
Uma proposta de resposta da Igreja: a "Via Pulchritudinis"
[Continuação do documento final da Assembleia Plenária do Conselho Pontifício da Cultura, 2006]
1. Acolher o desafio
Perante os desafios históricos, sociais, culturais e religiosos levantados nas duas assembleias plenárias precedentes, que aspectos da pastoral da Igreja é ela chamada a privilegiar no seu diálogo apostólico com os homens e as mulheres do nosso tempo, em especial os não crentes e os indiferentes?
A Igreja realiza a sua missão de conduzir os homens a Cristo Salvador pela partilha da Palavra de Deus e o dom dos Sacramentos da Graça. De modo a ir ao seu encontro através de uma conveniente pastoral da cultura, na luz de Cristo contemplada no Mistério da Encarnação (cf. Gaudium et spes, n. 22), a Igreja sonda os "sinais dos tempos", neles encontrando indicações preciosas para estabelecer «pontes» que conduzam a um encontro com o Deus de Jesus Cristo através de um itinerário de amizade num diálogo de verdade.
Nesta perspectiva, a Via da Beleza apresenta-se como um caminho privilegiado para tocar muitos daqueles que experimentam grandes dificuldades em receber o ensinamento da Igreja, particularmente o de ordem moral. Demasiadas vezes nestas últimas décadas a verdade sofreu por ter sido instrumentalizada pela ideologia, e o bem foi “horizontalizado”, reduzido a não mais do que um acto social, como se a caridade com o próximo pudesse passar sem o enraizamento no amor de Deus. O relativismo que encontra no “pensiero debole", o pensamento débil, uma das suas expressões mais fortes, contribui para tornar difícil uma discussão séria e racional com os não crentes.
A partir da simples experiência do encontro com a beleza que suscita o encantamento, a Via Pulchritudinis pode abrir o caminho da procura de Deus e dispor o coração e o espírito para o encontro com Cristo, que é a Beleza da Santidade Incarnada, oferecida por Deus aos homens para a sua salvação. Ela convida os novos Agostinhos dos nossos tempos, insaciáveis peregrinos do amor, da verdade e da beleza, a elevarem-se da beleza sensível à Beleza eterna e a descobrir com fervor o Deus Santo, autor de toda a beleza.
Nem todas as culturas estão abertas da mesma forma ao Transcendente e ao acolhimento da revelação cristã. Da mesma maneira, nem todas as expressões do belo – ou do que pretende sê-lo – favorecem o acolhimento da mensagem de Cristo e a intuição da sua beleza divina. As culturas, como as expressões artísticas e as manifestações estéticas, são marcadas pelo pecado, podendo atrair e até aprisionar a atenção ao ponto de se bastarem a elas mesmas, suscitando assim novas formas de idolatria. Não estaremos nós a ser demasiadas vezes confrontados com fenómenos de decadência, onde a arte e a cultura se desnaturam até ferir o homem na sua dignidade? O belo não pode ser reduzido a um simples prazer dos sentidos: isso equivaleria a interditar a plena inteligência da sua universalidade, do seu valor supremo, que é transcendente. A sua percepção requer uma educação, dado que a beleza não é autêntica se não na sua ligação à verdade – de que seria ela o esplendor, se não da verdade? A beleza é, ao mesmo tempo, “a expressão visível do bem, da mesma forma que o bem é a expressão metafísica do belo”. “Não será a beleza o caminho mais seguro para atingir o bem?”, perguntava Max Jacob. Apesar de ser acessível a todos, a via da beleza não está isenta de ambiguidades, desvios, erros, etc. Sempre dependente da subjectividade humana, ela pode ser reduzida a um estetismo efémero, deixar-se instrumentalizar e tornar-se escrava das modas sedutoras da sociedade de consumo. Também se torna urgente educar o discernimento entre o uti e o frui, isto é, entre uma relação com as coisas e as pessoas fundada unicamente na funcionalidade – uti – e uma relação autêntica e de confiança – frui -, solidamente enraizada na beleza do amor gratuito, de acordo com a obra De catechizandis rudibus, de Santo Agostinho: “Nulla est enim maior ad amorem invitatio quam praevenire amando – Não há maior convite ao amor do que amar primeiro" (Lib. I, 4.7, 26).
É igualmente necessário clarificar o que é e em que consiste a Via Pulchritudinis. De que beleza se trata, que permite transmitir a fé pela sua capacidade de tocar o coração das pessoas, que expressa o mistério de Deus e do homem, que se apresenta como uma autêntica «ponte», um espaço aberto para caminhar com os homens e mulheres do nosso tempo que já conhecem ou que desejam aprender a apreciar o belo, ajudando-os a encontrar a beleza do Evangelho de Cristo que a Igreja tem por missão de anunciar a todos os homens de boa vontade.
A continuar.
Próximo trecho: "Como é que a Via Pulchitudinis pode ser uma resposta da Igreja aos desafios do nosso tempo?"
Documento final da Assembleia Plenária do Conselho Pontifício da Cultura, 2006
© SNPC: Tradução | Publicado em 21.11.2007
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