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Fé e cultura

A experiência religiosa e as suas múltiplas expressões culturais: a tensão Estrutura-História

As linhas que se seguem pretendem convidar o leitor a fazer um percurso, que partindo de um olhar sobre a condição humana o leve depois a encarar o fenómeno religioso refletindo sobre o facto das suas múltiplas expressões. A pergunta que serve de guia aparece como subtítulo: será que a experiência religiosa se pode expressar de uma maneira unívoca?

 

1. A tensão Estrutura-História

A reflexão acerca do ser humano deve ser feita a partir de um modelo antropológico que seja capaz de levar a bom porto a análise e a interpretação da condição humana nas suas inumeráveis manifestações. Duma maneira esquemática, podemos afirmar que esse modelo se baseia na interação existente entre dois componentes do ser humano que à primeira vista podem até parecer de todo irreconciliáveis. O primeiro desses componentes, põe em revelo a unidade profunda de todos os membros da família humana para além de qualquer distinção de sexo, raça, cultura, situação geográfica, época histórica, etc. O segundo, destaca que esta unidade se expressa de maneiras bem diferentes, em contextos que muitas vezes são irredutíveis entre si, o que revela que os homens e as mulheres concretos são seres em constante «estado de êxodo», construindo a sua humanidade a partir das possibilidades e limites que lhes oferece a cultura na qual nasceram.

Estes dois componentes, a que Lluís Duch normalmente chama «estrutura» e «história», devem, pois, estar sempre muito presentes em todos os esforços de reflexão acerca da condição humana e, por conseguinte, também em todo o trabalho dedicado ao estudo dos fenómenos religiosos. É por isso que é necessário ter bem presente o perigo em que pode cair a fenomenologia da religião, na sua tentativa de estabelecer tipologias religiosas, ao poder esquecer o caráter histórico de todos os fenómenos religiosos. Porque a religião tem sempre de ser uma realidade percetível na esfera da existência e da história humana, impõe-se nunca perder de vista as modificações que os acontecimentos históricos e culturais operam de maneira ininterrupta sobre as expressões religiosas. Todo o presente está carregado de significatividade religiosa e revela uma intenção religiosa que não pode jamais ser ignorada em qualquer estudo da religião.

Mas, se por um lado, o ser humano tem sempre de concretizar a sua realidade humana geral, incluindo a sua dimensão religiosa, por outro, ele universaliza as realidades históricas concretas, ou seja, ele não é um produto exclusivo da história e das suas necessidades, ainda que jamais possa ser ele mesmo à margem da história. Neste sentido, é necessário evitar as duas maneiras extremas de abordar os fenómenos religiosos: ou bem sublinhar, de um modo quase exclusivo a estrutura, ou bem colocar toda a atenção na história. Uma e outra postura mais não fazem do que conduzir-nos a uma imagem unidimensional do ser humano, reduzindo-o aprioristicamente a uma existência que seria fruto exclusivo das conjunturas do tempo e do espaço em que habita, ou a uma essência que nada teria a ver com as peculiaridades culturais e históricas do seu tempo e espaço.

Isto exige, portanto, que sejamos capazes de manter no nosso horizonte de trabalho e reflexão a tensão estrutura-história, apesar de todas as dificuldades metodológicas que supõe qualquer forma de estudo que queira assumir a tensão de contrários, ainda que, como é o caso, se trate apenas de contrários aparentes. A história, com o seu sentido para o presente e para o futuro, bem como com o seu leito de vida (passado) não pode ser ignorada nem esquecida, contudo é necessário ter bem presente que o ser humano não se esgota nas suas realizações históricas, ainda que não possa existir sem elas, porque possui estruturas pré-dadas que lhe permitem, sejam quais forem as conjunturas sociais e políticas em que se encontre, desafiar o tempo e superar o trabalho envelhecedor e corrosivo de toda a história:

«A capacidade religiosa do homem expressa-se através de formas diversas e, muitas vezes caóticas, da própria cultura, mas está, porque é história, sujeita a um processo de insignificação e, então, é preciso encontrar novas formas expressivas que permitam a realização do seu desejo estrutural religioso, que é a vontade por obter a salvação. O homem não é exclusivamente sintaxe, mas também é morfologia. A disposição (sintaxe) do homem sem as realizações concretas (morfologia) não está capacitada para dizer e configurar quem é o homem e o que deseja obter como cúmulo do seu desejo estrutural. O texto humano possui formas (morfologia), mas há texto porque o homem tem à sua disposição uma sintaxe pré-dada, que estruturalmente outorga vigência e configura as formas concretas de uma cultura num espaço e tempos concretos. A história das religiões (cultura) é o largo processo expressivo do desejo estrutural (natural) do homem para conseguir a reconciliação consigo mesmo, com os outros, com a natureza e com Deus no marco das diversas culturas (história). No homem, o a posteriori das realizações culturais e históricas remete a um a priori original e originante, a partir  do qual podem receber a sua significação característica as expressões culturais e religiosas num momento determinado da história.»

Esta longa citação de Lluís Duch deixa bem claro como a tensão estrutura-história é uma realidade existente e estruturante do próprio fenómeno religioso enquanto tal. A religião não pode ser simplesmente reduzida a dimensão estruturante do humano, uma vez que as suas concretizações históricas e culturais também são parte integrante dessa mesma realidade. O ser humano possui estruturas pré-dadas, entre as quais se encontra inequivocamente a estrutura religiosa, mas essas estruturas só podem realizar-se de maneira histórica mediante formas expressivas condicionadas pela cultura do próprio momento. O ser humano, como possível homo religiosus, não pode existir como tal renunciando à tensão estrutura-história.

Contudo, esta tensão não pode ser entendida, como uma incompatibilidade, ou uma oposição. Ambas, a estrutura e a história, são expressões do mesmo ser humano, ainda que em planos diferentes. A primeira destaca o que é comum, a segunda o que é próprio, mas o que é comum só se pode concretizar através do que é próprio. No âmbito da religião, a dimensão histórica e cultural jamais se acha ausente, ainda que não se possa confundir com a intenção mais profunda e religiosa da própria religião. A dimensão histórica e cultural pertence à ordem do expressivo e culturalmente modificável, que possibilita a concretização da dimensão religiosa como «maneira peculiar de existir própria exclusivamente do homem». (continua)

 

Juan Ambrosio
Professor da Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa
© SNPC | 17.04.12

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