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O bálsamo da ressurreição: Dedicação da Capela Árvore da Vida

1. Somos plasmados por Deus desde o princípio.
Encontramo-nos diante da criação como acontecimento vivo da Palavra.
A Palavra de Deus é como uma seta luminosa
que nos guia do início à transformação do criado,
ao silêncio primordial,
ao repouso e ao crescimento,
à luz e à vida,
ao desejo e à plenitude.

2. Entrar na quotidianidade é partilhar uma comunhão de vida com Deus
porque ela é um dom que não possuo nem domino.
É viver da luminosidade intensa da Luz pascal que, nesta capela,
«nos abraça e faz sentir salvos na luz»,
expressão, no plural das palavras, de um estudante norueguês.
A liturgia no seu todo
– palavra, gesto, espaço, tempo e ritmo –
coloca-nos diante do acontecimento criativo da beleza divina
que atrai a sensibilidade humana.
Uma liturgia assim não se descreve,
sente-se, vive-se e medita-se.
É diante da sinfonia simbólica do espaço e das linguagens
que lemos nas entrelinhas
o mistério profundo de Deus.

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3. No Evangelho, Jesus perturba-se com a fé mercantil dos seus contemporâneos,
e por isso pede-lhes:
«Não façais da Casa de meu Pai uma feira».
Entramos no processo de purificação dos corações.
O átrio tem este efeito de preparar e acalmar o frenesim
e o tumulto que trazemos connosco.
Jesus sabe disso.
O silêncio primordial,
que esteve na origem do chamamento do Povo de Israel,
estava a desaparecer.
Os ruídos mercantilistas à volta do Templo,
que era o centro da fé dos seus antepassados,
estavam a silenciar a presença de Deus.
Israel esqueceu-se novamente da sua Aliança.
Mais uma vez desvia-se do caminho
e cai na tentação idolátrica
que é transversal a todos os povos e a todos os tempos.
Jesus encontra-se na encruzilhada da história de um Povo
que facilmente perde o solo da fé.

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4. Pedro, testemunha qualificada de Jesus Cristo,
fala da beleza do corpo rejeitado pelos homens.
Mais uma vez a vontade Deus não coincide com a dos homens.
«O escândalo, e ao mesmo tempo a ousadia do cristianismo,
é que Deus se tenha feito homem.
Mas maior loucura seria se Deus estivesse longe» (J.A. Mourão).
O corpo de Cristo, a sua vida e ministério, é a verdadeira Árvore da Vida,
cujas as raízes se encontram no coração de Deus, Seu Pai.
A promessa de Jesus: «destruí este templo, e em três dias Eu o levantarei!»,
cumpriu-se e foi presenciada por Pedro.
Jesus fala da sua Ressurreição ao terceiro dia,
de uma edificação interior,
que permanece para além das estruturas do espaço físico e do tempo.
«Pela sua morte e ressurreição,
Cristo tornou-se o verdadeiro e perfeito templo da Nova Aliança
e congregou o povo que Deus tornou Seu» (Rito da Dedicação, Preliminar 1».
Pedro afirma que aqueles que escutam a Palavra são o «templo vivo» onde Deus habita.
Em Cristo, Deus torna-se Palavra do corpo humano,
«oração do corpo» (P. Beauchamp),
que nos envolve total e solenemente nesta celebração.

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5. A Beleza abre espaço para a presença do corpo,
para a sua manifestação na celebração da fé.
Uma presença celebrativa onde fazemos experiência da musicalidade divina,
que nos é dada gratuitamente.
O homem não é apenas razão mas também sentimento e emoção.
A linguagem simbólica envolve-nos nesse mistério profundo
da habitação de Deus no corpo de Cristo,
numa tensão forte entre o escândalo do corpo Crucificado
e o esplendor do corpo Ressuscitado.
O mistério não é só aquilo que não é compreensível
mas aquilo que é demasiado rico e belo para ser entendido.
O caminho do mistério, da opção pelo não óbvio,
abre-nos para a beleza do encontro pessoal com Aquele que está vivo.
Um diálogo com a Alteridade, com o Deus amor, face a face,
onde eu me coloco como «ouvinte» do silêncio das origens
que acolhe e deseja ardentemente acreditar no amor apaixonado de Deus.

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6. Cristo é a Árvore da Vida
onde natureza e graça se unem para gerar vida nova,
de homens reconciliados com as suas feridas interiores
e dispostos a viver a alegria do «banquete nupcial».
É com este banquete que somos convidados a edificar a nossa vida em Cristo.
O corpo do Ressuscitado,
«pedra angular que os construtores rejeitaram»,
é o símbolo de toda a fé cristã,
sobre o qual está assente o memorial da fraternidade
e o ambão da Palavra,
pelo qual entoamos cânticos e salmos de alegria.
Autêntica «gramática da oração» (E. Bianchi) da espiritualidade cristã,
o corpo do Ressuscitado é o bálsamo
que nos liberta do túmulo da morte para uma vida feliz.
É assim que Neemias exorta o seu Povo:
«Ide para vossas casas,
comei uma boa refeição, tomai bebidas doces
e reparti com aqueles que não têm nada preparado.
Hoje é um dia consagrado a nosso Senhor;
portanto, não vos entristeçais, porque a alegria do Senhor é a vossa fortaleza».

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7. É neste sentido que consagramos hoje a capela Árvore da Vida.
No meio da vida quotidiana da comunidade do Seminário,
Deus coloca um autêntico «jardim pascal» sobre o «jardim do Éden».
De facto, como escreveu António Marujo,
«esta capela pode ser um jardim,
um bosque ou uma avalanche de metáforas.
Desde logo, uma metáfora de luz.
E um jogo de sombras, alusivo à criação do mundo».
Por tudo isto, ela chama, interpela e convida cada um a entrar pela «Porta das Águas»
para se tornar «ouvinte da Palavra» (K. Rahner).
Um jardim pascal selado por uma seta
que nos conduz à transparência plena do amor divino.
A intensidade da vida, desse quotidiano comum que se condivide nesta casa,
converter-se-á num verdadeiro «umbral da oração» (E. de Luca)
se professarmos a presença de Deus
na circularidade e na diversidade de dons de cada um ao serviço da comunidade.
A capela Árvore da Vida ajudar-nos-á a ver,
a escutar, a olhar, a sentir, a discernir
e a respirar o bálsamo da presença transfiguradora do Ressuscitado.
A transparência da sua riqueza simbólica não nos pode deixar indiferentes à Palavra
que vem ao nosso encontro para ser acolhida e vivida.

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8. É com este empenho que a Igreja quer «animar os artistas
a reapropriarem-se dos grandes símbolos,
das grandes narrações, os grandes temas, as grandes figuras» (G. Ravasi)
segundo a narrativa contemporânea,
porque como afirma o cardeal Gianfranco Ravasi,
«não podemos continuar a ouvir Stockhausen como se ouve Mozart»,
pois se a sensibilidade é outra,
o esforço de apropriação também terá de ser outro.
Deus «faz-se» inteira e totalmente presente no ato criativo
quando é o Senhor da vida a forma e conteúdo da mensagem.

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9. Que S. João Maria Vianney, padroeiro dos párocos,
a quem a capela é dedicada,
seja pedagogo espiritual dos nossos diálogos de amigos com Jesus e entre irmãos.
Maria, Nova Eva e Mulher vestida de sol,
nos ajude a caminhar sempre com Cristo
e a testemunhá-lo sem medo em todos os momentos da existência.

 

D. Jorge Ortiga
Arcebispo Primaz de Braga
Homilia da Dedicação da capela e altar, 20.10.2011
Fotografias da Dedicação: Pedro E. Santos
© SNPC | 31.10.11

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Nelson Garrido

 

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