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Teatro

Herodíades

«Herodes tinha prendido João, algemara-o e metera-o na prisão, por causa de Herodíade, mulher de seu irmão Filipe. Porque João dizia-lhe: «Não te é lícito possuí-la.» Quisera mesmo dar-lhe a morte, mas teve medo do povo, que o considerava um profeta. Ora, quando Herodes festejou o seu aniversário, a filha de Herodíade dançou perante os convidados e agradou a Herodes, pelo que ele se comprometeu, sob juramento, a dar-lhe o que ela lhe pedisse. Induzida pela mãe, respondeu: «Dá-me, aqui num prato, a cabeça de João Batista.» O rei ficou triste, mas, devido ao juramento e aos convidados, ordenou que lha trouxessem e mandou decapitar João Batista na prisão. Trouxeram, num prato, a cabeça de João e deram-na à jovem, que a levou à sua mãe. Os discípulos de João vieram buscar o corpo e sepultaram-no; depois, foram dar a notícia a Jesus.» (Mateus 14, 3-12)

O encenador Jorge Silva Melo escolheu, para apresentar em Portugal o dramaturgo italiano Giovanni Testori (1923-93), o segundo dos “Três Prantos” que este escreveu no final da sua intensa vida (e que estão editados na coleção "Teofanias", da Assírio & Alvim): “Herodíades”, que é também o nome da protagonista, aqui encarnada por um ator, Elmano Sancho.

O primeiro dos monólogos sobre mulheres que marcaram os três grandes momentos da história espiritual de Testori, considerados o seu testamento teatral, centra-se na vida de Cleópatra e o terceiro, na de Maria, que Silva Melo incorporou também na sua encenação, através de música e imagens.

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No início do espetáculo, são projetadas num lençol suspenso numa das paredes cenas do filme “Cleópatra”, protagonizado por Elizabeth Taylor, e ouve-se a ária “A Noite de Cleópatra”, de Berlioz, interpretada pela mezzo-soprano Janet Baker, e, no final, é a vez da “Avé Maria” de Verdi, cantada por Victoria de los Ángeles.

Ao longo de uma hora – e para fazer jus ao desejo recalcado de Herodíades, rejeitada por João Batista -, sucedem-se blasfémias, palavrões, erros de sintaxe, plebeísmos, neologismos e onomatopeias, tudo em verso, numa tradução de Miguel Serras Pereira que torce a língua portuguesa como se da língua original se tratasse.

Jorge Silva Melo considera ser esta uma «obra inclassificável», «provavelmente, um ajuste de contas, como ele mesmo disse, com a tradição de onde vinha, e de que nunca se afastara, o catolicismo», em que se incluía «quer a religião ingénua que a mãe lhe terá transmitido, quer a tumultuosa reflexão dos artistas do barroco».

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«Testori – sublinha o diretor dos Artistas Unidos -, o autor das novelas que deram origem ao filme “Rocco e os Seus Irmãos”, de Visconti, o tradutor de Rimbaud e de São Paulo, foi um dos maiores inventores do teatro do século XX, propondo, no final da vida, uma reconciliação dramática entre a doutrina católica e o ardor sexual, o vitupério e a caridade, à procura do lugar “daquele que traz o escândalo”.»

«E estupefactos – prossegue –, ouvimo-lo no seu combate com a linguagem, com o corpo, com a nudez da cena, com o espetáculo de feira, com a pobreza. Nas origens e em continuidade de tanta arte que se faz e se fez em Itália, sulfuroso, paradoxal, transpirado, sujo, lírico e ordinário, um teatro indispensável».

«Cleópatra é abandonada pelo amante, como se sabe, e Herodíades é recusada pelo amante, é aquela que não chega sequer a ter amante. Ela bem quer, arde de cio em relação ao João Batista, mas ele recusa-se. Porquê? Porque vem aí uma nova revolução – que é o Cristo, para o Testori é evidente – e essa revolução é a castidade», observa Silva Melo.

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Herodíades é «a que vem do Velho Mundo e pressente a chegada dos pobres, da canalha, que um novo Deus arregimenta; a que sabe cair, não tentando já sobreviver, a que vê avançar o exército dos miseráveis que Jesus ama e o Profeta anuncia, os ‘tristes, os vis, os oprimidos’ que cantava Gomes Leal», descreve o encenador.

«A Herodíades é um bocadinho o Burt Lancaster de ‘O Leopardo’, é aquela dos tempos antigos, que vive no veludo, no ouro, nos perfumes, que deseja… e é surpreendida por um mundo novo que não cede ao seu luxo», que tem «um Deus dos maltrapilhos», observa.

Testori é «um homem que encontra a realidade na mitologia» e, pecador confesso mas casto de moral, quer perceber, através de uma poética transcendente, em que família católica se inscreve, explica Jorge Silva Melo, claramente emocionado no ensaio, deixando-se levar pelas palavras do texto e acompanhando-as como se fossem uma orquestra de instrumentos.

FotoGiovanni Testori

“Herodíades” vive do conflito entre as imagens que o verbo cria e as imagens que o sujeito proporciona e a apropriação que Jorge Silva Melo e Elmano Sancho fizeram do texto e da tradução de Miguel Serras Pereira procura «a porcaria da língua» e não «a porcaria do sujeito da língua».

Dizia o padre-poeta José Tolentino de Mendonça quando foi assistir a um ensaio que «não há nada de delicado em Testori a não ser a natureza do intérprete». Explica Silva Melo: «Testori fala dos BMW, de asneiras e internatos onde rapazes se masturbam, das relações bíblicas e das outras, dos outros e dos perfumes, na mesma frase». E fá-lo sujeitando o ator a ser merecedor do texto. Diz Elmano a justificar esta prova de fogo: «Há passagens do texto incompreensíveis, onde não posso ter qualquer ação». 

 

«Um texto bruto como São Paulo», junta Silva Melo, que fala de hipnotismo e de mistério para se referir à imaterialidade que é contemplada por todos os textos místicos. «Aqui, o corpo é o sujeito pleno do texto.»

“Herodíades” dos “Artistas Unidos”, está em cena a partir desta quarta-feira até 21 de janeiro, oito apresentações no Teatro da Politécnica, em Lisboa.

 

Lusa, Tiago Bartolomeu Costa (Público), SNPC
Vídeo: Diário de Notícias
10.01.12

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