
Somos como plantas que tivessem como única escolha a de se exporem ou não à luz
A 3 de Fevereiro de 2009 passam cem anos
sobre
o nascimento de Simone Weil (1909-1943)
O homem não pode nunca sair da obediência a Deus. Uma criatura não pode deixar de obedecer. A única escolha que, como criatura inteligente e livre, se oferece ao homem é a de desejar a obediência ou não a desejar. Se ele não a deseja, obedece todavia, perpetuamente, enquanto coisa submetida à necessidade mecânica. Se ele a deseja, permanece submetido à necessidade mecânica, mas uma necessidade nova se lhe acrescenta, uma necessidade constituída pelas leis próprias das coisas sobrenaturais. Certas acções tornam-se-lhe impossíveis, outras cumprem-se por seu intermédio, por vezes mesmo a despeito de si próprio.
Quando sentimos que em certa ocasião desobedecemos a Deus, isso quer simplesmente dizer que durante certo tempo deixámos de desejar a obediência. Claro que, em circunstâncias iguais, um homem não realiza as mesmas acções consoante tenha ou não consentido na obediência; da mesma forma que uma planta, em circunstâncias iguais, não cresce da mesma maneira consoante esteja à luz ou à sombra. A planta não exerce nenhum controlo, nenhuma escolha na questão do seu próprio crescimento. Nós somos como plantas que tivessem como única escolha a de se exporem ou não à luz.
Cristo propôs-nos como modelo a docilidade da matéria ao dizer-nos que olhássemos os lírios do campo, que não trabalham nem fiam. Quer dizer que eles não se propuseram revestir-se desta ou daquela cor, eles não puseram em movimento a sua vontade nem ordenaram meios para esse fim, receberam tudo o que a necessidade natural lhes trazia. Se nos parecem infinitamente mais belos do que ricas fazendas, não é que sejam mais ricos, é por essa docilidade. Também o tecido é dócil, mas dócil ao homem, não a Deus. A matéria não é bela quando obedece ao homem, apenas quando obedece a Deus. Se, por vezes, numa obra de arte, ela aparece quase tão bela como no mar, nas montanhas ou nas flores, é porque a luz de Deus inundou o artista. Para achar belas coisas fabricadas por homens não iluminados por Deus, é necessário ter compreendido, com toda a alma, que esses mesmos homens não são mais do que matéria que obedece sem o saber. Para aquele que se encontra neste ponto, absolutamente tudo neste mundo é perfeitamente belo. Em tudo o que existe, em tudo o que se produz, ele distingue o mecanismo da necessidade, e saboreia na necessidade a doçura infinita da obediência. Esta obediência das coisas é para nós, em relação a Deus, o que é a transparência de um vidro em relação à luz. A partir do momento em que sentimos esta obediência com todo o nosso ser, vemos a Deus.
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