador de Andalucía.
De los aleros de sus casas penden
sonrisas de ese niño, susurros
de otras lunas,
pedazos de memoria que guardan todavía
jirones de su casta luchadora,
retazos de oraciones
que llenan con aromas de alcanfor
los resquicios donde el silencio mora.
Y es que Juanito, solo, correteaba
las callejas desnudas y embarradas
como bruma descalza, como cierzo ligero,
de Almodóvar del Campo azuzando a las sombras
con canciones y rezos y ese brillo que ondea
en la piel o en los ojos de los que ven la vida
desde el otero virgen que dibuja la fe.
Juan se extasiaba viendo
la cigüeña que, a modo de veleta,
bailaba en las almenas,
oteaba las nubes,
zurciendo, cuando el vuelo, de arabescos
todos los plenilunios
sobre la Torre – herida y desdentada –  
del Homenaje
del Castillo, que se iba desangrando, de Almodóvar.

Soñaba, desde niño, con ser libre:
ser cíngaro o ser mar, tal vez paloma…
anhelaba volar,
volar,
volar,
ir sembrando la estela de su albura,
ir dejando prendidas devociones
defendiendo a sus pobres
en los caminos yertos de la Mancha,
en suelos andaluces o extremeños...
El trotador de de almas
halló en Fray Luis – su amigo –  de Granada
el reverso de una moneda idéntica,
y juntos, con la fuerza
que la fe precipita entre sus elegidos,
arracimaron vida a los silencios;
lunas llenas, sus pasos,
candilearon sombras y senderos
de la mano de Dios; juntos, apasionados,
forjaron devociones y fervores
como quien forja el barro o la caricia,
y zancadillearon
inquisidores ojos y amenazas.
El Apóstol de almas
hilvanaba utopías y era feliz
acercando el saber,
dejando su semilla fundadora
en Baeza, en Priego…
haciendo que su verbo iluminado
fuera astrolabio que acercaba al pozo
de la fe.

Su entrega secular y su entereza
impulsaron sus pasos hacia otros horizontes,
hacia otros ojos nuevos que anhelaban su voz,
igual que mayo anhela el sueño de ser flor.
Fueron la luz, los campos, el aire de Almodóvar,
donde el joven Pastor, que luego fuera
Mensajero de Dios,
moldeó su entereza, aprendió
el arduo magisterio de la entrega,
recibió las primeras señales del Amado,
supo que el horizonte y las fronteras
eran, sin más, palabras,
desafíos.
Conviene, pues, llegar a este paisaje
con la mirada fresca
y el asombro dispuesto, porque acaso
(la Historia es una ola que se aleja y nos mira
para, tras un suspiro, rescatarnos)
detrás de alguna esquina nos sorprenda
el hálito de espuma,
la pisada silente del que fuera
Doctor – desde la entrega –  de la Iglesia,
Apóstol – por amor – de Andalucía.

 

Tradução portuguesa

Evangelizador de madrugadas
(Ou, como desde a infância se forja uma alma)

A pedra centenária das ruas históricas
de Almodôvar del Campo
ainda memoriza
a passada infantil daquele que um dia fora
Evangelizador da Andaluzia.
Dos beirais das suas casas pendem
sorrisos desse menino, sussurros
de outras luas,
pedaços de memória que ainda guardam
tiras da sua casta lutadora,
fragmentos de orações
que enchem com aromas de cânfora
os resquícios onde o silencio mora.
Porque o Joãozinho, só, percorria
as ruas desnudadas e barrentas
como bruma descalça, como vento ligeiro,
de Almodôvar del Campo incitando as sombras
com canções e rezas e esse brilho que ondula
na pele ou nos olhos dos que vêem a vida
do outeiro virgem que a fé desenha.
João extasiava-se vendo
a cegonha que, em jeito de cata-vento,
bailava nas ameias,
observava as nuvens,
zurzindo, ao voar, de arabescos
todos os plenilúnios
sobre a Torre – ferida e desdentada –
de Menagem do Castelo,
que se ia dessangrando, de Almodôvar.

Sonhava, desde criança, com ser livre:
ser zíngaro ou ser mar, talvez pomba…
ansiava voar,
voar,
voar,
ir semeando a estrela do seu bornal,
ir deixando presas devoções
defendendo os seus pobres
nos caminhos duros de la Mancha,
em solos andaluzes ou estremenhos...
O trotador de almas
encontrou em frei Luís – seu amigo – de Granada
o reverso de uma idêntica moeda,
e juntos, com a força
que a fé lança entre os seus eleitos,
arracimaram de vida os silêncios;
luas cheias, seus passos,
iluminaram sombras e carreiros
pela mão de Deus; juntos, apaixonados,
forjaram devoções e fervores
como quem forja o barro ou a carícia,
e ludibriaram
inquisidores olhos e ameaças.
O Apóstolo de almas
alinhavava utopias e era feliz
aproximando o saber,
deixando a sua semente fundadora
em Baeza, em Priego…
fazendo que o seu verbo iluminado
fosse astrolábio que aproximava do poço
da fé.

A sua entrega secular e a sua inteireza
impeliram seus passos para outros horizontes,
para outros olhos novos que ansiavam a sua voz,
como anseia maio o sonho de ser flor.
Foi na luz, nos campos, no ar de Almodôvar,
que o jovem Pastor, depois
Mensageiro de Deus,
moldou a sua inteireza, aprendeu
o árduo magistério da entrega,
recebeu os primeiros sinais do Amado,
soube que o horizonte e as fronteiras
eram, apenas, palavras,
desafios.
Convém, pois, chegar a esta paisagem
com o olhar fresco
e o assombro disponível, pois talvez
(a História é uma onda que se afasta e nos olha
para, depois de um suspiro, resgatar-nos)
atrás de alguma esquina nos surpreenda
o hálito de espuma,
o passo silencioso daquele que fora
Doutor – pela entrega – da Igreja,
Apóstolo – por amor – da Andaluzia.

 

Trad.: Fr. Lopes Morgado, ofm cap
© SNPC | 08.10.12

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S. João de Ávila

 

 

 

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